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Pela radiofonia, indígenas do Alto Rio Negro recebem informações de prevenção contra o coronavírus

Por: Site
Na imagem, estão indígenas Tukano da comunidade São Domingos, no rio Tiquié, em São Gabriel da Cachoeira (Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real)

Uma pequena sala na sede da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn) tem guardado – e compartilhado – um poderoso recurso contra a pandemia do novo coronavírus, a Covid-19: a informação. Nesse espaço funciona a radiofonia, sistema que leva informação sobre a doença a pelo menos 200 comunidades do Alto Rio Negro, em São Gabriel da Cachoeira, no noroeste do Amazonas.

Na região do Alto Rio Negro não há registros de casos do novo coronavírus. Presidente da Foirn, Marivelton Baré explica como a organização está fazendo a prevenção pela radiofonia. Ele disse que há radiofonia em 210 comunidades e cada uma delas acaba atendendo a várias outras. “A radiofonia tem sido um modelo de comunicação eficaz no Rio Negro. Pela grande mobilidade que tem entre as comunidades, nas calhas, isso permite também elas irem repassando as informações”, diz.

Ao todo, são cerca de 750 comunidades de 23 etnias atendidas pela federação, numa área de 108 mil quilômetros quadrados. Marivelton explica que a crise da Covid-19 ressaltou a necessidade de reforço do sistema de comunicação. “Estamos priorizando as comunidades mais longínquas, como as comunidades Hupda, que têm mais dificuldade de acesso à comunicação”, explica.

Na sala de radiofonia, Edneia Teles, da etnia Arapaso e que faz parte do Departamento de Comunicação da Foirn, passa cerca de duas horas diárias no ar. O sistema usado para todo tipo de comunicação tem enfatizado os esclarecimentos sobre o coronavírus.

Do outro lado do rádio, surgem perguntas como “o que é o Corona?”, “a gripe comum pode ser Covid-19?”, “quando é permitido ir à cidade?”, “quando voltam as aulas?”, “há casos de coronavírus em São Gabriel?”, “há mortes causadas pelo vírus em Manaus?” e “quando os benefícios voltarão a ser pagos?”. Essas foram algumas dúvidas dos indígenas ouvidas pela Amazônia Real. Pelo rádio, os indígenas também fazem reivindicações; querem saber se a prefeitura vai mandar cestas básicas e sabão.

Munida com os últimos decretos da prefeitura de São Gabriel da Cachoeira, que estabeleceu estado de emergência em saúde, Edneia Teles responde às perguntas dos indígenas. Pelo rádio, ela manda a mensagem: “A dúvida que vocês tiverem, podem mandar. As coisas não estão muito fáceis. É pela nossa saúde mesmo. Nossa saúde em primeiro lugar, dos nossos pais e nossas crianças”.

Membro do Comitê de Enfrentamento e Combate a Covid-19 em São Gabriel da Cachoeira (Foto: Foirn/2020)

A Foirn tem levado nas transmissões profissionais da saúde, como biólogo, enfermeira e médico. Outro cuidado é o de levar pessoas que falam outros idiomas indígenas, como Baniwa, Tukano e Nheengatu. Também com essa preocupação, o Instituto Socioambiental (ISA) elaborou cartilhas informativas sobre o coronavírus, nas línguas Baniwa, Dãw, Nheengatu e Tukano, além do português, a serem levadas para as terras indígenas pelos profissionais de saúde do Distrito Sanitário Especial Indígena (Dsei) Alto Rio Negro.

Tanto a Foirn quanto a prefeitura orientam para que os indígenas fiquem em suas aldeias, evitando ao máximo seguirem para a cidade. O pagamento de benefícios, como Bolsa Família, foi adiado.

Em São Gabriel da Cachoeira, em 18 de março, o prefeito Clóvis Moreira Saldanha decretou emergência em saúde. A maior parte do comércio está fechada, com exceção de supermercados, padarias e drogarias. Os serviços de portos foram suspensos, sendo liberado apenas o movimento de embarcações de carga. No aeroporto, os voos estão reduzidos. Eventos públicos e privados com aglomerações foram adiados. Não está havendo aulas nas escolas. A praia à margem do rio Negro, sempre cheia nos fins de tarde, agora está vazia. Não há casos confirmados de Covid-19 no município.

Operações policiais estão sendo realizadas para evitar o descumprimento da norma e abordagem daqueles que insistem em se agrupar.

No Amazonas, segundo a Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) do Ministério da Saúde, de 13 de março até esta quinta-feira (23 de abril) foram confirmados 38 casos de Covid-19 entre indígenas atendidos pelos Distritos Sanitário Especiais (Dseis): Manaus (19 casos), Alto Solimões (12), Parintins (4) e Médio Purus (3). Três indígenas morreram vítimas do corovírus no Amazonas. Eles são das etnias Kokama, Tikuna e Sateré-Mawé. A população indígena que mora nas áreas urbanas não são atendidas pelos distritos, por isso os dados de suas mortes não estão na estatística da Sesai. Leia aqui.

O risco da pandemia de gripe

Ruas comerciais de Gabriel da Cachoeira estão vazias por causa do coronavírus (Foto: João Claudio Moreira/Amazônia Real)

O médico do Dsei Guilherme Monção foi um dos últimos convidados da Foirn. Ele também é o profissional do Dsei referência no Comitê de Enfrentamento e Combate à Covid-19, criado pela prefeitura de São Gabriel. “O nosso medo é informação errada. Será que as informações que são repassadas estão corretas? A questão de fake news chega muito fácil para lá também”, esclarece.

No programa, Monção respondeu a várias dúvidas. Entre elas, qual a situação em Manaus e nas cidades da região do Alto Rio Negro, que abrange além de São Gabriel da Cachoeira, Barcelos e Santa Isabel do Rio Negro. Ele também conversou sobre a importância da prevenção, de lavar as mãos. Informou sobre os sintomas da doença, orientou profissionais da saúde, esclareceu sobre o isolamento social e reforçou a necessidade de não se cruzar a fronteira com Colômbia e Venezuela.

Guilherme Monção chegou recentemente a São Gabriel da Cachoeira, após ter ficado 40 dias no Alto Uaupés. Ele visitou cerca de 20 comunidades, algumas de difícil acesso e comunicação. E informa que, mesmo em localidades muito isoladas, há informação sobre a Covid-19 e que a “doença do branco” está chegando.

Indígena Tukano no rio Tiquié, no Alto Rio Negro (Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real)

O médico explica que os indígenas têm a memória de outras doenças enfrentadas pelos pais ou avós, como o sarampo. “A gente sabe que qualquer infecção respiratória tem um impacto muito grande na comunidade indígena. Essa questão de imunidade, também da gripe, ela é passada até de uma geração para outra. Eles não estão preparados para essa enfermidade agora. Qualquer síndrome gripal pode levar a uma pneumonia. E a Covid, que é mais grave, a gente não sabe como vai ser. A gente está lutando para que não chegue”, disse Guilherme Monção.

O ideal, segundo o médico, seria o de se fazer o teste da Covid-19 em pelo menos em três situações: naquelas em que o paciente tem sintomas gripais e viajaram para algum lugar, nos últimos 14 dias, que tenha coronavírus; nos casos de sintomas gripais e contato com caso suspeito; nos pacientes com sintoma gripal que teve contato com caso confirmado.

Na análise dele, as comunidades indígenas devem receber maior atenção das autoridades e que é um risco se adotar testes apenas nos casos graves, como foi feito em Manaus e o sistema de saúde colapsou. “Nós não vamos conseguir controlar as comunidades. Porque a gente quer saber quais delas têm o coronavírus, quais não têm, quais a gente trabalha com isolamento de comunidade ou isolamento de paciente. A nossa realidade é diferente, é de comunidade indígena. É de difícil acesso, requer toda uma logística. A gente não pode ter essa dúvida”, diz o médico.

Por: Ana Amélia Hamdan
Fonte: Amazônia Real

Mais de 200 terras indígenas na Amazônia têm alto risco para Covid-19

Por: Site

Por: Anna Beatriz Anjos, Bruno Fonseca

Estudo mostra que menos de 10% dos municípios brasileiros com terras indígenas possuem leitos de UTI; sistema de saúde indígena atende apenas quadros leves

Foto: Alex Pazuello/Semcom – Arte:Bruno Fonseca/Agência Pública

Está na Amazônia a maioria das Terras Indígenas (TIs) em situação crítica para a pandemia do coronavírus no Brasil. Além de sete territórios com maior fragilidade, os estados da Amazônia Legal possuem 239 Tis com índices de vulnerabilidade intensos ou altos em relação à Covid-19.

Os dados estão em um estudo recém-publicado pela Associação Brasileira de Estudos Populacionais (Abep) a que a Agência Pública teve acesso.

No trabalho, demógrafos, antropólogos, geógrafos e economistas avaliaram 471 Tis em relação à vulnerabilidade à pandemia de coronavírus. O estudo levou em consideração fatores como a distância de centros com unidades de terapia intensiva (UTI), saneamento e porcentagem de idosos na população, entre outros.

Índice de vulnerabilidade em terras indígenas na Amazônia Legal

E um dos dados é alarmante: de 1.228 municípios brasileiros onde há ao menos um trecho de Tis, apenas 108 possuem algum leito de UTI.

Além das Tis, os pesquisadores avaliaram que seis Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEIs) estão em situação crítica, todos eles nos estados da Amazônia Legal.

Um deles é o Yanomami, em Roraima, onde está a TI de mesmo nome. Segundo a Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), submetida ao Ministério da Saúde, o distrito já registrou uma morte: a de um menino Yanomami de 15 anos. Alvanei Xirixana faleceu no início de abril, após seis dias internado na UTI do Hospital Geral de Roraima (HGR), em Boa Vista.

Os indígenas estão entre as populações com mais risco para a Covid-19 devido à própria vulnerabilidade social e histórica a que esses povos estão submetidos, explica Marta Azevedo, demógrafa, indigenista, ex-presidente da Fundação Nacional do Índio (Funai) e uma das autoras do estudo. “Todos os indicadores demográficos de saúde são piores entre os indígenas. A taxa de mortalidade é mais alta entre todas as raças, a de mortalidade materna, mesmo controlando o nível socioeconômico”, afirma.

Por isso, “o ideal é que o vírus não entre nas aldeias”, declara a médica sanitarista Sofia Mendonça, coordenadora do Projeto Xingu, programa de extensão da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) que há mais de 50 anos atua no atendimento dos povos da bacia do rio Xingu. “É preciso interromper o acesso a essas comunidades, mas mantendo a comunicação e a criação de estratégias junto com os indígenas”, diz. Por si mesmos, os povos indígenas têm tomado medidas para evitar que o vírus os atinja: são vários os casos de etnias que têm bloqueado os acessos às aldeias, por exemplo.

No Amazonas, indígenas precisam ser transportados até Manaus caso precisem de UTIs, onde o sistema de saúde já está em colapso. Terra indígena mais vulnerável do estado fica a cerca de 700 km da capital

UTI, um gargalo ainda maior para os indígenas

O levantamento da Abep mostra que todas as Tis em situação mais crítica para enfrentar a Covid-19 possuem um fator em comum: estão distantes dos centros urbanos com UTIs.

Para se ter uma ideia, a TI Acapuri de Cima – a mais crítica de todo o estado do Amazonas –, habitada pelos Kokama, está a quase 700 km em linha reta da cidade de Manaus, o único município do estado que possui leitos de UTIs para tratamento dos casos mais graves da Covid-19. Atualmente, mesmo Manaus já está com o sistema de saúde em colapso: o Hospital Delphina Aziz, unidade de referência para atenção às vítimas do coronavírus, atingiu sua capacidade máxima em 10 de abril, assim como os outros três hospitais de apoio na cidade.

No estado do Amapá, não há nenhum município com UTI; em Roraima e no Acre, os leitos de tratamento intensivo existem apenas nas regiões metropolitanas das capitais.

A sobrecarga do SUS é fator de risco para os indígenas tanto quanto para a população em geral. O Subsistema de Atenção à Saúde Indígena (SasiSUS), que engloba 34 DSEIs, cuida de ações de saneamento e da atenção básica de saúde nas aldeias, como o acompanhamento de pacientes com doenças crônicas. Administrado pela Sesai, ele foi instituído por lei em 1999 para que as ações e serviços de saúde voltados para os povos indígenas sejam prestados de forma diferenciada, considerando suas especificidades culturais, epidemiológicas e territoriais – e, inclusive, abrangendo os saberes tradicionais dessas comunidades.

No entanto, não é atribuição dos DSEIs o atendimento de média ou alta complexidade, que demanda profissionais especializados e recursos tecnológicos, como no caso das internações em leitos clínicos ou UTI.

Isso significa que, se um indígena apresenta suspeita de Covid-19 e seus sintomas são leves, ele pode ser tratado pela equipe de saúde de sua própria aldeia, “mas será necessário, dependendo da situação clínica desse paciente, encaminhá-lo para um serviço de referência. Ele segue então para um polo-base, onde poderá ter acesso a exames – como a testagem para o coronavírus”, explica a médica Sofia Mendonça. “Porém, se não estiver bem, tem que ir para uma unidade que atenda média e alta complexidade”, afirma.

“Esse vai ser o nó dessa epidemia”, diz a também médica Ana Lúcia Pontes. “A capacidade dos serviços de saúde é limitada, o sistema público já vinha num contexto de estrangulamento há anos com cortes de gastos, a população já enfrentava muitos problemas de desassistência, e agora, de uma vez só, tem um conjunto muito grande de pessoas necessitando dessa ajuda”, destaca a pesquisadora da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Ensp/Fiocruz) e coordenadora do Grupo Temático Saúde Indígena da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco).

Por isso, há uma preocupação especial entre os povos indígenas com a disponibilidade dos leitos de UTI. “A partir do momento em que foi identificado um caso e vai precisar de atendimento pelo estado, essa é a questão. Como o município e o estado vão receber o indígena? Vai ter vaga?”, questionou a deputada Joenia Wapichana (Rede-RR), coordenadora da Frente Parlamentar Mista em Defesa dos Direitos dos Povos Indígenas, em entrevista online a jornalistas no começo do mês. “Se estão faltando leitos para os não indígenas, imagina para os indígenas, que estão longe.”

A inquietação da deputada tem base em números: de acordo com o Instituto Socioambiental, mais de 80% da extensão de todas as Tis do país se concentram no Norte, justamente a região que, junto com o Nordeste, dispõe dos maiores desertos de UTI no país. “É certo que isso torna os povos indígenas mais vulneráveis ainda, junto com os ribeirinhos, quilombolas e populações que vivem naquela região. Precisa-se assumir, enquanto política pública, que os indígenas são um grupo vulnerável, um grupo de risco”, argumenta Sofia Mendonça.

A insuficiência de leitos de terapia intensiva somada à velocidade com que pode evoluir o quadro clínico da Covid-19 faz com que as pesquisadoras ouvidas pela Pública chamem atenção para a importância de estabelecer estratégias específicas para a atenção aos povos indígenas. No início do mês, a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) enviou cartas a todos os governadores do Brasil pedindo justamente que os planos emergenciais para atendimento dos pacientes graves de municípios e estados incluam a população indígena, “deixando explícitos os fluxos e as referências para o atendimento em tempo hábil, em articulação com a Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) e DSEIs”.

Outra reivindicação da Apib, em alerta emitido no dia 18 de abril, é a construção de hospitais de campanha exclusivos para indígenas, como o Ministério da Saúde anunciou que fará em Manaus.

Sistema de saúde indígena é focado em casos de baixa complexidade – em casos de internações, é preciso ir a hospitais da rede pública de cidades. Ministério da Saúde adiantou vacinação contra a gripe. Foto: Alex Pazuello/Semcom

Falta de demarcação de terras é bandeira de Bolsonaro e aumenta vulnerabilidade

Apesar de a Amazônia Legal concentrar a maior parte das terras mais vulneráveis, há territórios indígenas em situação crítica por todo o Brasil – e um dos fatores é falta de conclusão na demarcação das Tis. Entre as dez terras mais vulneráveis ao coronavírus no país, sete estão com demarcação incompleta.

A região com a maior quantidade de territórios que ainda não passaram pela homologação – a última etapa do processo de demarcação – é o Sul do Brasil. Fica em Santa Catarina o maior número de territórios nessa situação: o estudo mapeou três Tis em situação de vulnerabilidade crítica que não tiveram a regularização concluída.

Uma delas é justamente a com uma das situações mais críticas de todo o Brasil, a Guarani do Araça’i, no extremo oeste do estado, habitada por populações Guarani e Guarani Ñandeva. Além de três terras em situação crítica, em Santa Catarina há dois outros territórios não demarcados em situação de vulnerabilidade alta e intensa.

