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Assembleia cria projeto de lei para permitir cultivo de soja e outras atividades no Pantanal

Lideranças partidárias da Assembleia Legislativa de Mato Grosso (ALMT) apresentaram projeto de lei para modificar a legislação atual que limita diversas atividades produtivas na Bacia do Alto Paraguai, que compreende a região do Pantanal mato-grossense. O texto prevê que atividades produtivas que não necessitam de Estudo de Impacto Ambiental e Relatório de Impacto Ambiental (EIA/RIMA) …

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Safra de grãos 2021/2022 tem expectativa recorde, diz ministra

Por: Aldrey

Montante pode chegar a 291 milhões de toneladas A safra de grãos 2021/2022 pode chegar a 291 milhões de toneladas graças ao entusiasmo do setor pelos preços e pelo bom desempenho da agricultura brasileira. A avaliação é da ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Tereza Cristina, entrevistada desta terça-feira (28) no programa A Voz do …

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Área de pasto cresceu 200% na Amazônia nos últimos 36 anos

Atualmente, pastagens ocupam 154 milhões de hectares em todo país, área equivalente a quase todo estado do Amazonas, mostra levantamento do Mapbiomas *Foto acima: Pastagem em São Félix do Xingu, o município com maior rebanho bovino do país. Foto: Marcio Isensee e Sá Principal uso dado ao solo brasileiro, as pastagens ocupam atualmente 154 milhões …

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Por que o consumo de carne bovina no Brasil deve voltar em 2021 ao patamar de décadas atrás

Por: Site
Homem compra carne em açougue em Santo André, São Paulo
A perspectiva para 2021 é de que os preços da carne de boi continuem em alta – REUTERS/AMANDA PEROBELLI

Em meio a uma alta de 18% no preço das carnes em 2020, o consumo de proteína bovina pelos brasileiros caiu no ano passado ao menor nível em mais de duas décadas.

A perspectiva para 2021 é de que os preços da carne de boi continuem em alta, como resultado da oferta restrita de gado no país e forte demanda da China. Isso num cenário de menor disponibilidade de renda dos brasileiros, com desemprego recorde, avanço da pandemia e fim do auxílio emergencial.

Diante desse quadro, a expectativa de analistas é de uma nova queda no consumo interno de carne bovina esse ano, o que deve levar o acesso à proteína preferida pelos brasileiros a níveis anteriores à década de 1990.

“Quem mais sofre nesse cenário são os consumidores”, diz Rodrigo Queiroz, analista de mercado da Scot Consultoria, especializada em cotações do agronegócio.

Consumo é o menor desde pelo menos 1996

Segundo dados da Conab (Companhia Nacional de Abastecimento), o consumo brasileiro de carne bovina foi de 29,3 quilos por habitante em 2020, uma queda de 5% em relação aos 30,7 quilos por habitante de 2019, ano em que o consumo já havia recuado 9%.

O patamar de 2020 é o menor da série histórica da Conab, que tem início em 1996.

E representa uma redução de 13,5 quilos por habitante em relação ao ponto máximo da série, de 42,8 quilos por habitante em 2006, durante o primeiro governo Lula (PT).

A Conab mede o chamado consumo aparente ou disponibilidade interna per capita, que é o volume produzido, descontadas as exportações e somadas as importações. O número para 2020 é uma estimativa, já que ainda não há dados fechados para a produção pecuária no ano passado.

Mulher compra carne em açougue em Santo André
No ano passado, o preço das carnes subiu 17,97%, segundo o IPCA

Os dados da Conab consideram apenas a carne bovina fiscalizada. Mas, considerando a produção informal, a tendência é a mesma.

Segundo estimativa da consultoria Agrifatto, levando em conta a produção formal e informal, o consumo de carne bovina teria caído 11% em 2020, para 34 quilos por habitante, contra 38,2 quilos por habitante em 2019.

Preço da carne de segunda foi o que mais subiu

No ano passado, o preço das carnes subiu 17,97%, segundo o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), bem acima da alta de 4,52% da inflação em geral.

Dos cortes bovinos analisados pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), apenas o nobre filé-mignon teve queda de preço em 2020, de 6,28%. Já a picanha (17,01%), o contrafilé (12,71%) e a alcatra (5,39%) ficaram mais caros no ano passado.

As carnes de segunda, mais consumidas pela população de baixa renda, cujos rendimentos foram impulsionados pelo auxílio emergencial em 2020, foram as que mais subiram, com alta de 29,74% da costela, aumento de 27,67% do músculo e avanços de 26,79% e 20,75%, respectivamente, do cupim e do acém.

A alta das carnes nos supermercados acompanhou o aumento do preço do boi no campo.

A arroba do boi gordo fechou 2020 cotada a R$ 267,15, uma alta de 29% em relação ao final de 2019, segundo o Cepea da Esalq/USP (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada, da Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” da Universidade de São Paulo).

Somente nos primeiros 15 dias de 2021, o preço do boi gordo já subiu 7,77%.