Como aponta o estudo, em territórios não demarcados é mais fácil a entrada de não indígenas e mais difícil estabelecer o isolamento das comunidades. Segundo os pesquisadores, nesses locais os indígenas são mais expostos a “possíveis contaminações por outras doenças e também pelo coronavírus”.

O governo Jair Bolsonaro não homologou nenhuma TI, apesar de ter herdado do governo anterior mais de 50 com processo julgado e que poderiam ter sido demarcadas. O governo Bolsonaro foi acusado pelo Ministério Público Federal de manobrar para travar a demarcação de Tis no Brasil, por meio de pedidos de análises de estudos já realizados e a constante troca de funcionários e atribuições da Funai. Antes mesmo de assumir, o presidente já havia declarado que “no que depender de mim, não tem mais demarcação de terra indígena”.

Nas Tis, falta saneamento e população está envelhecendo

Além da distância de hospitais com UTIs e falta de demarcação, as Tis têm outro ponto de vulnerabilidade na pandemia: a falta de saneamento. Segundo o estudo apontou, cerca de quatro em cada cinco domicílios nos territórios indígenas não possuíam abastecimento de água, de acordo com o último Censo, de 2010. Mais da metade das terras tinham todos os domicílios sem acesso a tratamento de água.

Afora o baixo acesso a água tratada, o trabalho apontou que quase um terço dos domicílios em terras indígenas não possuía banheiro de uso exclusivo, um indicador de falta de saneamento. A falta de sanitário também pode aumentar a possibilidade de contágio por doenças infecciosas, no caso de banheiros compartilhados. A maior parte das terras sem banheiro de uso exclusivo fica no Amazonas.

Outro elemento de vulnerabilidade é o envelhecimento da população: o Censo de 2010 já havia apontado 17 Tis onde pelo menos um quinto da população tinha mais de 50 anos de idade, fator considerado de risco para o coronavírus. A maioria desses territórios está na Amazônia Legal, mas também há uma grande proporção de indígenas idosos em Tis nas regiões Sul e Nordeste e no Mato Grosso do Sul.

Por fim, há ainda seis Tis com mais de dez moradores por domicílio, a maior parte no estado do Mato Grosso.

A morte de indígenas idosos pela Covid-19 não é só uma consequência nefasta do ponto de vista da saúde pública, mas também no aspecto cultural, afirma o antropólogo Márcio Meira, ex-presidente da Funai. “A chegada do coronavírus é uma ameaça muito grande da perda eventual de pessoas detentoras de grandes conhecimentos”, declarou Meira em entrevista ao portal Amazônia Real. “Se um ancião se for, vai com ele toda uma história. Os jovens dependem totalmente dessas pessoas para receberem o conhecimento das tradições, que só eles possuem. É uma população pequena, mas com importância cultural imensa.”

Indígenas em cidades são deixados de fora da contagem

A Sesai tem divulgado diariamente dados sobre casos confirmados e óbitos por Covid-19 entre indígenas. No entanto, a Apib e especialistas afirmam que os números podem estar subestimados, já que a secretaria contabiliza e atende apenas pessoas que vivem em aldeias. Por exemplo, no momento, enquanto a Sesai registra três mortes pela doença, a Apib conta sete.

Em um segundo alerta, a organização “repudiou” a diferença de contagem e classificou a situação como uma “ação de racismo institucional que invisibiliza e desassiste os povos indígenas que vivem em áreas urbanas”. “Somos indígenas dentro ou fora de nossos territórios. Estamos em uma situação de grande vulnerabilidade, com risco real deste novo vírus causar outro genocídio”, diz o texto.

De fato, uma portaria de 2004 determina que a saúde indígena deve ser voltada para as “populações aldeadas”. Mas existe uma discussão em torno do assunto. Para Ana Lúcia Pontes, isso pode gerar subnotificação. “Não será possível fazer uma análise da progressão da epidemia na população indígena brasileira. Só vamos ter dados sobre quem estava dentro dos territórios. Nesse sentido, parte da população ficará inviabilizada”, aponta. “Tem que haver o acompanhamento de um cenário epidemiológico indígena amplo e plural.”

Os indígenas que vivem em áreas urbanas, mas fora de aldeias, normalmente já encontram dificuldades para acessar os serviços de saúde e muitas vezes precisam suprimir sua identidade para conseguir atendimento no SUS. Com o sistema de saúde sobrecarregado por causa da pandemia e fora da abrangência de políticas específicas, sua situação pode piorar. “Entendemos que a Sesai não tem como garantir a assistência a essas pessoas, mas é possível estimular as secretarias municipais e estaduais a olharem para a população indígena urbana e garantir que esteja devidamente acompanhada e identificada”, afirma a médica.

Fonte: A Pública

Mais uma idosa morre por Covid-19 no Acre e vítimas da doença chegam a 11 no estado

Por: Site

Morte foi confirmada pela Secretaria de Saúde e família da paciente. Idosa de 64 anos ficou quatro dias internada na Prontoclínica e mais quatro na UTI do PS.

Mais uma idosa morre por Covid-19 no Acre e vítimas da doença chegam a 11 no estado — Foto: Junior Aguiar/Secom-AC
Mais uma idosa morre por Covid-19 no Acre e vítimas da doença chegam a 11 no estado — Foto: Junior Aguiar/Secom-AC

Therezinha Mota, de 64 anos, é a 11ª vítima fatal de Covid-19 no estado. A mulher era comerciante e estava há oito dias internada, sendo que quatro foram na Prontoclínica e mais quatro na UTI do pronto-socorro de Rio Branco. A morte dela foi confirmada pela Secretaria de Saúde e também pela família na manhã desta quinta-feira (24).

Ela é tia do presidente da Associação Família Azul do Acre (Afac), Abrãao Púpio. Ele diz que a idosa é bastante conhecida por ter uma loja de confecção de roupas na Estação Experimental e que foi internada logo que começou a sentir os sintomas. A família diz que ela também era hipertensa e a Saúde confirmou que ela também sofria com epilepsia.

A Sesacre informou que ela foi transferida da Prontoclínica para a UTI PS no último dia 20. “Logo que ela começou a sentir os sintomas, ela foi internada, mas avançou muito rápido. Ainda na Prontoclínica ela recebeu o resultado de Covid-19, mas foi transferida porque lá não tinha condições de atender o quadro dela”, conta.

No Acre, já são 227 casos confirmados do coronavírus, até esta quinta-feira (22). A Saúde destaca ainda que 78 pessoas não têm mais o vírus no organismo, sendo consideradas curadas. Assim, 149 pessoas seguem em tratamento e a taxa de recuperação é de 34 %.

Mortes confirmadas O estado tinha registrado, até esta quinta, dez mortes após confirmar que mais dois idosos que estavam internados na UTI do pronto-socorro não resistiram à doença. As vítimas fatais foram uma senhora de 79 anos e um homem de 68 anos.

A oitava morte é de um idoso de 85 anos que faleceu no domingo (19), por volta das 19h50, vítima da doença, no pronto-socorro de Rio Branco. A sétima morte é de uma aposentada de 69 anos que faleceu no sábado (18) , mas que os exames foram divulgados somente na noite deste domingo.

A Saúde confirmou a sexta morte no estado, sendo de um administrador de uma empresa e tem 51 anos. Ele estava internado há um mês no Hospital Santa Juliana, depois de ser diagnosticado com câncer, e morreu. A Saúde informou que o exame para Covid-19 deu positivo e ele havia sido transferido para UTI do PS com quadro clínico grave. Ele morreu no sábado.

O exame confirmou que o motorista de aplicativo Mariano Neto, de 35 anos, que morreu na terça-feira (14), foi em decorrência de complicações causadas pela Covid-19. A família contou que, desde janeiro, ele fazia tratamento para uma pneumonia bacteriana e que o quadro havia se agravado em março. O caso só foi confirmado nesta quinta-feira (16). Ele foi a quinta vítima da doença.

A quarta vítima da doença foi o aposentado João Faustino Gadelha, de 79 anos. Ele estava internado na UTI do PS em Rio Branco desde o dia 6 de abril, quando chegou já em estado grave. Esta foi a primeira morte registrada em Plácido de Castro, tendo em vista que a vítima morava lá.

A terceira vítima do vírus, Andre Avelino, de 82 anos, morreu no Lar Vicentino, no sábado (11), e o exame que comprovou a causa da morte como Covid-19 saiu na noite de domingo (12).

Além deles, Antônia Holanda, de 79 anos, e Maria Lúcia Pismel de Paula, de 75, morreram na segunda (6) e terça-feira (9), respectivamente, por complicações após serem diagnosticadas com Covid-19.

Depois da morte de Avelino, mais dois idosos do abrigo tiveram que ser levados à Unidade de Pronto-Atendimento em Rio Branco para avaliação e acompanhamento médico. Uma higienização também foi feia no local.

Alunos de medicina da Universidade Federal do Acre (Ufac) criaram um canal de teleatendimento que está ajudando nas orientações e até encaminhamentos de casos suspeitos da doença.

Uma pesquisa, divulgada, nesta quarta-feira (15), mostra ainda que menos de 40% dos acreanos cumprem o isolamento social. De acordo com o levantamento, a segunda-feira (13) foi o dia em que o índice de isolamento mais caiu em todo o estado.

Por: Tácita Muniz
Fonte: G1

Desmatamento zero: modelo sustentável inova a criação de gado na Amazônia

Por: Site
Criador de gado no Médio Solimões há quase 30 anos, Otacílio Soares Brito adotou o sistema de Pastoreio Racional Voisin (PRV). Sua fazenda Ágda tornou-se uma referência para criadores da região. Foto: Amanda Lelis.

Nos anos 90, Otacílio Soares Brito comprou uma área de 100 hectares na Amazônia, no Médio Solimões. Criar gado era um sonho de infância moldado pela falta de leite na região. Brito acomodou as suas 35 cabeças na área e tudo corria bem. Até que, em 2015, o jogo virou. Os animais começaram a morrer e o diagnóstico veio rápido: o pasto estava empobrecido de nutrientes, culpa do tempo e do mau uso do solo, uma situação comum no modelo da pecuária extensiva.

O pecuarista precisava pensar em alternativas – abrir e desmatar novas áreas não fazia parte dos seus planos. Era necessário encontrar uma forma sustentável de criação, que aliasse produtividade e respeito à floresta.

A agropecuária é uma das atividades mais importantes para a economia brasileira, tanto para abastecimento interno quanto pelas exportações. A criação de gado na Amazônia, contudo, está quase sempre atrelada ao desflorestamento ilegal.

Estudos apontam que até 80% do problema são atribuídos ao ciclo que envolve a derrubada de árvores, depois a queima do terreno e a inclusão de bois. Quase tudo ilegal. Áreas ocupadas e já degradadas – empobrecidas e sem serventia para pasto – costumam ser abandonadas e novos terrenos são ocupados. E o ciclo se repete.

Não precisa ser sempre assim. “O gado não é o vilão. A forma de produção é que pode ser maléfica ou não”, explica a engenheira agrônoma Jerusa Cariaga, do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, uma organização social que utiliza a ciência e a tecnologia a favor da sustentabilidade. Em dezembro de 2019, o Sistema de Alerta do Desmatamento, do Imazon (Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia) detectou 227 quilômetros quadrados de desmatamento na Amazônia Legal.

Aproveitar áreas já degradadas e abandonadas é uma das soluções apontadas para a criação de gado na floresta. Um estudo publicado pela revista Science em 2019 mostra que o Brasil tem 50 milhões de hectares nessas condições, uma área imensa que poderia perfeitamente ser regenerada para a agropecuária. Recuperar o pasto: estava aí a chave para Brito. Como fazer, ele não sabia, mas tinha consciência de que seria necessário quebrar paradigmas se quisesse se tornar um criador sustentável.

Os rebanhos brasileiros crescem à medida que a pecuária se firma como atividade fundamental para os números da economia do país. Foto: Leo Lopes.

Maior produtividade, mesmo em áreas menores Ao pedir ajuda, Brito foi socorrido pelo Instituto Mamirauá, que já estudava implantar a técnica do sistema de Pastoreio Racional Voisin (PRV) junto aos criadores da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Amanã, em Tefé, no Amazonas. Ali, as comunidades ribeirinhas criam bois e cultivam vegetais.

No sistema PRV, idealizado pelo pesquisador francês André Voisin, o gado fica confinado em parcelas cercadas para pastar e, depois de consumir aquela pastagem, é movido para a próxima parcela, enquanto o solo e a vegetação da primeira se recuperam. Essa forma de criação dispensa a necessidade de que novas áreas de floresta sejam derrubadas para servir de pasto. Além de rentável, o processo é sustentável e a produtividade é maior, mesmo usando uma área menor.

Brito foi convidado pelo instituto não só a implantar o sistema de manejo de gado, mas também a transformar sua área, a fazenda Ágda, em uma unidade demonstrativa para que demais criadores pudessem aprender e se inspirar. Além de uma mudança de pensamento, foi preciso investimento, acompanhamento técnico e disposição.

“O que a gente conhecia de técnica era criação extensiva, que em curto prazo exaure o solo e obriga o criador a abrir outras áreas, trazendo grande impacto ambiental. Com a tecnologia do Pastoreio Racional Voisin, os bezerros começaram a nascer novamente”, diz Brito.

No PRV, segundo especialistas ouvidos pela Mongabay, o comportamento do gado muda porque se antes ele precisava ir atrás do alimento – o que amplia a possibilidade de assoreamento dos rios –, comida e água agora ficam disponíveis em cada cercado, o que também diminui a energia gasta pelo animal. “Muda o princípio filosófico da criação”, diz Brito. “Isso facilita e é melhor para todo mundo. O consumidor vai comer uma carne de primeira, sem agrotóxico, com manejo correto.”

O gado da Amanã é importante para os criadores porque a produção tem alta liquidez, ou seja, é vendida rapidamente e durante todo o ano, diferentemente de recursos nativos e sazonais, como o pescado ou a castanha-do-brasil. “Serve como uma poupança, uma segurança para as famílias caso surjam emergências e eventualidades”, afirma Paula Araújo, veterinária do Programa de Manejo de Agroecossistemas do Instituto Mamirauá. Longe dos centros urbanos, as comunidades dependem da caça e da pesca para sobreviver e, nesse contexto, o gado torna-se uma opção a mais de fonte de proteína.

“A gente não está falando em aumentar a escala ou em incentivar a produção. O que a gente quer é que, dentro dessa escala de produção, eles consigam ter maior eficiência produtiva sem pressionar a floresta, sem ter que aumentar a área de pastagem. Trabalhar com aquilo que já tem, mas com mais eficiência”, diz Araújo.

A criação de gado tem história antiga na região. Grande parte das comunidades ribeirinhas do Médio Solimões foram formadas a partir de famílias advindas de outras partes do Norte depois do fim do ciclo da borracha. Esses mgirantes trouxeram também cabeças de gado. “Provavelmente imaginavam que as opções de proteína na região não seriam muitas”, diz Jerusa Cariaga.

Segundo Paulo Barreto, pesquisador sênior do Imazon (Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia), para os sistemas de criação que envolvem o pasto rotativo terem resultado positivo e as expectativas não terminarem em frustração, três fatores são fundamentais: investimento, capacitação e acompanhamento. Uma dica de Barreto é começar pequeno, com 5% da área para aprender e para analisar a viabilidade financeira, que tem a ver com quão degradado está o solo.

No sistema PRV, o gado esgota uma área de pastagem e é transferido para outra, enquanto a primeira se recupera. Foto: Amanda Lelis.

O desafio: criar em uma área naturalmente sensível

Atualmente, a reserva Amanã conta com cerca de 600 cabeças de gado, entre bois e búfalos, criados por cerca de 25 famílias. Três delas iniciaram o processo de criação pelo sistema PRV. A região é uma área de várzea e, portanto, altamente suscetível às chuvas e secas amazônicas.

Com grandes custos de produção e dificuldades logísticas para escoamento do produto, são poucas as famílias que encaram o desafio de criar gado em uma região cujo terreno oscila entre florestas de terra firme e várzea, limitações impostas pelo próprio ambiente. “As áreas inundáveis servem como limitador natural para a expansão de áreas de pastagem em um nível que possa causar desequilíbrio no ecossistema”, explica a veterinária Paula Araújo.