Falta gado e sobra demanda chinesa

“Há uma combinação de fatores que explica a alta no preço do boi”, diz Lygia Pimentel, diretora-executiva da Agrifatto. “O mais determinante é o ciclo pecuário: entre 2016 e 2018, nós abatemos muitas fêmeas no Brasil, com isso, o preço do bezerro subiu muito e diminuiu a oferta de gado pronto para entregar.”

Desde o final de 2019, com o preço dos chamados animais de reposição (bezerro, boi magro e garrote) em alta, os produtores passaram a reter as fêmeas nas fazendas para produzir novos animais. Com menos fêmeas “indo para o gancho”, na linguagem dos pecuaristas, a oferta de gado para abate ficou reduzida no ano passado e a tendência é que a retenção de fêmeas continue ao longo desse ano, já que o preço do bezerro segue nas alturas.

“O segundo fator importante certamente foi a China, porque, nos outros mercados compradores de carne brasileira — Egito, Rússia, Chile, Estados Unidos —, houve retração”, diz Pimentel, destacando ainda o papel da alta do dólar nesse impulso às exportações para a China, o que reduz a oferta de carne no mercado interno, levando à alta de preços.

A analista destaca que a participação do país asiático nos embarques brasileiros de carne bovina chegou a 40,9% em 2020, comparado a 25,3% em 2019 e 6,5% em 2015.

E que, com esse impulso chinês, a participação das exportações na produção total de carne bovina brasileira chegou a 28% no ano passado, contra 24% em 2019 e 19,3% em 2015.

Forte demanda da China ainda é reflexo da gripe suína

O coronavírus em 2020 tornou o quarto surto de gripe suína da China em 2018 uma lembrança distante. Mas é essa epidemia que ainda repercute na forte demanda chinesa por proteínas.

“Ainda não houve resolução para a peste suína africana. Ninguém sabe o número exato, mas se estima que ela dizimou entre 40% e 60% do plantel de suínos na China, isso representa mais ou menos um terço da produção de carne de porco do mundo”, diz Rodrigo Queiroz, da Scot Consultoria.

Com essa redução na oferta de suínos, os chineses têm consumido mais frango e carne bovina, daí o forte aumento da demanda naquele país.

Além desse fator conjuntural, também contribuíram para o crescimento das importações pela China o fato de ela ter sido a única grande economia do mundo a registrar crescimento em 2020, mesmo em meio à pandemia do coronavírus, e um fator mais de longo prazo, que é o gradual aumento de renda da população chinesa, o que resulta em maior consumo de proteínas mais caras, como é o caso da carne bovina.

Quem se beneficia da alta de preços?

Segundo os analistas, a alta de preços do boi gordo tem impacto distintos na cadeia pecuária.

Os pecuaristas que trabalham com engorda e recria chegaram a perder margem no ano passado, já que o farelo de soja subiu 100%, o milho subiu 70% e o bezerro, mais de 80% dependendo da categoria.

“Por mais que o boi tenha subido de preço, os custos de produção variaram acima”, observa Pimentel, da Agrifatto. Segundo ela, pecuaristas que trabalham com o ciclo completo — produzindo o bezerro, engordando ele e vendendo o boi dois anos depois – tiveram margens melhores, porque seu estoque se valorizou.

Já entre os frigoríficos, a diferença está entre os pequenos dedicados ao mercado interno e os maiores, com certificação para exportar.

“O frigorífico que trabalha exclusivamente com o mercado doméstico foi muito prejudicado em 2020, porque o preço do boi gordo subiu muito e o preço da carne no atacado não acompanhou na mesma medida, então ele perdeu margem.”

Segundo Paulo Bellincanta, presidente do Sindifrigo-MT (Sindicato das Indústrias de Frigoríficos de Mato Grosso), foram muitos os frigoríficos que precisaram fazer ajustes para sobreviver ao ano passado.

“Toda indústria tem uma linha de equilíbrio de produção, com uma série de custos fixos. Quando o abate fica muito abaixo da capacidade da empresa, aumenta o custo no produto final, isso se reflete nesse preço maior que estamos vendo na ponta, com a carne mais cara para o consumidor”, diz Bellincanta, que estima que a ociosidade da indústria frigorífica esteve entre 15% e 25% ao longo de 2020, sendo que o normal é uma folga em torno dos 10%.

E o que esperar para 2021?

No ano que se inicia, as perspectivas não são melhores, já que a renda e a demanda do brasileiro devem diminuir, mas os preços da carne tendem a continuar em alta, devido à escassez de oferta e à forte demanda externa.

“Com o desemprego acima dos 14% e a extinção do auxílio emergencial, o consumidor brasileiro de baixa renda vai para proteínas alternativas, como ovo, frango e suíno, que também estão com valores altos, mas a carne bovina é a que mais sente quando o poder aquisitivo da população diminui”, diz Queiroz, da Scot Consultoria.

Mulher come hambúrguer
Os preços das carnes devem permanecer pressionados pelo menos até a metade de 2022 – GETTY IMAGES

“Esperamos uma nova queda do consumo per capita de carne bovina esse ano, voltando a patamares antigos, de 20, 30 anos atrás”, completa.

O pesquisador Thiago Bernardino de Carvalho, do Cepea, estudou em sua tese de mestrado a relação entre variação de renda e consumo de carnes.