Funciona assim: na estação seca, quando o nível dos rios locais desce drasticamente, grandes porções de vegetação surgem onde antes havia apenas água. Esses “campos da natureza”, como são chamados ali, muito ricos em nutrientes, são facilmente aproveitados por criadores para a alimentação do gado.

A história é outra quando os rios estão cheios e pouca terra sobra acima da água. O gado, então, tem de ser movido para os “campos de terra firme”, espaços limitados que, sem o manejo adequado, tendem à rápida degradação do solo e à escassa disponibilidade de nutrientes para os animais.

Parte da área degradada de Brito, com o sistema PRV, já voltou a ser floresta e a produtividade, ele afirma, aumentou. E melhorar a produtividade, no caso da Amazônia, é sair da média de 1,26 cabeça por hectare para até três cabeças. De acordo com os dados do Censo Agropecuário 2017, 98% dos municípios da Amazônia (694 de 772) têm taxa de lotação igual ou inferior a 1,9 cabeça por hectare. E dentre esses, 70% têm taxa igual ou inferior a 1,26 cabeça por hectare.

“Acredito que o homem só tem capacidade de preservar o meio ambiente quando atinge a consciência da importância dele para todos os seres vivos. Com isso, ele coloca de lado a ganância e começa a agir pela luz da razão e da ciência para que possa desenvolver a sua atividade com menos impacto ambiental”, comenta Brito.

Por: Maria Fernanda Ribeiro
Fonte: Mongabay

Cartilha orienta agricultores sobre proteção contra a covid-19

Por: Site

As instruções são protetivas à saude dos trabalhadores

O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) e a Agência Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural (Anater) publicaram cartilha ilustrada com 35 recomendações gerais de higiene para cuidados durante a colheita, o transporte e o alojamento dos trabalhadores.

As instruções da cartilha são protetivas à saude dos agricultores, em especial à disseminação do novo coronavirus que provoca a pandemia da covid-19. A publicação pode ser acessada pela internet no link.

Por se tratar de recomendações, o documento não impõe regras e visa unicamente consolidar diretrizes já estabelecidas e o incremento de higienização durante avidade de colheita de produtos vegetais”, descreve a apresentação da cartilha.

A cartilha será útil aos agrônomos em toda cadeia produtiva de diversas culturas. Conforme o calendário divulgado pelo Mapa, no atual período de outono “estão em colheita culturas como algodão, arroz, feijão (em algumas regiões logo já começa a 2º safra), milho (1º safra); soja, entre outras”.

As fases de plantio e colheita de cada cultura variam de acordo com a região. Segundo o ministério, devido à dimensão do território nacional é possível a realização de até três safras de grãos no mesmo ano agrícola.

Fonte: Agência Brasil – EBC
Edição: Valéria Aguiar

Aumenta número de indígenas contratados com carteira assinada

Por: Site

Área de enfermagem foi a que mais contratou em 2019

índios

O número de indígenas com ensino superior contratados com carteira assinada aumentou em 2019 em relação a 2018, de acordo com dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged). Ao todo, foram contratados 3.094 profissionais no ano passado. O número aumentou em relação aos 2.092 indígenas admitidos em 2018. A área de enfermagem foi a que mais contratou. 

Em 2018, as contratações voltaram a crescer, após quedas sucessivas desde 2015. Em 2014, 2.246 profissionais foram contratados. Esse número caiu até 1.572 em 2017, atingindo a menor marca da década. Em 2019, a tendência de crescimento das contratações verificadas no ano anterior foi mantida. 

 “Temos uma tendência um pouco oscilante, mas crescente de contratações de indígenas”, diz o diretor de Inteligência Educacional da plataforma Quero Bolsa, Pedro Balerine. O levantamento foi feito pela Quero Bolsa. Segundo Balerine, a análise mostra que, embora haja uma concentração em determinadas profissões, os indígenas atuam nas mais diversas áreas e buscam formações diversificadas. 

O aumento das contratações de indígenas, de acordo com o diretor, está relacionado à expansão do ensino superior. “A oferta de ensino superior no Brasil está aumentando muito e tem a expansão do Ead [Ensino a distância], que é um facilitador para esse público”, diz. Apesar de esbarrar em dificuldades tecnológicas, como acesso à internet e a computadores, segundo Balerine, os pólos presenciais, obrigatórios para a oferta de cursos a distância, podem ajudar a quem não tem esses equipamentos. 

O levantamento mostra que, no ano passado, a área que mais contratou foi enfermagem, com 215 admissões. Em seguida, estão os professores de ensino superior, com 84 admissões na área de prática de ensino e 82 na área de didática. Foram contratados ainda 71 analistas de desenvolvimento de sistema, 69 administradores e 56 farmacêuticos, entre outras ocupações. A média salarial verificada foi R$ 3.409,28.  

Desafios

Mesmo sendo o mais alto da década, o número de contratações de indígenas ainda é pequeno no país, e os profissionais contam que ainda há ainda muita dificuldade para a formação. Em 2018, de acordo com o Censo da Educação Superior, havia 57.706 indígenas matriculados em todo o país, o que representava 0,7% do total de 8,4 milhões de estudantes. 

“Para nós, indígenas da aldeia, é bem mais difícil. É difícil passar em vestibular. Tem faculdade particular mas, às vezes, não se tem condições de pagar o curso”, diz a enfermeira Letícia Monteiro, que é indígena do povo Taurepag, da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, localizada em Roraima.

“Tem ainda essa questão da discriminação. Em pleno século 21, a gente ainda consegue ver essa discriminação e a dificuldade de fazer o curso em uma cidade onde não tem residência e nem apoio financeiro. Fica muito mais difícil”, diz a enfermeira, uma de dez indígenas do total de 51 enfermeiros que atuam na Divisão de Atenção à Saúde Indígena (Diasi) do Distrito Sanitário Especial Indígena (Dsei) Leste Roraima, ligada à Secretaria Especial da Saúde Indígena (Sesai) do Ministério da Saúde. Segundo Letícia, há muitos indígenas que desejam cursar enfermagem, por exemplo, mas que acabam não conseguindo devido a essas limitações.

De acordo com a secretária-geral do Movimento das Mulheres Indígenas do Conselho Indígena de Roraima (CIR), Maria Betania Mota de Jesus, que é da etnia Macuxi, muitos dos indígenas que vivem nas aldeias e saem para estudar, retornam para atuar nas comunidades. Tendem também a permanecer nos postos de trabalho. “Eles conhecem a cultura, conhecem o trabalho. Há muitas pessoas não indígenas que acabam não se habituando e isso leva a uma rotatividade de profissionais”. 

Nas instituições federais, os indígenas têm reserva de vagas por causa da chamada Lei de Cotas, Lei 12.711/2012. Desde 2016, 50% das vagas nessas instituições são reservadas a estudantes de escolas públicas. Dentro da lei, há a reserva de vagas para pretos, pardos e indígenas, de acordo com o percentual dessas populações nas unidades federativas.

Apesar de não estarem submetidas a essa lei, as instituições privadas, que detêm a maior parte das matrículas do ensino superior, podem desenvolver ações para a formação desses estudantes. 

Fonte: Agência Brasil – EBC
Edição: Graça Adjuto

Profissionais indígenas ajudam no combate ao coronavírus em Roraima

Por: Site

Enfermeira diz que há aldeias bem distantes, só com acesso aéreo

São cerca de 50 mensagens diárias trocadas entre a enfermeira Letícia Monteiro e os indígenas das etnias Wai Wai, Macuxi, Taurepag, Wapixana que vivem nas regiões Murupú, Wai Wai e Surumú, em Roraima, sobre o novo coronavírus (covid-19). Ela é responsável pelo monitoramento dessas comunidades e, além de checar se há alguém com algum dos sintomas da doença nas regiões, ela tira dúvidas e transmite orientações. 

Indígena do povo Taurepag, da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, localizada também em Roraima, Letícia tem 44 anos e é uma das enfermeiras da Divisão de Atenção à Saúde Indígena (Diasi) do Distrito Sanitário Especial Indígena (Dsei) Leste Roraima, ligada à Secretaria Especial da Saúde Indígena (Sesai) do Ministério da Saúde.

“A pandemia é bem preocupante. Existem aldeias em regiões bem distantes, só com acesso aéreo. Se a doença chegar lá, há o risco de a pessoa não conseguir chegar a tempo à cidade”, diz. “Além disso, a população indígena não tem isso de cada um ficar na sua casa. Todo mundo fica junto, têm famílias que moram juntos pais, filhos, filhos já casados e netos. Uma casa comporta 15, 20 pessoas. A comunidade se reúne para comer, para conversar. Há um risco muito grande de contaminar todos de uma vez”. 

Até a realização da entrevista não havia casos registrados na região monitorada por Letícia. A própria enfermeira, no entanto, estava isolada em casa, em Boa Vista, por apresentar alguns dos sintomas da covid-19 após ter contato com uma pessoa que testou positivo para o vírus. Ela apresentou apenas sintomas leves e segue fazendo o monitoramento em casa.  

“Primeiro, a gente sente uma grande preocupação e, depois, uma impotência por não ter todos os materiais, todos os epi [equipamento de proteção individual]. Agora que eles estão chegando”, diz Letícia.

O Conselho Indígena de Roraima (CIR) também monitora a pandemia do novo coronavírus e oferece apoio às comunidades indígenas. “Elaboramos um projeto emergencial para apoiar as lideranças indígenas no combate ao coronavírus nas entradas das terras indígenas. Também estamos arrecadando recursos para a compra de cestas básicas e material de higienização. Estamos recebendo das lideranças solicitação de material para confecção de máscaras dentro dos territórios”, explica a secretária-geral do Movimento das Mulheres Indígenas do CIR, Maria Betania Mota de Jesus, que é da etnia Macuxi.

“É estranho para nós, povos indígenas, o isolamento social porque a gente vive na coletividade. Mas, é necessário fazer isso, ter essa força tarefa para conscientizar a ter cuidado com aglomerações”, diz. Segundo ela, o próprio CIR cancelou todas as atividades e reuniões agendadas para os próximos dias.

Desde o mês passado, para tentar conter o avanço da doença, comunidades indígenas fecharam o acesso ao território e estão controlando a entrada de pessoas. 

Em Roraima, segundo dados parciais da Sesai, são mais de 342 comunidades, com população de 70,6 mil indígenas dos povos Macuxi, Wapichana, Ingarikó, Patamona, Taurepang, Wai Wai, Yekuana, Yanomami, Sapará, Pirititi e Wamiri Atroari.

Fonte: Agência Brasil – EBC
Edição: Graça Adjuto

PF prende dois suspeitos de matar professor indígena no MA

Por: Site

PF diz que suspeitos são dois índios da mesma região da vítima

Policiais federais prenderam, em caráter preventivo, dois suspeitos de assassinar o professor e coordenador regional da Comissão de Caciques e Lideranças da Terra Indígena Arariboia (Cocalitia), Zezico Rodrigues Guajajara. A identidade deles não foi divulgada.

Militante da luta contra a invasão e a extração ilegal de madeira da reserva indígena, localizada no Maranhão, Zezico foi morto a tiros no dia 31 de março.

Segundo a PF, os suspeitos são dois índios que viviam na mesma terra indígena que Zezico – um deles, na mesma aldeia que o professor, a Zutíua, no município de Arame (MA), a cerca de 270 quilômetros de Imperatriz. O cacique da aldeia, no entanto, afirma que um deles não é indígena, mas vive na reserva por ser casado com uma índia.

Segundo a PF, enquanto cumpriam os mandados de busca e apreensão expedidos pela 2ª Vara da Justiça Federal em São Luís, os policiais não encontraram os dois, que se apresentaram posteriormente na delegacia da PF em Imperatriz, acompanhados por um advogado.

Após serem interrogados, os dois foram encaminhados ao sistema prisional. Eles foram indiciados por homicídio e, se forem considerados culpados, podem ser condenados a penas que variam de seis a 20 anos de prisão. A PF informou que, durante a investigação, encontrou evidências da participação dos indígenas no assassinato.

Apenas um dia após Zezico ser emboscado, a cerca de 3 quilômetros da aldeia Zutiua, quando retornava da cidade de Grajaú, o cacique Paulino Rodrigues Guajajara disse à Agência Brasil que a comunidade indígena suspeitava que o professor tinha sido morto por outro índio da própria região; alguém que, segundo ele, tinha “raiva” e “inveja” da liderança do professor.

Cunhados

O cacique disse hoje (23) à Agência Brasil que os assassinos são cunhados. Ele ressaltou que, embora um deles viva na Terra Indígena Arariboia, casado com uma indía, não é indígena. De acordo com Paulino Guajajara, o “não índio induziu” o indígena a matar Zezico. O crime, segundo Paulino Guajajara, agravou a tensão na região. “A gente está com medo e pedindo segurança para a aldeia porque as coisas aqui estão tão tensas que não conseguimos mais fazer as coisas do dia a dia.”

Segundo o Conselho Indigenista Missionário (Cimi), Zezico foi o quinto membro da etnia Guajajara assassinado na região desde meados de novembro de 2019. Entre eles está o líder Paulo Paulino Guajajara, integrante do grupo Guardiões da Floresta, formado pelos próprios indígenas para monitorar e defender seus territórios. Paulino também foi morto a tiros, em novembro.

Fonte: Agência Brasil – EBC
Edição: Maria Claudia

Governador do Amazonas diz que pico de covid-19 deve acontecer em maio

Por: Site

Estado registra quase 2,5 mil casos de covid-19 e mais de 200 óbitos

O governador do Amazonas, Wilson Lima, disse hoje (23) que, apesar do alto número de casos, o pico da epidemia do novo coronavírus no estado deve ocorrer na primeira quinzena de maio. Lima participa de uma videoconferência realizada pela comissão externa da Câmara dos Deputados para acompanhar as ações de combate ao coronavírus no país. O estado já registrou 2.479 casos de covid-19, com mais de 200 óbitos.

Durante a participação, Lima ressaltou que cerca de 90% dos leitos de unidades de terapia intensiva (UTI) dedicados a pacientes com o vírus estão ocupados, e disse que o estado precisa com urgência da ajuda do governo federal e da iniciativa privada para a compra de respiradores, equipamentos de proteção individual (EPIs), como máscaras, e também de profissionais de saúde para atender à população.

“O quadro aqui é muito delicado. O que tem acontecido e o que está por vir nos próximos dias nos acende um sinal de alerta muito forte. Daí [vem] a necessidade de termos ajuda federal e da iniciativa privada, todas as ajudas”, disse Lima. “Estamos aqui trabalhando no nosso limite e vamos ampliando as estruturas na medida em que vamos recebendo equipamentos, insumos”, acrescentou o governador. Lima ressaltou ainda que o estado também enfrenta problemas em razão de um surto da gripe H1N1 em decorrência do período de chuvas.

Além da capital, Manaus, o estado registra casos de covid-19 em mais de 30 cidades. De acordo com o governador, a expectativa é que o pico atinja primeiramente a capital e em seguida as cidades do interior. Lima afirmou ainda que tem conversado com os prefeitos para intensificar as medidas de isolamento social e impedir o trânsito entre as cidades do estado, em especial, naquelas próximas a comunidades indígenas.

“Não tem outro caminho que não seja o isolamento social para que se possa quebrar a transmissão do vírus. Não tem vacina ou outro tratamento com eficiência comprovada”, disse. “A gente está se preparando para esse momento e ainda tem um tempo em relação ao interior de 10 a 15 dias”, afirmou.

O prefeito de Manaus, Arthur Virgílio, também participou da videoconferência e falou sobre a situação da pandemia na capital. Virgílio disse que o município, que tem mais de 90% dos leitos de UTI disponibilizados para pacientes com o vírus ocupados, também precisa de equipamentos, pessoal especializado e EPIs para aumentar o atendimento.

Equipamentos

Segundo o prefeito, o governo sinalizou a entrega de alguns equipamentos. Mas outros aparelhos de uso essencial, como tomógrafos, não foram recebidos. Esses aparelhos poderiam ajudar no direcionamento dos casos considerados mais graves. “O vírus corrói o pulmão com uma rapidez que, às vezes, a máquina burocrática não aprendeu a andar na mesma velocidade”, disse Virgílio. “Precisamos depressa, para evitar uma procura demasiada em cima da rede que está exaurida, 96% e 100% são quase sinônimos”, afirmou.

Virgílio disse ainda que uma parcela das pessoas não está seguindo o isolamento social e falou em aglomerações em alguns pontos da cidade. Segundo o prefeito, diante da possibilidade de pico nos casos de coronavírus, o município não tem condições de reabrir as atividades econômicas.