“O consumo de qualquer tipo de alimento de valor agregado maior é determinado por renda, preço e preferência”, diz Carvalho. “A carne bovina de primeira é a que tem maior elasticidade entre as carnes, em torno de 0,6. Ou seja, se a renda aumentar 10%, o gasto com carne bovina de primeira aumenta 6%. Para carne de segunda, a elasticidade é de 0,2.”

“Nesse primeiro semestre, com o fim do auxílio, o consumo cai no mercado brasileiro, sem sombra de dúvida”, diz o pesquisador, ponderando que o quadro pode ser melhor na segunda metade do ano, caso a economia venha a se recuperar, levando a um aumento da renda.

O problema não acaba em 2021

Pimentel, da Agrifatto, avalia que os preços das carnes devem permanecer pressionados pelo menos até a metade de 2022, por conta do ciclo pecuário. “A baixa oferta de boi gordo não é algo que se consegue resolver de imediato. A produção de bovinos é plurianual, começa a produzir hoje, para entregar esse animal daqui dois, três, quatro anos. Então demora.”

Já Bellincanta, do Sindifrigo-MT, avalia que, mesmo quando houver aumento da oferta de gado, os preços da carne bovina não voltarão aos níveis do passado, devido a mudanças na indústria pecuária que tornaram o processo de produção mais custoso.

“O Brasil, a cada dia que passa, tem menos animais sendo terminados a pasto. O grande rebanho brasileiro hoje é terminado em confinamento”, diz o empresário. “Há cerca de dez ou 15 anos atrás, havia menos de 20% de animais terminados a cocho, hoje é mais da metade. Esses animais comem grãos, e por isso são finalizados em 18 a 24 meses, comparado a três a quatro anos quando o animal era solto no pasto.”

“Então teremos uma proteína mais cara sem data, não há volta nesse processo. A arroba do boi ganhou valor e terá oscilações, mas estará sempre em novo patamar.”

Por: Thais Carrança
Fonte: BBC News

Muito discurso, pouca prática: empresas “verdes” financiam indústria da carne na Amazônia

Por: Site
Empresas que se dizem sustentáveis seguem patrocinando abates de boi na Amazônia. Foto: Marcio Isensee e Sá.

Em dezembro de 2015, após quatro anos de negociação, 195 países decidiram se unir para frear o aquecimento global. Eles assinaram o Acordo de Paris, em que se comprometeram a tomar medidas para conter o aumento da temperatura do planeta em até 2°C acima dos níveis pré-industriais. Cada nação definiu as próprias metas para atingir este objetivo. A União Europeia (UE) se prontificou a diminuir em 40% a contaminação da atmosfera com gás carbônico, enquanto o Brasil prometeu chegar a 43% de redução nas emissões de gases de efeito estufa até 2030. Para isso será preciso zerar o desmatamento ilegal e ainda recuperar 12 milhões de hectares de florestas já derrubadas.

Mas enquanto o governo de Jair Bolsonaro (sem partido) ameaçou sair do Acordo de Paris e a Amazônia registrou em 2019 a maior taxa de desmatamento em dez anos, a Europa já começou a se mexer – tendo como uma das principais linhas de ação o mercado financeiro. “O setor financeiro tem um papel chave para atingir estes objetivos, já que grandes quantidades de capital privado terão de ser direcionados aos investimentos sustentáveis”, afirma o bloco europeu.

A certeza vem da compreensão, cada vez mais consensual, de que nenhum esforço será suficiente para conter as mudanças climáticas se os donos do dinheiro continuarem alimentando setores que emitem toneladas de CO2. É o caso das empresas de carne bovina que atuam na Amazônia e que são financiadas por grandes instituições europeias como Deutsche Bank, HSBC, Santander e Credit Suisse. Em 2018, a pecuária foi responsável por 19% das emissões de CO2 do Brasil. Se a conta incluir o desmatamento na Amazônia, onde dois terços das derrubadas são para abertura de pasto, o setor se torna responsável por até 45% da contaminação atmosférica nacional no período.

Para orientar os investidores na transição para uma economia de baixo carbono, a Comissão Europeia lançou, em março deste ano, o EU Taxonomy, um guia que classifica os setores econômicos segundo seu impacto ambiental e cria uma régua padrão para comparar a sustentabilidade de cada um. “Ao classificar as empresas, a taxonomia vai permitir que o investidor saiba o quanto aquele negócio está contribuindo para a mitigação e adaptação às mudanças climáticas. É uma ferramenta sofisticada, que vai muito além do que qualquer outro país já fez. É absolutamente poderoso”, elogia Natalie Unterstell, administradora pública e diretora da Talanoa, organização que produz estudos e projetos para mitigação de riscos climáticos.

A partir de dezembro de 2021, as instituições financeiras e grandes corporações europeias terão que incluir esse indicador verde ao divulgarem onde estão investindo seus recursos. Desde 2018, já há obrigatoriedade para as empresas de informar nos relatórios anuais sua conduta em relação à proteção ambiental, responsabilidade social, diversidade de seus conselhos de administração, respeito aos direitos humanos e medidas anticorrupção.