“Fazemos um esforço danado para conservar as pessoas em casa e essas aparições do presidente [Jair Bolsonaro] dizendo que não há perigo em ir para rua, elas desmobilizam. Nós entendemos que Manaus não tem a menor condição de abrir completamente para a atividade econômica, porque mais pessoas vão adoecer e procurar os hospitais que já estão lotados”, concluiu.

Fonte: Agência Brasil – EBC
Edição: Pedro Ivo de Oliveira

Sem a Amazônia, agronegócio e geração de energia entram em colapso no Brasil

Por: Site
A Amazônia depende de imensas quantidades de chuva para manter seu equilíbrio ecológico. Essa abundância está em risco à medida que mudanças no clima e desmatamento acentuam os períodos de seca no bioma. Foto: © Fernando Lessa/TNC

Ultrapassar o ponto de inflexão que transformaria a Floresta Amazônica em uma savana seria “catastrófico” para os principais setores da economia brasileira, alertam especialistas. Os impactos alcançariam sobretudo o agronegócio e a geração de energia, e poderiam repercutir na segurança alimentar internacional.

A abundância natural de água no bioma amazônico beneficia com regularidade a agricultura, o transporte de commodities pelos rios brasileiros e a produção de energia elétrica em inúmeras usinas ao longo dos rios que cortam a vasta região. Agora, porém, o ciclo hidrológico da Amazônia está sob ameaça.

A água sempre foi o sangue que dá vida à floresta tropical. Ela se infiltra no solo e nos aquíferos, flui pelos rios, sobe pelas árvores e se desloca pelo céu. O Rio Amazonas, alimentado por seus afluentes, derrama impressionantes 17 bilhões de toneladas de água no Oceano Atlântico por dia. E, num dia de sol, as árvores da região lançam outras 20 bilhões de toneladas no ar por meio da evaporação – um fluxo de umidade apelidado de “rios voadores”. É assim que a floresta úmida garante o regime pluviométrico em enormes áreas da América do Sul, inclusive nas sedentas metrópoles brasileiras.

Os cientistas há tempos vêm alertando, porém, que, se passarmos do limiar crítico – um ponto de inflexão causado pelas mudanças climáticas regionais e globais, o aumento do desmatamento e a intensificação dos incêndios florestais –, as florestas podem começar a se autodestruir. Estudos revelam que há risco de até 70% da Floresta Amazônica se transformar em área seca e degradada de savana ou vegetação rasteira num prazo de 50 anos.

Principais pontos de degradação florestal na Amazônia em 2019. Imagem: MAAP com dados de UMD GLAD, Hansen UMD Google USGS NASA e MAAP

Ponto de inflexão deve impactar ecossistemas e economias

A Floresta Amazônica e sua biodiversidade dependem de uma quantidade assombrosa de chuva para prosperar. Por isso, o agravamento das secas afeta boa parte da economia brasileira, baseada em commodities. A morte da maior floresta tropical do planeta teria imensas repercussões econômicas para o agronegócio e as usinas hidrelétricas. A Mongabay conversou com importantes cientistas que estudaram os efeitos de uma mudança épica no maior ciclo hidrológico do mundo. O cenário é preocupante.

Em primeiro lugar, alguns rios importantes da Bacia Amazônica – Xingu, Tapajós e Madeira entre eles – podem ter sua vazão reduzida drasticamente na estação seca, o que não impactaria apenas projetos ambiciosos de hidrelétricas, mas também operações de mineração que dependem das usinas para obter energia. Além disso, os cursos d’água se tornariam menos navegáveis para o transporte de minério e soja. As economias regionais seriam igualmente afetadas, prejudicando comunidades indígenas e tradicionais que dependem dos rios para pescar, beber água e se deslocar.

Área desmatada (em km2) em períodos entre agosto e janeiro nos últimos 12 anos. Fonte: Inpe

No longo prazo, a economia do país pode sofrer bastante se medidas não forem tomadas com urgência para evitar o ponto de inflexão. Em 2019, as exportações agrícolas do Brasil ultrapassaram US$ 80 bilhões, com soja e açúcar entre os produtos mais vendidos. O agravamento das secas pode fazer com que as lavouras de soja em áreas de baixo risco sejam reduzidas 40% em 50 anos.

Para reverter a tendência atual, é preciso conter as emissões globais de carbono e o desmatamento na Amazônia, e adotar a partir de já um ambicioso plano de reflorestamento, analisa o cientista climático Carlos Nobre.

Em vez disso, o governo brasileiro caminha na direção contrária. No primeiro ano do presidente Jair Bolsonaro no poder, o desmatamento atingiu seu maior nível em 11 anos. Programas de contenção do problema tiveram pessoal e verbas cortados, assim como foram flexibilizadas regras para a exportação de madeira. Os primeiros levantamentos atestam que a derrubada da floresta continua em ritmo acelerado em 2020.

Embora as políticas de desenvolvimento radicais de Bolsonaro para a Amazônia possam fazê-lo ganhar pontos com agropecuaristas em busca de lucro rápido, tais iniciativas podem incentivar o aumento do desmatamento e apressar o ponto de inflexão – o que seria devastador para a economia brasileira.

“O Brasil deveria ser o país que mais luta [para proteger a Amazônia], porque é quem tem mais a perder”, diz Nobre.

Rio Tapajós, um dos milhares de cursos d’água que alimentam a Bacia Amazônica. Foto: © Teresa Moreira /TNC

Ciclo da água na Amazônia está mudando

Há dez anos, um produtor rural brasileiro com 30 anos de experiência na Amazônia, em Rondônia, aproximou-se do pesquisador e climatologista Marcos Costa, do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) da ONU, e perguntou: “Por que a cada ano a chuva começa um pouco mais tarde?”

Sem ter uma resposta, Costa decidiu investigar. Sua pesquisa confirmou a observação do produtor: em média, a estação chuvosa da Amazônia estava começando a cada ano mais tarde, uma tendência impulsionada pelo desmatamento regional e pelas mudanças climáticas. Hoje, em áreas desmatadas do sul da Amazônia, o atraso sazonal das chuvas varia entre 15 e 30 dias em comparação com 1980, um período de apenas 40 anos de diferença.

E as coisas estão piorando. De acordo com Costa, também a precipitação total começa a diminuir. Um estudo da Nasa publicado em novembro revelou que a atmosfera sobre a Amazônia vem ficando mais seca nas últimas duas décadas. “Esperamos algo ainda mais sombrio no futuro”, comenta Costa. “E isso tem impacto sobre a agricultura e a geração de energia elétrica.”

A seca não é a única tendência nociva. Apesar de a Amazônia ter sofrido uma estiagem severa em 2005, 2010 e 2015, a região teve marcas históricas de inundações em 2009, 2012 e 2014. As cheias danificaram propriedades, afogaram rebanhos, inundaram plantações, aumentaram o escoamento de agrotóxicos para os rios, impactaram a pesca, aumentaram surtos de doenças e pioraram o isolamento de comunidades ribeirinhas dependentes do transporte fluvial. Na verdade, eventos extremos de variação climática – de secas a chuvas recordes – estão se tornando mais comuns.

Apesar das temporadas de inundação, a Amazônia revela-se cada vez mais árida, a tal ponto que árvores que precisam de muita água estão sendo substituídas por um tipo de vegetação adaptada à seca. Isso significa menos evaporação, argumenta Yadvinder Malhi, especialista em florestas tropicais da Universidade de Oxford. E, eventualmente, “uma vez que começarmos a ultrapassar esse ponto de inflexão, veremos um declínio nos rios e uma intensificação de eventos climáticos extremos”.

Obra de usina hidrelétrica no Rio Teles Pires, no Mato Grosso. Foto: © Fernando Lessa/TNC

O déficit hidrelétrico

As usinas hidrelétricas fornecem hoje dois terços da eletricidade do Brasil, convertendo-se em um dos principais motores do bem-estar financeiro do país. Em 2019, 31,6% da energia hidrelétrica produzida foi destinada ao setor industrial – inclusive para operações de mineração na Amazônia e em outras regiões. E 4,7% da energia gerada teve como destino o agronegócio.

Mas a variabilidade do clima já reduz a produção de energia, aponta um relatório de 2019 da Associação Internacional de Energia Hidrelétrica. O quão drástica é a redução depende do estudo que se analisa. À medida que a seca aumenta e a vazão dos rios diminui, o potencial hidrelétrico do Brasil pode cair mais de 80% antes de 2070. As hidrelétricas da Amazônia podem perder em média 40% de seu potencial de geração de energia até o fim do século, de acordo com outras análises.

Uma pesquisa liderada pelo renomado hidrologista Eduardo Martins, da Fundação Cearense de Pesquisa e Cultura, comparou resultados de 25 estudos e, embora houvesse alguma variabilidade, todos apontavam para a mesma direção: as hidrelétricas da Amazônia devem perder 20% da vazão dos rios até 2070, e até 60% em 2100 nos cenários climáticos mais pessimistas.

Conforme a estação seca se estende, o número de meses de chuva em que as hidrelétricas podem operar é reduzido, com consequências econômicas importantes para o país e as grandes empresas. A mega-hidrelétrica de Belo Monte, no Pará, que custou US$ 9,5 bilhões (R$ 42,7 bi) e só entrou em operação total em 2019, já está enfrentando uma redução na vazão sazonal do Rio Xingu devido ao clima mais seco e ao desmatamento rio acima. Essa tendência deve piorar, fazendo com que a hidrelétrica se torne economicamente inviável – um destino que poderia condenar a mina de ouro Belo Sun, que precisa de quantidades imensas de eletricidade para operar.

Barragem principal de Belo Monte, em 27 de dezembro de 2019. Foto: Palácio do Planalto. 

O Brasil enfrenta um paradoxo energético, avalia Roberto Schaeffer, especialista em economia da energia na Universidade de São Paulo: “Países que são muito dependentes de fontes renováveis [como a energia hidrelétrica] podem ter de depender mais de combustíveis fósseis no futuro para lidar com os efeitos das mudanças climáticas.”

Uma possível prova desta afirmação: em novembro, a operadora da usina de Belo Monte, a Norte Energia, pediu autorização da Agência Nacional de Energia Elétrica para construir usinas termoelétricas ao lado da mega-hidrelétrica.

De acordo com as estimativas de Schaeffer, o setor energético brasileiro precisará investir outros US$ 50 bilhões (R$ 224 bi) até 2035 para compensar as perdas de capacidade hidrelétrica por conta das mudanças climáticas. Parte desse montante servirá à compra de eletricidade de outras fontes, entre elas, provavelmente, o carvão mineral, gerador de gases de efeito estufa. “A ideia será tentar compensar a perda de energia a um custo mínimo”, explica.

A energia solar e a eólica são alternativas possíveis, mas também necessitam de novos investimentos – e apresentam desafios próprios. A fonte solar, por exemplo, só fica disponível de 10 a 12 horas por dia, e deve ser armazenada em baterias caras. “Algumas dessas baterias precisam de metais pesados, então teremos um aumento de demanda por mineração, com todos os seus impactos negativos”, acrescenta Costa. “O mundo tem uma abundância de materiais para baterias de telefones celulares e laptops. Se esses minérios começarem a ser necessários para armazenar a nossa energia, isso pode gerar outro grande problema no longo prazo.”

Mais um efeito dominó: se a seca fizer com que mais fazendeiros precisem irrigar suas plantações, a medida poderá reduzir ainda mais a vazão dos rios, piorando de vez a crise hidrelétrica.

“Diante das alterações no regime hidrológico, o Brasil voltará à energia suja em vez da energia limpa?”, pergunta a economista Monica de Bolle, do Instituto Peterson de Economia Internacional. Para preencher o vácuo hidrelétrico, fontes de energia não-renováveis, como o gás natural ou o carvão mineral, podem voltar a ser usadas, de acordo com o plano decenal oficial de energia do Brasil.

Mesmo quando o bioma amazônico chegar ao ponto de inflexão e a vazão dos rios diminuir, com hidrelétricas produzindo menos megawatts, ainda haverá grande demanda por energia. No Brasil, as mudanças climáticas resultam na elevação das temperaturas, sobretudo nas ilhas de calor urbanas, levando à necessidade de maior uso de eletricidade para alimentar sistemas de ar condicionado e refrigeração.

Irrigação numa plantação de soja: 90% da agricultura brasileira depende da estabilidade das chuvas, deixando o setor em risco à medida que as secas na Amazônia se agravam. Foto: Flávia Milhorance.

Brasil: uma economia agropecuária dependente da natureza O ponto de inflexão da Amazônia tornará a agricultura mais difícil e mais cara, um investimento mais arriscado, alertam os cientistas. Áreas rurais consideradas hoje de baixo risco, por exemplo, passarão a ser empreendimentos de alto ou médio risco nas próximas décadas, de acordo com pesquisa do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas.

Carlos Nobre explica: o Brasil “já está no limite de produtividade [agrícola]. Se perdemos o controle do aquecimento global, estaremos falando de o Cerrado ficar inviável para a agricultura”. O Cerrado hoje é a fronteira agrícola que se expande mais rapidamente no país – um “rolo compressor” de soja, algodão, milho e pecuária, com exportações vitais para a economia brasileira.

A questão é que esse rolo compressor econômico – que fornece grandes quantidades de soja para alimentar o gado na União Europeia, China e Reino Unido – depende de chuva abundante.

Nobre ressalta que o ponto de virada da Amazônia não é meramente uma abstração futura: seus impactos já estão sendo sentidos no Mato Grosso, importante produtor de soja cujo território cobre parte da Amazônia e do Cerrado. O estado já passa por mudanças alarmantes no ciclo hidrológico.

Grandes companhias do agronegócio estão percebendo essas mudanças: a Amaggi, maior produtora de soja privada do mundo, já observa “mais concentração de chuva numa quantidade menor de dias”. A companhia está buscando tecnologia para mitigar os impactos dessa nova condição. “O mercado procurou cultivos que são resistentes a períodos mais longos de seca”, anuncia a empresa. “São recursos tecnológicos que permitem a adaptação às mudanças de precipitação que podem ocorrer entre uma safra e outra, mantendo os níveis de produção.”

A adaptação, porém, só funcionará até certo ponto. Os cientistas alertam que o aumento da seca intensificará o risco econômico dos fazendeiros. “Até agora, já houve um declínio de 100 milímetros de chuva. Quando se tem 1.500 milímetros por ano, perder 100 não parece ser um absurdo. Mas vai piorar”, diz o pesquisador Eduardo Assad, da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). “Se a precipitação anual cair para 1.000 milímetros, a produção ainda é possível, mas as lavouras ficarão muito vulneráveis.”

Cientistas se apressam para desenvolver variedades de soja resistentes ao calor e à seca, mas muitos deles duvidam que possam estar à frente de mudanças climáticas que avançam com rapidez. Foto: Flávia Milhorance.

A pesquisa de Assad na Embrapa levou a novas variedades de soja adaptadas à falta d’água e a mais calor, mas o melhoramento genético é um caminho longo e caro – e não é suficiente por si só. “Ok, podemos desenvolver uma soja que tolere mais 2 oC. Mas, e se a temperatura aumentar 3 oC?”, pergunta ele. Novos modelos de sensibilidade climática que ainda estão sendo testados para o ano que vem mostram um possível aumento de temperatura em 2100 de até 5,6 oC. Ninguém ainda desenvolveu uma soja que sobreviva a esse calor.

O desmatamento agrava o problema. “O efeito de uma savanização da Amazônia seria catastrófico. Não faz sentido falar em aumentar a produção agrícola com a taxa de desflorestamento que temos hoje”, conclui Assad. A derrubada das árvores seca rapidamente a paisagem, intensificando a estiagem e diminuindo a produção.

O economista Juliano Assunção, diretor-executivo da Climate Policy Initiative Brasil, concorda. “O desmatamento representa uma imensa perda de recursos. O interesse econômico [do agronegócio] nas áreas [desmatadas] é muito limitado”, diz ele, argumentando que um quarto das áreas desmatadas recentemente do Brasil é mais tarde abandonado. “O desmatamento é uma atividade ilegal com muito pouca importância econômica e baixa produtividade”, explica Assunção, embora seja uma atividade que beneficie muito os especuladores de terra e os grileiros.

A diminuição da capacidade agrícola brasileira não é uma preocupação apenas nacional. A população global deve explodir para mais de 8 bilhões em 2023 – daí a necessidade de produzir mais alimentos. Um estudo prevê que a demanda por alimentos deve aumentar em até 98% até 2050, e um Brasil mais seco terá bastante dificuldade em atender esses novos consumidores.