Para o Brasil, o cerco europeu sobre quem desrespeita o meio ambiente pode ter consequências práticas: o acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia, debatido por mais de duas décadas e finalmente fechado em 2019, pode vir abaixo pela omissão do governo Bolsonaro no combate ao desmatamento. Neste tratado, há um capítulo inteiro dedicado ao desenvolvimento sustentável, que obriga os signatários a cumprirem o Acordo de Paris e os proíbe de enfraquecer seus níveis de proteção ambiental, revogar leis ambientais ou deixar de aplicá-las de forma reiterada. Um sinal de que o Brasil deveria levar a sério as advertências de autoridades europeias é um pacto semelhante firmado entre o bloco e o pequeno Vietnã: o texto só foi aprovado pela assembleia da UE depois que o governo vietnamita se comprometeu a fortalecer os direitos trabalhistas no país.

Terra com lei, mas sem penalização

Do lado de cá do Oceano Atlântico, o compromisso com negócios e investimentos socioambientalmente corretos ainda é uma quimera. “O Brasil está a reboque do resto do mundo. Infelizmente não estamos criando regras aqui”, lamenta Unterstell, que antes de fundar a Talanoa, coordenou o mais ambicioso estudo de cenários e alternativas de adaptação à mudança climática no país – o Brasil 2040, lançado em 2015 pela presidência da República.

Desde 2014, empresas que operam na bolsa de valores brasileira são obrigadas a incluir informações ASG (compromissos ambientais, sociais e de governança) no formulário de referência que entregam anualmente à Comissão de Valores Mobiliários, e que auxilia os investidores nas suas tomadas de decisão. Mas na prática, os dados são vagos.

Em 2019, por exemplo, a JBS dedicou dois parágrafos em 650 páginas para informar que as mudanças climáticas podem “ter um efeito material

adverso sobre resultados operacionais, situação financeira e de liquidez”. Apesar disso, o documento não relaciona a atividade principal da empresa, que em 2017 tinha 32 frigoríficos na Amazônia, com o risco de desmatamento e suas consequências para o controle da temperatura do planeta. A única referência ao problema aparece no capítulo “ações judiciais”, quando dá notícia do Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) da Carne, um acordo firmado com o Ministério Público Federal em que a empresa se compromete a não comprar gado de desmatamento ilegal. A empresa anota que “não há chance de perdas” financeiras em decorrência do TAC, embora o procurador da República Daniel Azeredo afirme que o expediente não tem sido suficiente para impedir que os grandes frigoríficos abatam animais provenientes de áreas desmatadas.

O Banco Central do Brasil (BC), que regulamenta o sistema financeiro nacional, também publicou resoluções que obrigam bancos e instituições financeiras a considerarem aspectos ambientais em suas operações. A mais antiga, de 2008, condiciona a concessão de empréstimos a fazendeiros na Amazônia à entrega de documentação que comprove a regularidade ambiental das propriedades.

Mas a norma não pegou. Segundo a assessoria de imprensa do BC, jamais uma instituição financeira foi sancionada por descumprir a resolução. A única vez que um banco foi responsabilizado no Brasil por financiar o desmatamento foi em 2016, quando o Ibama multou em R$ 47,5 milhões o Santander por financiar o plantio de grãos em área de proteção ambiental – terra sobre a qual vigorava um embargo, ignorado na hora de analisar o pedido de crédito. O Ministério Público Federal cobrou mais R$ 7,3 milhões do banco, a título de indenização por danos ambientais. O Santander recorreu e, três anos depois ainda não teve que pagar um tostão. Na lista do Ibama, há 19 bancos multados por irregularidades ambientais, mas o do Santander é o único caso de autuação por financiamento de produção em área embargada.

Além de exigir regularidade ambiental para quem solicitar crédito, em 2014 o Banco Central determinou que as instituições financeiras considerem os riscos socioambientais antes de decidir apostar suas fichas em um determinado investimento – o que foi reafirmado em 2017. Em 2018, a imposição passou a valer também para as aplicações financeiras de entidades fechadas de previdência complementar.

Mais uma vez, as regras parecem não funcionar bem. Segundo uma análise de ((o))eco com base em levantamento da Global Witness, os três frigoríficos que mais compram bois na Amazônia receberam 18 bilhões de dólares em investimentos entre 2013 e 2019. Oito bilhões de dólares vieram de instituições financeiras brasileiras, embora JBS, Marfrig e Minerva sejam apontadas pelo Imazon como a primeira, a quinta e a décima processadoras de carne do país com maior chance de promoverem o desmatamento.

“Todos os bancos que a gente identificou que financiam estas empresas têm políticas socioambientais, então, em teoria não poderiam investir em frigoríficos com exposição ao desmatamento”, assinala Chris Moye, investigador florestal e um dos autores do relatório da Global Witness, Money to Burn.

Estados Unidos freiam avanços

Mesmo na Europa, onde as regras mais rígidas estão sendo implantadas, os investidores seguem apostando suas fichas na indústria de carne brasileira. Um quarto do dinheiro estrangeiro que alimenta JBS, Marfrig e Minerva vem de países europeus.

Depois dos brasileiros, os norte-americanos são os que mais investem nos frigoríficos contaminados com desmatamento – uma dificuldade extra na transição nacional para uma economia de baixo carbono. O presidente norte-americano, Donald Trump, já iniciou o processo para que os EUA abandonem o Acordo de Paris e as diretrizes para investidores são cristalinas: administradores de fundos de aposentadoria, por exemplo, “não devem tratar os fatores ASG como economicamente relevantes” nas suas escolhas de investimento, e sim “colocar sempre em primeiro lugar os interesses econômicos”.

“Os Estados Unidos não estão assumindo posições tão duras quanto a Europa”, afirma o analista Cole Martin, da Fitch Solutions, empresa que faz análises de diversos setores da economia. “As empresas norte-americanas não estão sob grande pressão para aumentar suas credenciais de sustentabilidade ou sua transparência nesta área. As que estão fazendo isso, fazem por vontade própria”, complementa.

Unterstell, por sua vez, não é tão pessimista em relação aos norte-americanos. Para a diretora da Talanoa, as mudanças estão sendo cada vez mais conduzidas pelo próprio mercado financeiro, independente da inércia do governo Trump. “É menos uma questão de estado ou regulação e mais de postura de mercado. Desde 2013 o que se vê são os maiores players – como Bloomberg e BlackRock – trabalhando com riscos climáticos e dando muita atenção aos títulos verdes. São eles que estão criando os padrões e as regras”, conclui.

Autorregulação falha no mundo inteiro

A preocupação com a economia de um mundo superaquecido vem originando inúmeras iniciativas dentro do próprio mercado financeiro para estimular investimentos ambientalmente responsáveis, criadas sobretudo nas últimas duas décadas. O pioneiro dos defensores dos investimentos verdes foi o Carbon Disclosure Project, ou Projeto de Divulgação de Carbono, uma ONG fundada no ano 2000 que se tornou a mais completa base de dados ambientais autodeclarados do mundo.

A mais recente entre as iniciativas do mercado é a Task Force on Climate-Related Financial Disclosures (Grupo de Trabalho sobre Divulgações Financeiras Relacionadas ao Clima), criada em 2015 pelo Financial Stability Board, órgão que monitora o sistema financeiro de todo o planeta. São mais de mil empresas associadas, apenas 20 no Brasil e nenhuma no setor da carne. Despontam entre os signatários as companhias japonesas (265 participantes), país que tem seis empresas entre as financiadoras internacionais de JBS, Marfrig e Minerva, contribuindo com mais de meio bilhão de dólares para seus negócios.

O maior acordo deste tipo foi firmado em 2006, na bolsa de Nova Iorque, quando apareceu a iniciativa PRIs – sigla para “principles for responsible investment”, ou, em português, “princípios para o investimento responsável”. Seus mais de três mil signatários se comprometem a incorporar questões socioambientais e de governança nas suas decisões de investimento, embora entre eles haja financiadores dos frigoríficos que operam na Amazônia.

A BlackRock é um caso emblemático: em janeiro deste ano, o CEO da gestora de ativos, Larry Fink, anunciou a seus agentes, por carta, a decisão corporativa de “posicionar a sustentabilidade no coração da nossa estratégia de investimento”. Mas até o ano passado a BlackRock era uma das 15 maiores investidoras mundiais na cadeia da carne brasileira que opera na floresta. Entre 2013 e 2019 realizou 36 operações de compra de títulos de dívida e ações nos três frigoríficos, num valor total de 236 milhões de dólares.

Outro exemplo – desta vez brasileiro – é o Bradesco, banco que se orgulha de ostentar os selos de signatário do PRI, do TCFD, do CDP e de outros sete acordos voluntários. O que não impede que a instituição seja a segunda maior financiadora nacional dos frigoríficos que operam na Amazônia, segundo a análise feita pelo ((o))eco a partir dos dados da Global Witness.

No Brasil, 63 instituições são signatárias do PRI – e a lista não inclui nenhuma indústria de carne.

Por aqui, entidades ligadas ao mercado financeiro também têm buscado se conectar com o discurso dos bons propósitos e do investimento verde, mas na prática ainda há muitas incoerências. A Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) criou uma categoria de fundos de investimento chamada “sustentabilidade e governança”, mas entre os 2.610 fundos de ações ativos no Brasil, apenas 21 são desse tipo – dos quais dois possuem ações de ao menos um dos três frigoríficos que mais atuam na Amazônia. Outros cinco destes fundos – que deveriam valorizar as boas práticas de governança, entre elas a transparência –, omitem sua carteira de investimentos ao público. A Comissão de Valores Mobiliários disse que não se responsabiliza pela fiscalização desses fundos e a Anbima não respondeu qual é a garantia de que os produtos realmente financiam apenas empresas ambientalmente comprometidas.

A Associação de investidores no Mercado de Capitais (AMEC) publicou em 2016 um código com os princípios e deveres de empresas que administram investimentos. Um dos fatores “determinantes finais da decisão de investimento” são informações ASG.