O ponto de inflexão da Amazônia, que intensificará as secas, não prejudicará apenas o agronegócio em grande escala, mas também os agricultores familiares brasileiros que alimentam a maior parte do país. Foto: © Kevin Arnold / TNC.

Menos água e mais demanda

Fazendeiros que buscam se adaptar à redução das chuvas por meio da irrigação não terão facilidade no novo cenário. Hoje, menos de 10% das plantações brasileiras são irrigadas, mas, com a redução das chuvas e o crescimento da demanda, é provável que aumentem as tensões e conflitos por água. “Todos estarão competindo por um recurso escasso”, diz Roberto Schaeffer.

A região Norte do Brasil já testemunhou um aumento da irrigação de mais de 240% entre 2006 e 2017. E, obviamente, quanto mais água deixa os rios e vai para as grandes plantações, menos sobrará para a geração de energia hidrelétrica, o transporte e as comunidades tradicionais da floresta.

À medida que os rios perdem volume, especialistas avaliam que os pequenos produtores serão os que provavelmente mais irão perder no “cabo de guerra” pela água da Amazônia. “Ficou mais difícil plantar culturas que demandam um período de crescimento completo de seis meses. Então os agricultores têm de optar por cultivos de ciclo mais curto. A vida ficou bem mais precária”, comenta Antônio José Bentes, coordenador da Sociedade para a Pesquisa e Proteção do Meio Ambiente (Sapopema), uma pequena ONG com sede na Amazônia.

Bentes viu agricultores optando por cultivos que não dependem de um ciclo completo de seis meses, como a abóbora, para se adaptarem à chuva intermitente. Como pode ser cultivada em poucos meses, a produção quase dobrou no último ano. “A produção de abóbora na região de Santarém aumentou de 100 toneladas em 2018 para 180 toneladas em 2019”, diz.

“Com mudanças nos ciclos das chuvas, alteram-se os padrões de colheita e plantio. Grandes fazendeiros podem se adaptar, mas não é fácil para pequenos agricultores que usam a terra para sobreviver”, explica Monica deBolle. Mudanças no clima atingirão com impacto bem maior as famílias pobres e podem causar uma crise de migração semelhante à que está acontecendo na América Central.

Em 27 de novembro de 2019, o presidente Jair Bolsonaro celebra o término oficial da construção da mega-hidrelétrica de Belo Monte, inaugurando sua última turbina. Especialistas temem que a usina nunca se torne economicamente viável devido ao agravamento da seca e ao desmatamento a montante do Rio Xingu, que reduziu sua vazão. Foto: Palácio do Planalto.

A morte da Amazônia: riscos políticos e sociais

Em seu primeiro ano no governo, Bolsonaro negou a mudança climática; seu ministro das Relações Exteriores acredita que o aquecimento global é uma farsa para que o poder econômico deixe o Ocidente e a China possa conquistar a dominação mundial. O governo também fechou os olhos para a ciência e o risco iminente do ponto de inflexão da Amazônia.

O presidente até agora mostrou desdém pela política ambiental brasileira do passado – um exemplo para o mundo, pois reduziu drasticamente o desmatamento – e é um defensor ferrenho do desenvolvimento agressivo da Amazônia, com planos para expandir a mineração, a exploração de petróleo e o agronegócio em reservas indígenas, e de construir novas estradas e hidrelétricas, iniciativas que poderão antecipar rapidamente esse ponto de virada irreversível para o equilíbrio do bioma.

Alguns produtores agrícolas pragmáticos veem como prioridade a estabilidade do clima regional, mas outros ignoram a ciência, considerando-a um mito, diz Juliano Assunção. “Todos os dias eu me pergunto por que [partes do lobby ruralista] estão lutando contra a agenda ambiental com tanta força, uma vez que ela é tão relevante para a agricultura”, diz ele. “É difícil entender qual é a lógica por trás disso. A agenda ambiental está associada a atividades econômicas relevantes. Então, por que estão desorganizando uma política que funciona, a um custo tão alto para a sua reputação?”

De fato, esse custo tende a ser bastante alto. A agenda antiambiental praticamente inegociável de Bolsonaro pode atrapalhar o fechamento do maior acordo comercial do mundo, entre o Mercosul e a União Europeia. A oposição ao pacto comercial está crescendo na UE, por causa dos incêndios do ano passado na Amazônia e das políticas do presidente.

Evitar os riscos climáticos é “de interesse do agronegócio”, resume Marcos Costa, do IPCC. Mudanças nos padrões de precipitação sazonal e total podem impactar a produtividade, os lucros e até a segurança alimentar, escreveu ele em um artigo de 2019.

Narrativas ambientais arriscadas – como o ponto de inflexão da Amazônia ou os planos de desenvolvimento de Bolsonaro para a região – podem também afastar investidores do agronegócio e aumentar a ameaça de boicotes de consumidores internacionais, acredita Monica deBolle. “A força geopolítica brasileira é o meio ambiente”, diz ela. “Até pouco tempo atrás, estávamos numa posição privilegiada.”

O atual problema de imagem do Brasil não é apenas ambiental, mas também social e econômico, acrescenta deBolle, observando que uma porção considerável da população amazônica vive do extrativismo. “Com a floresta morrendo, a subsistência acaba. O que acontecerá com essas pessoas numa situação em que a floresta começar a desaparecer?”

A aparente abundância de água da Amazônia alimenta a floresta, a agricultura e a infraestrutura energética do Brasil. Mas, a menos que algo seja feito, essa fonte poderá secar, devastando a economia do país. Foto: Rhett A. Butler /Mongabay.

A tendência é a de que as posições extremas de Bolsonaro gerem uma reação ainda mais dura dentro e fora do país nos próximos três anos de seu mandato, à medida que ele faz pressão para explorar a floresta, colocando o Brasil e o planeta em risco.

De acordo com um relatório recente do Observatório do Clima, nenhuma das metas brasileiras para o Acordo do Clima de Paris de 2015 foi cumprida – e as metas de desmatamento de 2020 já foram ultrapassadas. “O que acontece no Brasil não fica só no Brasil”, alerta a ONG. A morte da Amazônia pode ter impactos globais, com o Brasil sozinho colocando em risco o principal objetivo do Acordo de Paris: estabilizar o aquecimento global em 1,5oC acima dos níveis pré-industriais.

Não é um desafio que cabe apenas aos brasileiros, diz Roberto Schaeffer. “Não se trata só do que pode ser feito aqui. Mesmo que o Brasil reduza violentamente suas emissões [contendo o desmatamento], e a China e a Europa não reduzam as suas, isso não resolve o problema.” A mudança climática global continuará empurrando a Amazônia rumo ao ponto de inflexão, só que mais lentamente.

“O que o mundo pode fazer [para salvar a Amazônia] é simples: cumprir as promessas feitas por aquelas pessoas respeitáveis de terno e gravata no Acordo de Paris”, conclui.

Por: Shanna Hanbury
Fonte: Mongabay

Governo leva profissionais de saúde e equipamentos para o Amazonas

Por: Site

Insumos vão para São Gabriel da Cachoeira e Tabatinga

Um avião da Força Aérea Brasileira (FAB) decolou neste domingo (17) de Brasília levando 11 profissionais de saúde e milhares de equipamentos de proteção individual, insumos como álcool em gel e equipamentos para atender hospitais de São Gabriel da Cachoeira e de Tabatinga, no Amazonas.

“Estamos embarcando agora para São Gabriel e Tabatinga, a fim de prestar apoio aos dois distritos do Amazonas”, disse antes do embarque o secretário Especial de Saúde Indígena do Ministério da Saúde, Robson Santos da Silva, que acompanha a missão representando o Ministro Interino da Saúde, Eduardo Pazuello.

Sesai e ministério da defesa levam insumos para o Amazonas
Sesai e ministério da defesa levam insumos para o Amazonas – Divulgação/Sesai

Segundo o general Luiz Narvaz Pafiadache, secretário de Pessoal, Ensino, Saúde e Desporto (SEPESD), do Ministério da Defesa, o envio visa combater o novo coronavírus (covid-19) nas terras indígenas da região.

A região tem uma das maiores populações indígenas do país e é atendida pelos Distritos Sanitários Especiais Indígenas (Diseis) do Alto Rio Solimões e do Alto Rio Negro.

O voo partiu de São Paulo, fez escala em Brasília, e a previsão é de escalas na Serra do Cachimbo e em Manaus antes de chegar a São Gabriel da Cachoeira ainda neste domingo (17). Na segunda, a missão segue para Tabatinga.

Com informações da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai)

Fonte: Agência Brasil – EBC
Edição: Fernando Fraga

Pesquisadora descobre nova espécie de peixe na bacia do rio Amazonas

Por: Site
A espécie Ammoglanis obliquus mede até 1,5cm e possui corpo semi-transparente. Foto: Elisabeth Henschel/Divulgação

Uma nova espécie de peixe foi descoberta na Amazônia: o Ammoglanis obliquus, uma espécie de bagre que cresce até no máximo 1,5 centímetros e que possui um corpo semi-transparente. O peixe recém-descrito pela ciência foi encontrado num curso d’água parcialmente destruído, no município de Rio Preto da Eva, a 78 km de Manaus, Amazonas. A descoberta ajuda a entender a morfologia da evolução dos bagres, que possuem 956 espécies conhecidas pela ciência somente na bacia do rio Amazonas.

O gênero Ammoglanis, entretanto, composto por esses bagres minúsculos e semi-transparentes – não possuía ainda nenhum registro na região. A descoberta foi liderada pela bióloga brasileira Elisabeth Henschel e publicada no periódico internacional Zoosystematics and Evolution em fevereiro, junto com uma equipe de pesquisadores do Laboratório de Sistemática e Evolução de Peixes Teleósteos da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A pesquisa contou com o apoio da National Geographic Society.

O registro da nova espécie foi feito pela primeira vez por acaso, em agosto de 2019, enquanto Henschel e dois colegas da UFRJ iniciavam uma expedição de pesquisa na Amazônia para estudar um outro grupo de peixes, o candiru.

O Ammoglanis obliquus se diferencia dos outros peixes do gênero pela quantidade e formato de ossos, dentição, e pelo número e localização de nadadeiras. Além disso, seu padrão colorido, composto por manchas espalhadas por todo o corpo, só é encontrado em outro peixe do gênero, o Ammoglanis pulex, encontrado na bacia do rio Orinoco, na Venezuela. A espécie recém-descoberta vive em bancos de areia perto de Rio Preto da Eva e se alimenta do sangue e da mucosidade de animais maiores ou em decomposição.

A distribuição geográfica restrita, característica comum a maioria dos bagres, pode ser o maior risco do Ammoglanis obliquus, cujo curso d’água onde foi descoberto, por exemplo, está localizado no meio de um sítio de construção. Ter um habitat reduzido aumenta a suscetibilidade de uma espécie aos riscos de extinção, pois qualquer desequilíbrio ou supressão do seu habitat pode comprometer a existência da espécie inteira.

“A conservação é geralmente focada nas espécies maiores, porém, quando destruímos as correntes e os pequenos cursos de água onde estes pequenos peixes moram, tem implicações desconhecidas no médio e longo prazo. Nosso papel como cientistas é oferecer conhecimento que depois possa ser utilizado para compreender a importância desses peixes pequenos para o ecossistema”, explica Elisabeth Henschel.

Visão lateral e dorsal do novo peixe. Foto: Elisabeth Henschel/Divulgação.

Por: Duda Menegassi
Fonte: O Eco

Muito discurso, pouca prática: empresas “verdes” financiam indústria da carne na Amazônia

Por: Site
Empresas que se dizem sustentáveis seguem patrocinando abates de boi na Amazônia. Foto: Marcio Isensee e Sá.

Em dezembro de 2015, após quatro anos de negociação, 195 países decidiram se unir para frear o aquecimento global. Eles assinaram o Acordo de Paris, em que se comprometeram a tomar medidas para conter o aumento da temperatura do planeta em até 2°C acima dos níveis pré-industriais. Cada nação definiu as próprias metas para atingir este objetivo. A União Europeia (UE) se prontificou a diminuir em 40% a contaminação da atmosfera com gás carbônico, enquanto o Brasil prometeu chegar a 43% de redução nas emissões de gases de efeito estufa até 2030. Para isso será preciso zerar o desmatamento ilegal e ainda recuperar 12 milhões de hectares de florestas já derrubadas.

Mas enquanto o governo de Jair Bolsonaro (sem partido) ameaçou sair do Acordo de Paris e a Amazônia registrou em 2019 a maior taxa de desmatamento em dez anos, a Europa já começou a se mexer – tendo como uma das principais linhas de ação o mercado financeiro. “O setor financeiro tem um papel chave para atingir estes objetivos, já que grandes quantidades de capital privado terão de ser direcionados aos investimentos sustentáveis”, afirma o bloco europeu.

A certeza vem da compreensão, cada vez mais consensual, de que nenhum esforço será suficiente para conter as mudanças climáticas se os donos do dinheiro continuarem alimentando setores que emitem toneladas de CO2. É o caso das empresas de carne bovina que atuam na Amazônia e que são financiadas por grandes instituições europeias como Deutsche Bank, HSBC, Santander e Credit Suisse. Em 2018, a pecuária foi responsável por 19% das emissões de CO2 do Brasil. Se a conta incluir o desmatamento na Amazônia, onde dois terços das derrubadas são para abertura de pasto, o setor se torna responsável por até 45% da contaminação atmosférica nacional no período.

Para orientar os investidores na transição para uma economia de baixo carbono, a Comissão Europeia lançou, em março deste ano, o EU Taxonomy, um guia que classifica os setores econômicos segundo seu impacto ambiental e cria uma régua padrão para comparar a sustentabilidade de cada um. “Ao classificar as empresas, a taxonomia vai permitir que o investidor saiba o quanto aquele negócio está contribuindo para a mitigação e adaptação às mudanças climáticas. É uma ferramenta sofisticada, que vai muito além do que qualquer outro país já fez. É absolutamente poderoso”, elogia Natalie Unterstell, administradora pública e diretora da Talanoa, organização que produz estudos e projetos para mitigação de riscos climáticos.

A partir de dezembro de 2021, as instituições financeiras e grandes corporações europeias terão que incluir esse indicador verde ao divulgarem onde estão investindo seus recursos. Desde 2018, já há obrigatoriedade para as empresas de informar nos relatórios anuais sua conduta em relação à proteção ambiental, responsabilidade social, diversidade de seus conselhos de administração, respeito aos direitos humanos e medidas anticorrupção.

Para o Brasil, o cerco europeu sobre quem desrespeita o meio ambiente pode ter consequências práticas: o acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia, debatido por mais de duas décadas e finalmente fechado em 2019, pode vir abaixo pela omissão do governo Bolsonaro no combate ao desmatamento. Neste tratado, há um capítulo inteiro dedicado ao desenvolvimento sustentável, que obriga os signatários a cumprirem o Acordo de Paris e os proíbe de enfraquecer seus níveis de proteção ambiental, revogar leis ambientais ou deixar de aplicá-las de forma reiterada. Um sinal de que o Brasil deveria levar a sério as advertências de autoridades europeias é um pacto semelhante firmado entre o bloco e o pequeno Vietnã: o texto só foi aprovado pela assembleia da UE depois que o governo vietnamita se comprometeu a fortalecer os direitos trabalhistas no país.

Terra com lei, mas sem penalização

Do lado de cá do Oceano Atlântico, o compromisso com negócios e investimentos socioambientalmente corretos ainda é uma quimera. “O Brasil está a reboque do resto do mundo. Infelizmente não estamos criando regras aqui”, lamenta Unterstell, que antes de fundar a Talanoa, coordenou o mais ambicioso estudo de cenários e alternativas de adaptação à mudança climática no país – o Brasil 2040, lançado em 2015 pela presidência da República.

Desde 2014, empresas que operam na bolsa de valores brasileira são obrigadas a incluir informações ASG (compromissos ambientais, sociais e de governança) no formulário de referência que entregam anualmente à Comissão de Valores Mobiliários, e que auxilia os investidores nas suas tomadas de decisão. Mas na prática, os dados são vagos.

Em 2019, por exemplo, a JBS dedicou dois parágrafos em 650 páginas para informar que as mudanças climáticas podem “ter um efeito material

adverso sobre resultados operacionais, situação financeira e de liquidez”. Apesar disso, o documento não relaciona a atividade principal da empresa, que em 2017 tinha 32 frigoríficos na Amazônia, com o risco de desmatamento e suas consequências para o controle da temperatura do planeta. A única referência ao problema aparece no capítulo “ações judiciais”, quando dá notícia do Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) da Carne, um acordo firmado com o Ministério Público Federal em que a empresa se compromete a não comprar gado de desmatamento ilegal. A empresa anota que “não há chance de perdas” financeiras em decorrência do TAC, embora o procurador da República Daniel Azeredo afirme que o expediente não tem sido suficiente para impedir que os grandes frigoríficos abatam animais provenientes de áreas desmatadas.

O Banco Central do Brasil (BC), que regulamenta o sistema financeiro nacional, também publicou resoluções que obrigam bancos e instituições financeiras a considerarem aspectos ambientais em suas operações. A mais antiga, de 2008, condiciona a concessão de empréstimos a fazendeiros na Amazônia à entrega de documentação que comprove a regularidade ambiental das propriedades.

Mas a norma não pegou. Segundo a assessoria de imprensa do BC, jamais uma instituição financeira foi sancionada por descumprir a resolução. A única vez que um banco foi responsabilizado no Brasil por financiar o desmatamento foi em 2016, quando o Ibama multou em R$ 47,5 milhões o Santander por financiar o plantio de grãos em área de proteção ambiental – terra sobre a qual vigorava um embargo, ignorado na hora de analisar o pedido de crédito. O Ministério Público Federal cobrou mais R$ 7,3 milhões do banco, a título de indenização por danos ambientais. O Santander recorreu e, três anos depois ainda não teve que pagar um tostão. Na lista do Ibama, há 19 bancos multados por irregularidades ambientais, mas o do Santander é o único caso de autuação por financiamento de produção em área embargada.

Além de exigir regularidade ambiental para quem solicitar crédito, em 2014 o Banco Central determinou que as instituições financeiras considerem os riscos socioambientais antes de decidir apostar suas fichas em um determinado investimento – o que foi reafirmado em 2017. Em 2018, a imposição passou a valer também para as aplicações financeiras de entidades fechadas de previdência complementar.

Mais uma vez, as regras parecem não funcionar bem. Segundo uma análise de ((o))eco com base em levantamento da Global Witness, os três frigoríficos que mais compram bois na Amazônia receberam 18 bilhões de dólares em investimentos entre 2013 e 2019. Oito bilhões de dólares vieram de instituições financeiras brasileiras, embora JBS, Marfrig e Minerva sejam apontadas pelo Imazon como a primeira, a quinta e a décima processadoras de carne do país com maior chance de promoverem o desmatamento.

“Todos os bancos que a gente identificou que financiam estas empresas têm políticas socioambientais, então, em teoria não poderiam investir em frigoríficos com exposição ao desmatamento”, assinala Chris Moye, investigador florestal e um dos autores do relatório da Global Witness, Money to Burn.

Estados Unidos freiam avanços

Mesmo na Europa, onde as regras mais rígidas estão sendo implantadas, os investidores seguem apostando suas fichas na indústria de carne brasileira. Um quarto do dinheiro estrangeiro que alimenta JBS, Marfrig e Minerva vem de países europeus.

Depois dos brasileiros, os norte-americanos são os que mais investem nos frigoríficos contaminados com desmatamento – uma dificuldade extra na transição nacional para uma economia de baixo carbono. O presidente norte-americano, Donald Trump, já iniciou o processo para que os EUA abandonem o Acordo de Paris e as diretrizes para investidores são cristalinas: administradores de fundos de aposentadoria, por exemplo, “não devem tratar os fatores ASG como economicamente relevantes” nas suas escolhas de investimento, e sim “colocar sempre em primeiro lugar os interesses econômicos”.

“Os Estados Unidos não estão assumindo posições tão duras quanto a Europa”, afirma o analista Cole Martin, da Fitch Solutions, empresa que faz análises de diversos setores da economia. “As empresas norte-americanas não estão sob grande pressão para aumentar suas credenciais de sustentabilidade ou sua transparência nesta área. As que estão fazendo isso, fazem por vontade própria”, complementa.

Unterstell, por sua vez, não é tão pessimista em relação aos norte-americanos. Para a diretora da Talanoa, as mudanças estão sendo cada vez mais conduzidas pelo próprio mercado financeiro, independente da inércia do governo Trump. “É menos uma questão de estado ou regulação e mais de postura de mercado. Desde 2013 o que se vê são os maiores players – como Bloomberg e BlackRock – trabalhando com riscos climáticos e dando muita atenção aos títulos verdes. São eles que estão criando os padrões e as regras”, conclui.

Autorregulação falha no mundo inteiro

A preocupação com a economia de um mundo superaquecido vem originando inúmeras iniciativas dentro do próprio mercado financeiro para estimular investimentos ambientalmente responsáveis, criadas sobretudo nas últimas duas décadas. O pioneiro dos defensores dos investimentos verdes foi o Carbon Disclosure Project, ou Projeto de Divulgação de Carbono, uma ONG fundada no ano 2000 que se tornou a mais completa base de dados ambientais autodeclarados do mundo.

A mais recente entre as iniciativas do mercado é a Task Force on Climate-Related Financial Disclosures (Grupo de Trabalho sobre Divulgações Financeiras Relacionadas ao Clima), criada em 2015 pelo Financial Stability Board, órgão que monitora o sistema financeiro de todo o planeta. São mais de mil empresas associadas, apenas 20 no Brasil e nenhuma no setor da carne. Despontam entre os signatários as companhias japonesas (265 participantes), país que tem seis empresas entre as financiadoras internacionais de JBS, Marfrig e Minerva, contribuindo com mais de meio bilhão de dólares para seus negócios.

O maior acordo deste tipo foi firmado em 2006, na bolsa de Nova Iorque, quando apareceu a iniciativa PRIs – sigla para “principles for responsible investment”, ou, em português, “princípios para o investimento responsável”. Seus mais de três mil signatários se comprometem a incorporar questões socioambientais e de governança nas suas decisões de investimento, embora entre eles haja financiadores dos frigoríficos que operam na Amazônia.

A BlackRock é um caso emblemático: em janeiro deste ano, o CEO da gestora de ativos, Larry Fink, anunciou a seus agentes, por carta, a decisão corporativa de “posicionar a sustentabilidade no coração da nossa estratégia de investimento”. Mas até o ano passado a BlackRock era uma das 15 maiores investidoras mundiais na cadeia da carne brasileira que opera na floresta. Entre 2013 e 2019 realizou 36 operações de compra de títulos de dívida e ações nos três frigoríficos, num valor total de 236 milhões de dólares.

Outro exemplo – desta vez brasileiro – é o Bradesco, banco que se orgulha de ostentar os selos de signatário do PRI, do TCFD, do CDP e de outros sete acordos voluntários. O que não impede que a instituição seja a segunda maior financiadora nacional dos frigoríficos que operam na Amazônia, segundo a análise feita pelo ((o))eco a partir dos dados da Global Witness.

No Brasil, 63 instituições são signatárias do PRI – e a lista não inclui nenhuma indústria de carne.

Por aqui, entidades ligadas ao mercado financeiro também têm buscado se conectar com o discurso dos bons propósitos e do investimento verde, mas na prática ainda há muitas incoerências. A Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) criou uma categoria de fundos de investimento chamada “sustentabilidade e governança”, mas entre os 2.610 fundos de ações ativos no Brasil, apenas 21 são desse tipo – dos quais dois possuem ações de ao menos um dos três frigoríficos que mais atuam na Amazônia. Outros cinco destes fundos – que deveriam valorizar as boas práticas de governança, entre elas a transparência –, omitem sua carteira de investimentos ao público. A Comissão de Valores Mobiliários disse que não se responsabiliza pela fiscalização desses fundos e a Anbima não respondeu qual é a garantia de que os produtos realmente financiam apenas empresas ambientalmente comprometidas.

A Associação de investidores no Mercado de Capitais (AMEC) publicou em 2016 um código com os princípios e deveres de empresas que administram investimentos. Um dos fatores “determinantes finais da decisão de investimento” são informações ASG.

A Associação Brasileira das Entidades Fechadas de Previdência Complementar (Abrapp) lançou um manual de autorregulação e um “Guia Prático para Integração ASG na Avaliação de Gestores”. A Federação Brasileira de Bancos (Febraban) criou uma Régua de Sensibilidade ao Risco Climático, que mostra a pecuária com um dos investimentos de alto risco.

Mas um estudo da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), de 2018, mostra que a preocupação com a sustentabilidade ainda está longe das planilhas dos gestores financeiros. Para começar, apenas 110 das 520 gestoras de recursos consultadas responderam ao questionário. Embora a maioria (85%) afirme considerar o potencial impacto de questões ambientais, sociais e de governança em suas decisões, apenas 11% tem equipe específica para análise destes aspectos. Entre as empresas que responderam, 20% usa um banco de dados específico para esta finalidade e 21,36% contam com uma política de investimento responsável. Apesar da baixa adesão, o estudo revela a falta de interesse para aprimorar estes métodos: 67% das gestoras de recursos não têm metas ou objetivos para integração desses aspectos nas suas análises de risco.

Pressão do consumidor fará cada vez mais a diferença

A pesquisa da Anbima revela por que, apesar de tantos guias, manuais e recomendações, as ações das empresas que compram e vendem a carne produzida na Amazônia seguem imunes à destruição da floresta.

“Aderir a acordos ou iniciativas ‘verdes’ é uma estratégia comum do setor empresarial, mas no Brasil se tornou uma forma de adiar ou evitar a imposição de uma regulação oficial sobre o tema”, denuncia Paulo Barreto, pesquisador sênior do Imazon que acompanha há muitos anos as negociações em torno da indústria da carne.

Na prática, o resultado é ínfimo: “Se não tiver prazos vinculados a metas, desempenho e sanções claras, tem pouca oportunidade de avanço”, afirma Barreto.

A baixa efetividade dos esforços regulatórios mostra que o interesse em mudar o jogo do desmatamento terá de partir dos próprios investidores, cujas decisões são movidas por basicamente duas palavras: risco e lucro.

É aí que entra o papel do consumidor, especialmente para fazer pressão à indústria da carne. Empresas como a JBS interagem diretamente com o público, porque suas marcas estão expostas nas prateleiras dos supermercado. “Estas empresas estão sob risco de retaliação do consumidor”, avalia Cole Martin, analista da Fitch Solutions, que acredita que o desmatamento será um problema crescente para os frigoríficos da Amazônia daqui para frente.

“O governo também pode mudar regras, criar impostos sobre a carne em função do dano ambiental, ou aprovar novas leis sobre bem estar animal que vão aumentar os custos da empresa e diminuir seus rendimentos. Para mim é nisso que os investidores vão estar atentos”, afirma.

Um bom balanço desse ponto, segundo Martin, é a própria crise das queimadas da Amazônia no ano passado, quando as atenções de todo o mundo se voltaram para o Brasil. Embora tenha havido uma onda sem precedentes de solidariedade com a floresta, em 11 anos dos últimos 20 anos o estrago foi maior que o de 2019, segundo os dados do Inpe.

“Mas se você for ao Google Trends e procurar por ‘Floresta Amazônica’ desde 2004 você vê a linha achatada, e em 2019 você vê um boom. Houve uma enorme atenção da mídia, com a União Europeia se recusando a ratificar o acordo com o Mercosul. Os riscos para o mercado estão crescendo”, avalia.

Contraponto

Banco Central (leia a íntegra da resposta aqui):

O Banco Central informa que cabe à própria instituição supervisionar a implementação das regulamentações ambientais. No caso do crédito rural, todas as operações são registradas no Sistema de Operações do Crédito Rural e do Proagro (SICOR) que possui críticas que impedem que a operação seja concedida caso esteja em desacordo com determinados parâmetros, como o registro no CAR e a duplicidade de operações na mesma área. Mesmo assim, o BC fiscaliza a atuação das instituições financeiras e monitora as coordenadas geodésicas das áreas financiadas. Em caso de irregularidades, além de interromper os incentivos e subsídios afetos ao crédito rural, podem ser aplicadas sanções previstas na Lei 13.506/2017 [que trata das punições a quem descumpre as regras do BC] e regulamentadas pela Circular nº 3.857/2017 [que trata do rito do processo administrativo das sanções], bem como a comunicação ao Ministério Público Federal, quando houver indícios de crime”. No que diz respeito às análises de risco socioambiental o BC afirma faz inspeções e monitoramento para avaliar os riscos assumidos pelas entidades supervisionadas.

Bradesco (leia a íntegra da resposta aqui):

O Bradesco afirma que avalia os riscos socioambientais antes da concessão do crédito, por meio de informações de domínio público e dados disponibilizados pelos clientes. Na concessão de crédito rural no bioma amazônico, além dos requerimentos técnicos previstos em lei, o Bradesco exige a apresentação de projeto técnico e contrata empresas que executam auditoria presencial. O resultado dessa análise resulta em um rating socioambiental que é apreciado no processo de deliberação de crédito. O banco destaca que tem uma equipe técnica multidisciplinar dedicada exclusivamente às análises de risco socioambiental.

Febraban (leia a íntegra da resposta aqui):

A Febraban informa que a profundidade das avaliações dos riscos socioambientais feitas pelos bancos é determinada pela relevância e a proporcionalidade da operação para a instituição financeiras. Isto é, uma operação que represente um potencial risco de dano socioambiental e tenha uma representatividade importante na carteira de crédito será objeto de uma avaliação detalhada. Segundo a entidade, os bancos, em geral, têm áreas e equipes dedicadas à gestão do risco socioambiental. A Febraban afirma que o tema ambiental é uma preocupação crescente e global dos bancos, seguradoras, investidores, empresas, consumidores e reguladores.

Santander

O Santander esclarece que atuou e segue atuando em conformidade com a regulamentação aplicável e adota as melhores práticas socioambientais. Por essa razão, a instituição apresentou uma defesa administrativa ao Ibama, que ainda não foi apreciada. Sobre o relatório da Global Witness, o Banco acrescenta que realiza, anualmente, a reavaliação de sua carteira de clientes corporativos sob critérios socioambientais, levando em conta suas cadeias de fornecedores. Um dos fatores observados, no caso das empresas mencionadas no relatório Amazon Watch, foi o cumprimento dos acordos firmados com o Ministério Público Federal e o Greenpeace para garantir a procedência dos animais adquiridos na região amazônica.

Esta reportagem é a segunda de uma série que vai investigar a relação entre o mercado financeiro e a indústria da carne no Brasil. Se você quiser entrar em contato com a equipe para oferecer alguma sugestão de abordagem, basta escrever para quemfinanciaodesmatamento@gmail.com.

Por: Fernanda Wenzel, Naira Hofmeister, Pedro Papini e Juliana Lopes
Fonte: O Eco

Covid-19 se alastra pelas Terras Indígenas do Rio Negro

Por: Site

Dispararam os registros entre povos da região, como os Baniwa, Tukano e Baré; “precisamos de ajuda humanitária para evitar uma tragédia”, alertou Marivelton Barroso, presidente da Foirn

Comunidade indígena de Boa Esperança, na BR 307, proibiu visitas após registro do primeiro caso|DSEI-ARN

São Gabriel da Cachoeira, município mais indígena do Brasil, vive dias dramáticos. Com uma população de 45 mil habitantes, a cidade experimenta um crescimento acelerado de casos de Covid-19, apesar do bloqueio de trânsito decretado em março. Nesta sexta-feira (15/05) foram notificados 265 casos, com 12 óbitos e 14 pessoas internadas no único hospital local. Porém, o Hospital de Guarnição (HGU), gerido pelo exército brasileiro, não possui Unidade de Tratamento Intensivo (UTI).

Segundo o secretário de Saúde do município, Fábio Sampaio, todos os pacientes entubados estão inscritos no Sistema de Transferências de Emergências Reguladas (Sister), da Secretaria de Estado de Saúde (Susam) e aguardam um leito de tratamento intensivo na capital, Manaus, distante mil quilômetros de São Gabriel.

Manaus, por sua vez, protagoniza cenas de colapso na saúde e tem dificuldade em absorver pacientes graves do interior. Com a doença penetrando as aldeias, as lideranças indígenas do Rio Negro cobram medidas urgentes para o atendimento da população. “O hospital está esgotado e não temos recursos para atendimento de pacientes mais graves nos polos de saúde indígena. A situação com certeza vai piorar na segunda quinzena de maio e precisamos de ajuda humanitária neste momento para evitar uma imensa tragédia”, alertou Marivelton Barroso, presidente da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn).

Em apenas 19 dias, os casos da Covid-19 em São Gabriel da Cachoeira tiveram uma alta de 13.150%. No dia 26 de abril foram confirmados os dois primeiros casos, sendo que na sexta-feira as confirmações já chegavam a 265. São Gabriel é no momento o 11º município do interior do Amazonas com maior número de casos, ficando atrás de Manacapuru (1.357); Tefé (663); Parintins (580); Coari (502); Tabatinga (472); Santo Antônio do Içá (365); Itacoatiara (337); Careiro (309); Iranduba (302) e Rio Preto da Eva (299).