A Associação Brasileira das Entidades Fechadas de Previdência Complementar (Abrapp) lançou um manual de autorregulação e um “Guia Prático para Integração ASG na Avaliação de Gestores”. A Federação Brasileira de Bancos (Febraban) criou uma Régua de Sensibilidade ao Risco Climático, que mostra a pecuária com um dos investimentos de alto risco.

Mas um estudo da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), de 2018, mostra que a preocupação com a sustentabilidade ainda está longe das planilhas dos gestores financeiros. Para começar, apenas 110 das 520 gestoras de recursos consultadas responderam ao questionário. Embora a maioria (85%) afirme considerar o potencial impacto de questões ambientais, sociais e de governança em suas decisões, apenas 11% tem equipe específica para análise destes aspectos. Entre as empresas que responderam, 20% usa um banco de dados específico para esta finalidade e 21,36% contam com uma política de investimento responsável. Apesar da baixa adesão, o estudo revela a falta de interesse para aprimorar estes métodos: 67% das gestoras de recursos não têm metas ou objetivos para integração desses aspectos nas suas análises de risco.

Pressão do consumidor fará cada vez mais a diferença

A pesquisa da Anbima revela por que, apesar de tantos guias, manuais e recomendações, as ações das empresas que compram e vendem a carne produzida na Amazônia seguem imunes à destruição da floresta.

“Aderir a acordos ou iniciativas ‘verdes’ é uma estratégia comum do setor empresarial, mas no Brasil se tornou uma forma de adiar ou evitar a imposição de uma regulação oficial sobre o tema”, denuncia Paulo Barreto, pesquisador sênior do Imazon que acompanha há muitos anos as negociações em torno da indústria da carne.

Na prática, o resultado é ínfimo: “Se não tiver prazos vinculados a metas, desempenho e sanções claras, tem pouca oportunidade de avanço”, afirma Barreto.

A baixa efetividade dos esforços regulatórios mostra que o interesse em mudar o jogo do desmatamento terá de partir dos próprios investidores, cujas decisões são movidas por basicamente duas palavras: risco e lucro.

É aí que entra o papel do consumidor, especialmente para fazer pressão à indústria da carne. Empresas como a JBS interagem diretamente com o público, porque suas marcas estão expostas nas prateleiras dos supermercado. “Estas empresas estão sob risco de retaliação do consumidor”, avalia Cole Martin, analista da Fitch Solutions, que acredita que o desmatamento será um problema crescente para os frigoríficos da Amazônia daqui para frente.

“O governo também pode mudar regras, criar impostos sobre a carne em função do dano ambiental, ou aprovar novas leis sobre bem estar animal que vão aumentar os custos da empresa e diminuir seus rendimentos. Para mim é nisso que os investidores vão estar atentos”, afirma.

Um bom balanço desse ponto, segundo Martin, é a própria crise das queimadas da Amazônia no ano passado, quando as atenções de todo o mundo se voltaram para o Brasil. Embora tenha havido uma onda sem precedentes de solidariedade com a floresta, em 11 anos dos últimos 20 anos o estrago foi maior que o de 2019, segundo os dados do Inpe.

“Mas se você for ao Google Trends e procurar por ‘Floresta Amazônica’ desde 2004 você vê a linha achatada, e em 2019 você vê um boom. Houve uma enorme atenção da mídia, com a União Europeia se recusando a ratificar o acordo com o Mercosul. Os riscos para o mercado estão crescendo”, avalia.

Contraponto

Banco Central (leia a íntegra da resposta aqui):

O Banco Central informa que cabe à própria instituição supervisionar a implementação das regulamentações ambientais. No caso do crédito rural, todas as operações são registradas no Sistema de Operações do Crédito Rural e do Proagro (SICOR) que possui críticas que impedem que a operação seja concedida caso esteja em desacordo com determinados parâmetros, como o registro no CAR e a duplicidade de operações na mesma área. Mesmo assim, o BC fiscaliza a atuação das instituições financeiras e monitora as coordenadas geodésicas das áreas financiadas. Em caso de irregularidades, além de interromper os incentivos e subsídios afetos ao crédito rural, podem ser aplicadas sanções previstas na Lei 13.506/2017 [que trata das punições a quem descumpre as regras do BC] e regulamentadas pela Circular nº 3.857/2017 [que trata do rito do processo administrativo das sanções], bem como a comunicação ao Ministério Público Federal, quando houver indícios de crime”. No que diz respeito às análises de risco socioambiental o BC afirma faz inspeções e monitoramento para avaliar os riscos assumidos pelas entidades supervisionadas.

Bradesco (leia a íntegra da resposta aqui):

O Bradesco afirma que avalia os riscos socioambientais antes da concessão do crédito, por meio de informações de domínio público e dados disponibilizados pelos clientes. Na concessão de crédito rural no bioma amazônico, além dos requerimentos técnicos previstos em lei, o Bradesco exige a apresentação de projeto técnico e contrata empresas que executam auditoria presencial. O resultado dessa análise resulta em um rating socioambiental que é apreciado no processo de deliberação de crédito. O banco destaca que tem uma equipe técnica multidisciplinar dedicada exclusivamente às análises de risco socioambiental.