Usina quebrada

O único hospital da cidade também está com a sua usina de oxigênio quebrada e incapaz de reabastecer os cilindros usados pelos pacientes que respiram com auxílio mecânico. Com isso, os cilindros precisam ser reabastecidos em Manaus, exigindo grandes esforços logísticos, além dos riscos dessa operação.

No último sábado (09/05), por pouco seis pacientes entubados no HGU não ficaram sem oxigênio. O Comitê de Enfrentamento e Combate ao Covid-19 do município montou uma grande articulação e correu contra o tempo para salvar os pacientes. De última hora os cilindros chegaram de Manaus via Força Aérea Brasileira (FAB).

Além disso, pacientes que precisam de atendimento para outras doenças graves correm sério risco de se contaminar no hospital ou então estão deixando de se tratar com medo da infecção. O HGU também é o único local que faz partos no município, aumentando ainda mais o alerta de contaminação de gestantes e recém-nascidos.

“Continuo afirmando que é urgente uma unidade alternativa para as pessoas que adoecem de outras patologias, uma Unidade Mista, um Centro de Saúde, uma UPA, qualquer outra unidade para dar suporte e atender as pessoas que adoecem, que precisam de uma consulta de rotina, para as gestantes parirem, um lugar com segurança e sem estar contaminado com esse vírus”, explicou o gestor em saúde coletiva da Secretaria Municipal de Saúde de São Gabriel, Angelo Quintanilha.

A malária também é outro ponto de tensão. Em 2019, São Gabriel foi o município com a maior incidência de casos no Amazonas, segundo a Fundação de Vigilância em Saúde (FVS) do estado, e as ocorrências continuam em alta esse ano. Alguns moradores relatam dificuldades para fazer testes de malária, com peregrinações pela cidade para conseguir atendimento, aumentando a exposição e risco à contaminação.

Também há relatos de profissionais de saúde, sobretudo enfermeiros que atendem nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) do município, trabalhando com sintomas de Covid-19 ou já afastados por estarem infectados. A falta de recursos humanos é outra grande preocupação e exige esforços urgentes para se levar profissionais de saúde para atuarem no município.

Catástrofe

“Se não temos uma unidade hospitalar preparada para atender sequer a população urbana de São Gabriel com Covid-19, se começarem a descer pessoas das comunidades doentes, será uma catástrofe. Digo isso sem exageros”, ressaltou Quintanilha.

Essa catástrofe anunciada começou a se desenhar com o surgimento de casos positivos nas aldeias das calhas dos rios Tiquié, Uaupés, Xié, Içana e no próprio Rio Negro. Também foram registrados casos no Balaio, na BR-307, na comunidade de Boa Esperança, e também na comunidade Lago das Pedras, no município de Barcelos.

Além disso, com a ausência de testes e carência no atendimento, as informações que circulam pelas redes de radiofonia e grupos de Whatsapp indicam que muito mais gente possa estar doente. Óbitos recentes por paradas cardiorrespiratórias que não tiveram confirmação de Covid-19 por exame também apontam subnotificação de mortes de indígenas nas aldeias e na área urbana, como o caso da morte do artista indígena Feliciano Lana, do povo Desana, na última terça-feira (12/05), que não consta nos registros oficiais.

Aliança interinstitucional

O Instituto Socioambiental (ISA), junto com a Foirn, integra o Comitê de Enfrentamento ao Covid-19 em São Gabriel da Cachoeira – criado por decreto municipal – e vem fazendo uma série de articulações para buscar melhorias para a saúde na região, assim como para garantir soberania alimentar durante o isolamento social e direito à informação. A Federação indígena está recebendo doações diretamente através da campanha Rio Negro, Nós Cuidamos, assim como articulando uma série de parcerias para incrementar a estrutura da saúde indígena. Funai, Exército, Marinha, IFAM, Polícias Militar e Civil, Prefeitura e outras instituições também integram o Comitê.

Wizer Almeida, do ISA, retira álcool gel, sabão e materiais para confecção de máscaras, no aeroporto de São Gabriel|Raquel Uendi/ISA

Os Expedicionários da Saúde (EDS), que já atuam no rio Negro em campanhas de saúde junto à população indígena, receberam doações mobilizadas pela parceria ISA-Foirn para a compra de 30 concentradores de oxigênio e 14 cilindros de 50 litros carregados de oxigênio, com fluxômetros (equipamento para medir o fluxo de oxigênio nos cilindros), além de 15 geradores de energia. O material foi doado ao DSEI-ARN (Distrito Sanitário Especial de Saúde Indígena do Alto Rio Negro) e chegará amanhã (17/05) a São Gabriel em voo do Greenpeace, também parceiro nas ações de combate ao Covid-19 junto aos povos indígenas na Amazônia.

O EDS já havia doado medicamentos e equipamentos de segurança individual (EPIs) aos profissionais da saúde indígena da região, que foram transportados pela FAB. No site do EDS é possível fazer doações diretas e conhecer mais sobre suas ações e parceiros.

O trabalho interinstitucional tem ajudado a mobilizar recursos, parcerias e apoios aos povos indígenas do Rio Negro, muito vulneráveis à pandemia dada a falta de infraestrutura de saúde da região fronteiriça e longa distância da capital Manaus, única cidade com leitos de UTI em todo Amazonas. Quem tiver interesse em acompanhar os boletins diários com as notícias do Comitê de Enfrentamento e Combate ao Covid-19 de São Gabriel da Cachoeira, produzido pelo ISA e distribuído pelo whatsapp para levar informação à população, basta enviar mensagem para o número (DDD 31) 99806-2958.

Lockdown

Dia 8 de maio, quando o município registrava 54 casos e quatro óbitos, o comitê decidiu recomendar à Prefeitura emitir o decreto de “lockdown”, prevendo medidas mais severas de restrição à circulação. Além disso, é obrigatório o uso de máscara e está valendo também o toque de recolher na sede municipal.

As pessoas só podem circular das 6h. às 15h., e somente para algumas atividades, como ir ao comércio essencial (farmácia e mercados), banco e lotéricas. A circulação das pessoas nas vias públicas fora desse horário foi proibida. Aglomerações e eventos sociais estão sendo severamente fiscalizados pela polícia. Também está interrompido por decreto municipal o fluxo entre aldeias e núcleo urbano.

Por: Juliana Radler
Fonte: ISA

Primata ameaçado de extinção nasce no Zoológico de Brasília

Por: Site

É o segundo caso de reprodução em cativeiro da espécie na instituição

Foto: Toninho Tavares/ Agência Brasília

Um primata nativo do Amazonas, cuja espécie está em perigo crítico de extinção, nasceu no início deste mês, no Jardim Zoológico de Brasília. O filhote de sauim-de-coleira (Saguinus bicolor) foi o segundo caso de reprodução em cativeiro da espécie assistida pela instituição.

Para dar nome ao filhote, a Fundação Jardim Zoológico de Brasília (FJZB) fez uma campanha em seu Instagram. As opções serão Tucumã e Jambu, uma fruta e uma planta típicas da Região Norte, conterrâneas do sauim-de-coleira – o primata é uma espécie originária do Amazonas e vive em uma região metropolitana de Manaus. O resultado da votação sai nos próximos dias.

De acordo com o diretor de Mamíferos do Zoológico de Brasília, Felipe Reis, o sexo do filhote ainda é desconhecido, já que, em função da fragilidade do recém-nascido e pensando na preservação da espécie, os técnicos da instituição ainda não manejaram o pequeno animal. Quando completar 3 meses e tiver independência dos pais, os biólogos vão examiná-lo para identificar o sexo do filhote.

“Nesse momento, a gente não interfere na criação. São os pais que criam, e eles estão tendo um cuidado muito bom. Eu vejo o filhote tanto no pai quanto na mãe, que é o esperado para a espécie. Essa espécie ocorre na região metropolitana de Manaus e está criticamente ameaçada de extinção, última categoria antes de extinto. É uma espécie que está com risco altíssimo de desaparecer”, explicou Reis.

Sauim-de-coleira

O sauim-de-coleira tem este nome por sua característica marcante de pelagem, com pêlos claros no tronco e o restante do corpo de cor escura. Quando adultos, podem pesar entre 450 e 600 gramas. São animais que vivem em grupos, que podem ter de 7 a 15 membros. Na natureza, a expectativa de vida do sauim-de-coleira varia entre 10 e 12 anos de idade, e em cativeiro pode chegar a até 20 anos.

De acordo com o Zoológico de Brasília, estima-se que existam cerca de 46 mil animais da espécie vivendo na natureza atualmente.

A classificação da espécie como criticamente em perigo de extinção veio por meio de uma estatística do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), segundo o qual, pelo menos 80% da população de sauins-de-coleira poderia ser reduzida ao longo de três gerações.

Fonte: Agência Brasil – EBC
Edição: Nádia Franco

Avanço do novo coronavírus na população indígena é um desastre

Por: Site

Médicos e pesquisadores apontam deficiência no atendimento de saúde e na quarentena, além de subnotificação dos casos. A Apib registra 92 mortes enquanto a Sesai confirma 19, uma disparidade que não reflete a realidade

Profissionais da saúde atendem indígenas da aldeia Xexena, dos Yanomami, em Roraima (Foto: Dsei Yanomami/Sesai)

Há dois meses, a Organização Mundial de Saúde (OMS) anunciou a pandemia do novo coronavírus no mundo. A falta de acesso das populações indígenas ao sistema público hospitalar, a dificuldade em fazer a quarentena e a subnotificação da estatística governamental são apontados por médicos e especialistas em saúde indígena como um desastre neste momento em que a Covid-19 cresce entre os povos mais vulneráveis e com a imunidade mais baixa entre os brasileiros.

A primeira morte de indígena registrada no país foi em 19 de março no oeste do Pará. A anciã Lusia dos Santos Lobato, de 87 anos, do povo Borari, faleceu em 19 de março, em? ?Santarém. Por não morar em aldeia reconhecida pela Fundação Nacional do Índio (Funai) e não ter cobertura do Distrito Sanitário Especial Indígena (Dsei), sua morte não consta na estatística da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), do Ministério da Saúde, o que representa uma subnotificação.

No norte de Roraima, um grupo de 40 indígenas Yanomami foi enviado pela Sesai de volta à aldeia Xexena, na Terra Indígena, sem passar pela quarentena ou fazer o teste do coronavírus. Na região, foi registrado ainda profissionais da saúde infectados com o vírus.

Na última terça-feira (12), o ancião Feliciano Pimentel Lana, de 83 anos, do povo Desana, morreu dentro de sua casa em consequência de uma parada cardiorrespiratória e suspeita de novo coronavírus, mas não recebeu atendimento médico, em São Gabriel da Cachoeira, no Alto Rio Negro, noroeste do Amazonas.

Erik Jennings, neurocirurgião e coordenador da residência médica em neurocirurgia do Hospital Regional do Baixo Amazonas da Universidade do Estado do Pará, em Santarém, avalia que “esse trânsito, de estar muito dependente dos hospitais sede, é um desastre para a população indígena”.

“Estava escrito que isso ia acontecer, mais cedo ou mais tarde. Não se conseguiu fazer o isolamento das áreas como seria o indicado”, afirma o médico sanitarista Douglas Rodrigues sobre o aumento dos casos da doença entre os indígenas. Ele é do Departamento de Medicina Preventiva da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e trabalha com populações indígenas da Amazônia há mais de 50 anos.

O antropólogo Márcio Meira, ex-presidente da Fundação Nacional do Índio (Funai) e pesquisador do Museu Emílio Goeldi, em Belém (PA), diz que o principal motivo para o descontrole no combate ao avanço do novo coronavírus na população indígena “é a incapacidade, a incompetência do governo federal de agir. Porque a saúde indígena é majoritariamente de responsabilidade do governo federal”.

O primeiro caso confirmado de Covid-19 em povos indígenas foi notificado em 1o. De abril pela Sesai, no Amazonas. Uma jovem de 20 anos foi contaminada por um médico do Distrito Sanitário Indígena (Dsei) Alto Solimões, no município de Santo Antônio do Içá (a 878 quilômetros de Manaus), iniciando a transmissão entre os povos Kokama, até o momento os indígenas mais afetados pela pandemia na Amazônia.

Até esta quinta-feira (14), de acordo com os dados da Sesai, há 301 casos confirmados de Covid-19 entre indígenas aldeados no Brasil, mais 146 casos suspeitos e 19 mortes. As regiões com maior incidência são: no Alto Solimões com 129 casos e dez mortes, no Amazonas; Ceará com 23 casos e dois óbitos; e Yanomami com 19 casos confirmados e uma morte. A secretaria não inclui na estatística os indígenas que moram em cidades, mas apenas os vivem nas aldeados dentro dos territórios, o que aumenta a subnotificação.

A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) criou o Comitê Nacional pela Vida e Memória Indígena para monitorar e fazer a estatística de dados sobre a pandemia do novo coronavírus em povos que moram tanto nas aldeias como nas comunidades urbanas. Na estatística divulgada em 14 de maio, o comitê notificou 446 casos confirmados de Covid-19 e 92 mortes entre 38 povos indígenas do país.

Entre as mortes que a Sesai não contabilizou está a da liderança Tikuna, Aldenor Basques Félix Gutchicü, vice-cacique da comunidade Wotchimaücü, que morreu com suspeita de Covid-19 em 28 de abril, e foi enterrado em um vala comum no cemitério público de Manaus.

Enterro de Aldenor Basques Félix Gutchicü em vala comum, em Manaus (Foto:Fernando Crispim/La Xunga/Amazônia Real)

Para o sanitarista Douglas Rodrigues, “a gente agora está com uma outra situação. Saímos da situação de barreira sanitária, que era o que estávamos propondo, e está uma situação de transmissão sustentada em algumas áreas, possivelmente em outras também”. Pela falta de exames e atrasos nos processamentos dos exames que são feitos, há semanas especialistas apontam para uma defasagem entre o que os números indicam e a realidade.

Rodrigues diz que, com a mudança de situação, “agora é uma questão de como fazer para mitigar, diminuir ao máximo o sofrimento e a mortalidade nas aldeias. O que não vai ser alguma coisa fácil”. Para ele, a estratégia envolve duas etapas. “Primeiro: diminuir ao máximo o contágio entre as pessoas”, afirma o médico. Ou seja, “diminuir ao máximo o contágio interpessoal nas aldeias, e com isso diminuir o número de casos”.

O segundo ponto da nova estratégia defendida pelo médico sanitarista diz respeito a cuidados e atenção primária, um esforço em “detectar precocemente para que a gente possa, se tiver para onde ir, encaminhar em tempo hábil. Porque não adianta deixar o cara muito ruim, com falecimento múltiplo dos órgãos”. Por isso Rodrigues é categórico: “precisamos abordar todos os casos. Todas pessoas na aldeia que tiverem sintomas de gripe, é covid-19 até que se prove o contrário. ”

Segundo Rodrigues, as aldeias devem também criar estruturas, como casas ou tendas de isolamento. “Senão, no oitavo dia de sintomas, o cara já contaminou a aldeia inteira”, afirma o sanitarista.

Douglas Rodrigues explicita a estratégia de cuidados locais como forma de mitigar a propagação do novo coronavírus. “Essa mitigação, do meu ponto de vista, acaba por separar os casos, e que menos pessoas se desenvolvam casos graves. Em média, 5% das pessoas doentes precisam de medicação. E se elas forem cuidadas precocemente? E se elas receberem oxigênio nas aldeias? E se eu der uma alimentação boa? E se eu tratar das doenças graves? Isso pode diminuir a gravidade. Com medidas de cuidado de atenção básica, esse número de 5% pode cair. Estamos defendendo isso pois conseguimos fazer. Isso é viável. Temos capilaridade”.

Ele também ressalta a importância do uso de oxímetros nas aldeias, aparelho que mede a taxa de oxigenação no sangue: “se cair abaixo de 95%, retirar a pessoa, direto para o hospital”.

O médico Douglas Rodrigues é enfático quanto à necessidade de se implementar estratégias de atendimento primário à saúde, como as descritas acima: “Imaginar que vamos ficar aquartelados nos hospitais esperando os doentes chegarem, isso é inviável. É uma necroatividade. Fica todo mundo doente e morre na porta do hospital”.