Febraban (leia a íntegra da resposta aqui):

A Febraban informa que a profundidade das avaliações dos riscos socioambientais feitas pelos bancos é determinada pela relevância e a proporcionalidade da operação para a instituição financeiras. Isto é, uma operação que represente um potencial risco de dano socioambiental e tenha uma representatividade importante na carteira de crédito será objeto de uma avaliação detalhada. Segundo a entidade, os bancos, em geral, têm áreas e equipes dedicadas à gestão do risco socioambiental. A Febraban afirma que o tema ambiental é uma preocupação crescente e global dos bancos, seguradoras, investidores, empresas, consumidores e reguladores.

Santander

O Santander esclarece que atuou e segue atuando em conformidade com a regulamentação aplicável e adota as melhores práticas socioambientais. Por essa razão, a instituição apresentou uma defesa administrativa ao Ibama, que ainda não foi apreciada. Sobre o relatório da Global Witness, o Banco acrescenta que realiza, anualmente, a reavaliação de sua carteira de clientes corporativos sob critérios socioambientais, levando em conta suas cadeias de fornecedores. Um dos fatores observados, no caso das empresas mencionadas no relatório Amazon Watch, foi o cumprimento dos acordos firmados com o Ministério Público Federal e o Greenpeace para garantir a procedência dos animais adquiridos na região amazônica.

Esta reportagem é a segunda de uma série que vai investigar a relação entre o mercado financeiro e a indústria da carne no Brasil. Se você quiser entrar em contato com a equipe para oferecer alguma sugestão de abordagem, basta escrever para quemfinanciaodesmatamento@gmail.com.

Por: Fernanda Wenzel, Naira Hofmeister, Pedro Papini e Juliana Lopes
Fonte: O Eco

Desmatamento zero: modelo sustentável inova a criação de gado na Amazônia

Por: Site
Criador de gado no Médio Solimões há quase 30 anos, Otacílio Soares Brito adotou o sistema de Pastoreio Racional Voisin (PRV). Sua fazenda Ágda tornou-se uma referência para criadores da região. Foto: Amanda Lelis.

Nos anos 90, Otacílio Soares Brito comprou uma área de 100 hectares na Amazônia, no Médio Solimões. Criar gado era um sonho de infância moldado pela falta de leite na região. Brito acomodou as suas 35 cabeças na área e tudo corria bem. Até que, em 2015, o jogo virou. Os animais começaram a morrer e o diagnóstico veio rápido: o pasto estava empobrecido de nutrientes, culpa do tempo e do mau uso do solo, uma situação comum no modelo da pecuária extensiva.

O pecuarista precisava pensar em alternativas – abrir e desmatar novas áreas não fazia parte dos seus planos. Era necessário encontrar uma forma sustentável de criação, que aliasse produtividade e respeito à floresta.

A agropecuária é uma das atividades mais importantes para a economia brasileira, tanto para abastecimento interno quanto pelas exportações. A criação de gado na Amazônia, contudo, está quase sempre atrelada ao desflorestamento ilegal.

Estudos apontam que até 80% do problema são atribuídos ao ciclo que envolve a derrubada de árvores, depois a queima do terreno e a inclusão de bois. Quase tudo ilegal. Áreas ocupadas e já degradadas – empobrecidas e sem serventia para pasto – costumam ser abandonadas e novos terrenos são ocupados. E o ciclo se repete.

Não precisa ser sempre assim. “O gado não é o vilão. A forma de produção é que pode ser maléfica ou não”, explica a engenheira agrônoma Jerusa Cariaga, do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, uma organização social que utiliza a ciência e a tecnologia a favor da sustentabilidade. Em dezembro de 2019, o Sistema de Alerta do Desmatamento, do Imazon (Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia) detectou 227 quilômetros quadrados de desmatamento na Amazônia Legal.

Aproveitar áreas já degradadas e abandonadas é uma das soluções apontadas para a criação de gado na floresta. Um estudo publicado pela revista Science em 2019 mostra que o Brasil tem 50 milhões de hectares nessas condições, uma área imensa que poderia perfeitamente ser regenerada para a agropecuária. Recuperar o pasto: estava aí a chave para Brito. Como fazer, ele não sabia, mas tinha consciência de que seria necessário quebrar paradigmas se quisesse se tornar um criador sustentável.

Os rebanhos brasileiros crescem à medida que a pecuária se firma como atividade fundamental para os números da economia do país. Foto: Leo Lopes.

Maior produtividade, mesmo em áreas menores Ao pedir ajuda, Brito foi socorrido pelo Instituto Mamirauá, que já estudava implantar a técnica do sistema de Pastoreio Racional Voisin (PRV) junto aos criadores da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Amanã, em Tefé, no Amazonas. Ali, as comunidades ribeirinhas criam bois e cultivam vegetais.

No sistema PRV, idealizado pelo pesquisador francês André Voisin, o gado fica confinado em parcelas cercadas para pastar e, depois de consumir aquela pastagem, é movido para a próxima parcela, enquanto o solo e a vegetação da primeira se recuperam. Essa forma de criação dispensa a necessidade de que novas áreas de floresta sejam derrubadas para servir de pasto. Além de rentável, o processo é sustentável e a produtividade é maior, mesmo usando uma área menor.

Brito foi convidado pelo instituto não só a implantar o sistema de manejo de gado, mas também a transformar sua área, a fazenda Ágda, em uma unidade demonstrativa para que demais criadores pudessem aprender e se inspirar. Além de uma mudança de pensamento, foi preciso investimento, acompanhamento técnico e disposição.

“O que a gente conhecia de técnica era criação extensiva, que em curto prazo exaure o solo e obriga o criador a abrir outras áreas, trazendo grande impacto ambiental. Com a tecnologia do Pastoreio Racional Voisin, os bezerros começaram a nascer novamente”, diz Brito.

No PRV, segundo especialistas ouvidos pela Mongabay, o comportamento do gado muda porque se antes ele precisava ir atrás do alimento – o que amplia a possibilidade de assoreamento dos rios –, comida e água agora ficam disponíveis em cada cercado, o que também diminui a energia gasta pelo animal. “Muda o princípio filosófico da criação”, diz Brito. “Isso facilita e é melhor para todo mundo. O consumidor vai comer uma carne de primeira, sem agrotóxico, com manejo correto.”

O gado da Amanã é importante para os criadores porque a produção tem alta liquidez, ou seja, é vendida rapidamente e durante todo o ano, diferentemente de recursos nativos e sazonais, como o pescado ou a castanha-do-brasil. “Serve como uma poupança, uma segurança para as famílias caso surjam emergências e eventualidades”, afirma Paula Araújo, veterinária do Programa de Manejo de Agroecossistemas do Instituto Mamirauá. Longe dos centros urbanos, as comunidades dependem da caça e da pesca para sobreviver e, nesse contexto, o gado torna-se uma opção a mais de fonte de proteína.

“A gente não está falando em aumentar a escala ou em incentivar a produção. O que a gente quer é que, dentro dessa escala de produção, eles consigam ter maior eficiência produtiva sem pressionar a floresta, sem ter que aumentar a área de pastagem. Trabalhar com aquilo que já tem, mas com mais eficiência”, diz Araújo.

A criação de gado tem história antiga na região. Grande parte das comunidades ribeirinhas do Médio Solimões foram formadas a partir de famílias advindas de outras partes do Norte depois do fim do ciclo da borracha. Esses mgirantes trouxeram também cabeças de gado. “Provavelmente imaginavam que as opções de proteína na região não seriam muitas”, diz Jerusa Cariaga.

Segundo Paulo Barreto, pesquisador sênior do Imazon (Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia), para os sistemas de criação que envolvem o pasto rotativo terem resultado positivo e as expectativas não terminarem em frustração, três fatores são fundamentais: investimento, capacitação e acompanhamento. Uma dica de Barreto é começar pequeno, com 5% da área para aprender e para analisar a viabilidade financeira, que tem a ver com quão degradado está o solo.

No sistema PRV, o gado esgota uma área de pastagem e é transferido para outra, enquanto a primeira se recupera. Foto: Amanda Lelis.

O desafio: criar em uma área naturalmente sensível

Atualmente, a reserva Amanã conta com cerca de 600 cabeças de gado, entre bois e búfalos, criados por cerca de 25 famílias. Três delas iniciaram o processo de criação pelo sistema PRV. A região é uma área de várzea e, portanto, altamente suscetível às chuvas e secas amazônicas.

Com grandes custos de produção e dificuldades logísticas para escoamento do produto, são poucas as famílias que encaram o desafio de criar gado em uma região cujo terreno oscila entre florestas de terra firme e várzea, limitações impostas pelo próprio ambiente. “As áreas inundáveis servem como limitador natural para a expansão de áreas de pastagem em um nível que possa causar desequilíbrio no ecossistema”, explica a veterinária Paula Araújo.

Funciona assim: na estação seca, quando o nível dos rios locais desce drasticamente, grandes porções de vegetação surgem onde antes havia apenas água. Esses “campos da natureza”, como são chamados ali, muito ricos em nutrientes, são facilmente aproveitados por criadores para a alimentação do gado.

A história é outra quando os rios estão cheios e pouca terra sobra acima da água. O gado, então, tem de ser movido para os “campos de terra firme”, espaços limitados que, sem o manejo adequado, tendem à rápida degradação do solo e à escassa disponibilidade de nutrientes para os animais.

Parte da área degradada de Brito, com o sistema PRV, já voltou a ser floresta e a produtividade, ele afirma, aumentou. E melhorar a produtividade, no caso da Amazônia, é sair da média de 1,26 cabeça por hectare para até três cabeças. De acordo com os dados do Censo Agropecuário 2017, 98% dos municípios da Amazônia (694 de 772) têm taxa de lotação igual ou inferior a 1,9 cabeça por hectare. E dentre esses, 70% têm taxa igual ou inferior a 1,26 cabeça por hectare.

“Acredito que o homem só tem capacidade de preservar o meio ambiente quando atinge a consciência da importância dele para todos os seres vivos. Com isso, ele coloca de lado a ganância e começa a agir pela luz da razão e da ciência para que possa desenvolver a sua atividade com menos impacto ambiental”, comenta Brito.

Por: Maria Fernanda Ribeiro
Fonte: Mongabay

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