Concentração hospitalar e população indígena

Sepultamentos de indígenas no cemitério de São Gabriel da Cachoeira (Foto: Paulo Desana/Dabakuri/Amazônia Real)

O neurocirurgião Erik Jennings atua também como médico da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) com os povos Zo’é e Munduruku. O médico está na linha de frente para conter o avanço da Covid-19 no oeste do Pará. Ele também relaciona o aumento da pressão por parte de agentes ilegais em terras Indígenas.

Para Jennings, atividades garimpeiras e madeireiras ilegais se valem do momento de pandemia para adentrar territórios indígenas, e aumentam possibilidade de contágio pelo novo coronavírus.

“Os garimpos não param. Garimpo, madeireira. Em todas essas comunidades, por exemplo, Munduruku, no Tapajós, e de certa forma os Zo’é, você teve um aumento da pressão do entorno, por esses agentes ilegais, e que se viram numa boa situação de poder avançar, já que se reduz a fiscalização do Estado”, afirma o médico.

“Essas populações em geral estão pressionadas pelo vírus e por esses atores. Essa é a nossa preocupação agora”, afirma Jennings. Segundo o médico, diferente da nossa sociedade, onde podemos fazer um lockdown, fechar as terras indígenas é impossível. “Uma das coisas que tenho insistido, é que os indígenas viveram sempre fugindo dessas epidemias. Eles estão fugindo agora de novo. Mas diferente de nossa sociedade, que podemos fazer um lockdown, fechar estradas, portos, rodoviárias, na terra indígena isso não acontece: não se pode fechar as bordas das terras indígenas. O Estado não faz isso. Ao contrário, ele relaxa mais. ”

“Soma-se à vulnerabilidade biológica, social, geográfica, a vulnerabilidade de não poder fechar o entorno, a margem. O entorno fica muito mais agressivo até”, reflete Erik Jennings.

O médico paraense retoma a sua crítica ao modelo de concentração de hospitais nas regiões mais populosas. Segundo ele, os Distritos Sanitários Especiais Indígenas (Dseis) possuem “uma capilaridade muito boa de ir para aldeia. Mas quando você precisa de unidades hospitalares, usa a da cidade. E aí que está o problema: nós não equipamos essas áreas indígenas com recursos tecnológicos e mesmo humanos para tocar os casos de coronavírus leve ou moderado nessas áreas. E essas pessoas precisam sair, e ficam perambulando, de um lugar para o outro, e contaminam parentes e etc.”

Gabinete de crise junto à população

Profissionais de saúde atenderam indígenas Yanomami, em Roraima (Foto: Dsei Yanomami/Sesai)

Márcio Meira foi presidente da Funai entre os anos de 2007 a 2012, participou da demarcação das terras indígenas do Médio Rio Negro (Amazonas) no início da década de 1990. Ele afirma que “esse índice da Sesai (Secretaria Especial de Saúde Indígena), do Ministério da Saúde, é subnotificado. Se tu fores ver os dados da Apib, que tem feito um acompanhamento independente, o prognóstico a gente já sabia: a gente já falava que isso poderia vir a ser uma tragédia. Ao país com um todo, e em especial com os povos indígenas parece que está caminhando para isso”.

O Censo do IBGE estimou que, em 2010, a população indígena brasileira era de 896.917 pessoas – 36,2% em área urbana e 63,8% na área rural. A Apib diz que são mais de 1 milhão de indígenas nos territórios. No país existem mais de 305 povos, que falam mais de 180 línguas diferentes, além de etnias em isolamento voluntário da sociedade nacional, principalmente na região amazônica.

Ainda no início da pandemia do novo coronavírus, em entrevista à Amazônia Real, o secretário da Sesai, Robson Silva disse que indígenas que vivem em comunidades das cidades serão atendidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS). No Brasil, a Sesai atende a uma população de mais de 800 mil indígenas através de 34 Distritos Sanitários Especiais Indígenas (Dsei). Na Amazônia Legal, são 25 Dseis que dão assistência para uma população de 433.363 pessoas.

“Os Dseis estão preparados para atender às especificidades epidemiológicas de seus Dseis”, disse Silva na ocasião, mas ele voltou atrás em relação aos indígenas que vivem na cidade de Manaus. Ele anunciou no dia 4 de maio que um hospital de campanha será construído na capital amazonense para atender povos aldeados indígenas e do contexto urbano. A obra, no entanto, não começou.

Márcio Meira critica duramente a posição da Sesai de não levar em conta os indígenas que vivem na cidade: “o indígena não deixa de ser indígena se ele está na aldeia ou na cidade”, afirma Meira.

O antropólogo cita o exemplo de Manaus: “Manaus é uma cidade que tem milhares de indígenas. Se um indígena mora em Manaus, ele não entra na conta da Sesai. Não considera o indígena que morre na cidade como indígena”, afirma o antropólogo. Trata-se, segundo Meira, de “um problema de fundo ideológico, de quem está à frente da Funai”.

Márcio Meira questiona ainda a política indigenista do governo federal, que dificulta parcerias com outros atores da sociedade, com as organizações não governamentais (ONGs): “a atitude do governo federal em relação à política indigenista, já é uma atitude equivocada, as ONGs são tratadas como inimigas”, acusa.

Para ele, o governo federal está atrasado: “deveria já estar agindo há muito tempo com um gabinete de crise específico para tratar as populações indígenas em relação à covid-19”. Este gabinete de crise deveria ser composto, segundo Meira, primeiramente pela “Sesai, articulada à Funai, Secretarias de Saúde dos estados e outros órgãos, para uma ação articulada e emergencial, com vários órgãos, como o Ibama, a Polícia Federal, as Forças Armadas. O exército sempre cumpriu esse poder de polícia nas fronteiras. É a hora de fazer um esforço conjunto”.

Entretanto, Márcio Meira lamenta: “a gente não vê isso acontecer. Parece que nada está acontecendo no país. Isso é um problema geral, do governo federal. Um presidente irresponsável, completamente insano, que acha que o que está acontecendo é uma ‘gripezinha’. Dentro desse problema geral, tem os indígenas, com todas as vulnerabilidades”.

Equipes Multidisciplinares no Dsei Alto Rio Purus no combate à Covid (Foto: DARP)

Por: Fábio Zuker
Fonte: Amazônia Real

Barreira sanitária Krahô intercepta carro com munição de arma de fogo na Terra Indígena Kraolândia

Por: Site

Indígenas apreenderam veículo com munições de armas de fogo na TI Kraolândia e denunciam a presença de caçadores e madeireiros no seu território, no Tocantins

Barreira sanitária do povo Krahô na aldeia Kapej, TI Kraolândia, no Tocantins. Foto: povo Krahô
Barreira sanitária do povo Krahô na aldeia Kapej, TI Kraolândia, no Tocantins. Foto: povo Krahô

Lideranças do povo Krahô detiveram invasores numa das barreiras sanitárias realizada por eles na Terra Indígena (TI) Kraolandia, no Tocantins, em função da pandemia de covid-19. Na noite de sexta-feira (8), os indígenas barraram uma caminhonete que trafegava numa das estradas de acesso ao território e encontraram no veículo muitas munições de armas de fogo de diferentes calibres.

Os indígenas decidiram apreender a caminhonete até que a Polícia Civil e a Fundação Nacional do Índio (Funai) fossem até a barreira sanitária da aldeia Kapej, que fica próxima ao limite do território. A chegada dos policiais e servidores da Funai ocorreu nesta terça (12), e os indígenas entregaram a caminhonete apreendida às autoridades, que levaram o veículo até o município de Itacajá.

As lideranças Krahô também avisaram à polícia que o proprietário da caminhonete já ameaçou os indígenas em diversas ocasiões e relataram a situação ao Ministério Público Federal (MPF). No ano passado, os indígenas chegaram a denunciar essas ameaças à polícia.

Munições encontradas pelos indígenas em caminhonete parada na barreira sanitária Krahô. Foto: povo Krahô
Munições encontradas pelos indígenas em caminhonete parada na barreira sanitária Krahô. Foto: povo Krahô

Segundo informações do Cimi Regional Goiás/Tocantins, os Krahô, assim como outros povos indígenas do Tocantins, fizeram barreiras sanitárias para diminuir o risco de contaminação por coronavírus nas suas aldeias logo depois que o governo do estado decretou o isolamento social, ainda em março.

Como as invasões à TI Kraolândia continuaram, entretanto, as lideranças das mais de 40 aldeias do território decidiram ampliar o número de barreiras, estabelecendo locais de fiscalização em outros quatro pontos do território. As barreiras devem seguir por tempo indeterminado.

A maioria das invasões, ainda segundo informações do Regional do Cimi, é feita por madeireiros e por caçadores ilegais que adentram o território em busca especialmente de ovos de arara, especialmente, para revender as aves no mercado clandestino de animais silvestres. Além disso, os indígenas também já denunciaram que há traficantes circulando na terra demarcada.

“As lideranças das aldeias relatam que estão quase totalmente desassistidas pelo governo federal”

Indígenas reclamam que não têm recebido cestas básicas e nem materiais de higiene, como máscaras. Foto: povo Krahô
Indígenas reclamam que não têm recebido cestas básicas e nem materiais de higiene, como máscaras. Foto: povo Krahô

“O território Krahô é cercado pelo agronegócio, com extensas plantações de eucalipto e soja que também pressionam os indígenas. Às vezes, as lavouras são pulverizadas com agrotóxicos que chegam até a terra indígena”, explica Jucilene Correia, do Cimi Regional Goiás/Tocantins.

A proximidade de fazendas e dos municípios vizinhos e a presença de invasores na TI Kraolândia em meio à pandemia preocupa especialmente os indígenas, que cobram providências dos órgãos públicos. Os Krahô afirmam que ainda não receberam da Funai e da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) materiais de higiene, como álcool gel e máscaras.

Os indígenas também cobram da Funai a distribuição de cestas básicas, que ainda não chegaram às aldeias. Segundo o Cimi Regional Goiás/Tocantins, as únicas cestas básicas que estão sendo fornecidas aos indígenas são as do governo estadual.

“Essas cestas do governo estadual são reduzidas e voltadas apenas às crianças e aos jovens matriculados nas escolas, que estão com as aulas suspensas”, relata Jucilene. “Mas, fora isso, as lideranças das aldeias relatam que estão quase totalmente desassistidas pelo governo federal”.

Fonte: Cimi

Vírus sobe o Rio Amazonas e adoece população indígena

Por: Site

Na remota comunidade amazônica de Betânia, os membros da tribo Tikuna suspeitam que o coronavírus tenha chegado este mês depois que alguns retornaram de uma viagem de barco de duas horas pelo rio Solimões para receber seus pagamentos de benefícios governamentais.

Velório do líder índigena Messias Martins Moreira, da etnia Kokama, em Manaus, Amazonas, no dia 14 de maio de 2020.
© AP Photo / Edmar Barros

Depois, dezenas tiveram dores de cabeça, febre e tosse. Dois morreram. E a equipe médica de cinco pessoas, que é mantida pelo governo para atender a comunidade de cerca de quatro mil pessoas, não está tratando os doentes por falta de equipamentos de proteção e testes de coronavírus, afirma o líder da tribo Sinesio Tikuna.

Os Tikuna confiam em seu remédio tradicional para doenças respiratórias: inalar nuvens de fumaça da queima de plantas medicinais e colméias.

A situação dos Tikuna ilustra o perigo do coronavírus, que se espalha para áreas de floresta tropical e locais onde populações indígenas vivem em proximidade e com serviços médicos limitados. A maioria é acessível apenas por barco ou aeronave pequena.

“Estamos muito preocupados, principalmente porque a ajuda não está chegando”, disse Sinesio Tikuna em uma entrevista por telefone para a agência de notícias Associated Press.

O Brasil tem o maior número de mortos de COVID-19 da América Latina, com mais de 16 mil óbitos neste domingo (17). A cidade mais atingida, segundo taxas per capita, é Manaus, onde valas comuns estão se enchendo de corpos.

Enquanto Sinesio Tikuna descrevia na entrevista por telefone sua crença de que a fumaça da colméia salvou quatro membros da tribo doentes, não havia ninguém no hospital de Manaus para ajudar uma mulher com febre, lutando para respirar, a entrar na sala de emergência. Um policial a colocou em uma maca, levando-a para dentro com a ajuda de um fotógrafo da Associated Press.

Os povos indígenas que habitam os rios Solimões e Negro, que se fundem em Manaus para formar o rio Amazonas, tentaram por semanas isolar suas reservas do vírus, pedindo doações enquanto aguardavam a entrega de alimentos pelo governo para que pudessem permanecer isolados. Não foi o suficiente para muitos, disseram defensores dos indígenas.

A bacia do Alto Solimões possui 44 reservas de tribos e emergiu como um local com alta taxa de infecção indígena na Amazônia brasileira. Os testes são extremamente limitados, mas mostram que pelo menos 162 de aproximadamente 76 mil indígenas da área foram infectados e 11 morreram. Existem mais de 2 mil infecções confirmadas em partes do território que não têm serviços públicos de saúde para a população indígena.

Em uma aldeia Tikuna chamada Umariacu, perto da fronteira com Peru e Colômbia, as três primeiras mortes por COVID-19 foram de idosos infectados por membros mais jovens que deixaram a cidade para receber pagamentos do governo e trocar peixes e produtos por frango e outros alimentos, disse Weydson Pereira, que coordena os serviços de saúde do governo na região.

“Nossa maior angústia hoje são os povos indígenas que não ficam em suas comunidades e entram e saem da cidade. Hoje, o lugar mais seguro para eles é dentro de suas aldeias”, disse Pereira este mês, infectado e isolado em casa com sua esposa e filha infectadas.

Duas semanas de quarentena entre as tribos na região forneceriam tempo para identificar e isolar os casos, mas “infelizmente, isso não aconteceu”, disse ele.

Na mesma área, pessoas da etnia Kokama não conseguiram tratamento médico no sistema de saúde da pequena cidade de Tabatinga ou no prestador de cuidados do governo, disseram promotores federais em um processo movido esta semana.

Os dez ventiladores do hospital estão em uso por pacientes com coronavírus e a terapia intensiva mais próxima fica a 1.600 quilômetros rio abaixo em Manaus, também cheia de pacientes, disse Pereira.

A falta de tratamento para o coronavírus em Manaus levou Pedro dos Santos, líder de uma favela chamada Parque das Nações Indígenas, a beber chá feito de raiz de chicória, alho e limão para combater uma febre alta que durou 10 dias. Um vizinho de 62 anos da etnia indígena Bare precisava de um leito de UTI, mas nenhum estava disponível e ele morreu, disse o filho do homem, Josué Paulino.

Alguns moradores assustados de Manaus, cidade com 2,2 milhões de habitantes, estão fugindo, mas podem ser portadores assintomáticos e espalhar o vírus em outros lugares, disse Miguel Lago, diretor executivo do Instituto de Estudos de Políticas de Saúde do Brasil, que assessora autoridades de saúde pública.

Cerca de 925 quilômetros acima do rio Negro, fica o município de São Gabriel da Cachoeira, onde pessoas de 23 etnias indígenas compõem mais de 75% da população.

Cerca de 46 mil vivem na área urbana e em reservas rurais com trânsito frequente, disse Juliana Radler, consultora do Instituto Socioambiental, um grupo de defesa ambiental e indígena.

São Gabriel da Cachoeira reagiu rapidamente à ameaça da COVID-19. Uma semana após a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarar o novo coronavírus uma pandemia, o trânsito de barcos e aviões foi cortado. As únicas exceções são bens essenciais e soldados.

Mas Radler afirma que alguns moradores de São Gabriel da Cachoeira presos em Manaus voltaram para casa em navios de abastecimento, desembarcando nas proximidades e entrando furtivamente na cidade sob o manto da escuridão. Cerca de outros 150 fizeram a viagem em uma balsa de três andares chamada Lady Luiza.

Membros da tribo indígena Saterê Mawé usando máscaras durante atendimento médico via celular com médico em São Paulo na comunidade Sahu-Apé, no município amazonense de Iranduba
Membros da tribo indígena Saterê Mawé usando máscaras durante atendimento médico via celular com médico em São Paulo na comunidade Sahu-Apé, no município amazonense de Iranduba © AFP 2020 / RICARDO OLIVEIRA

Quando chegaram dias depois, as autoridades tentaram e não conseguiram afastar os viajantes. Não há áreas de quarentena disponíveis e alguns passageiros da balsa podem ter levado o vírus a São Gabriel da Cachoeira, disse Radler.

A Marinha do Brasil autorizou a viagem da balsa e os passageiros estavam desesperados para ir para casa porque “se sentiam expostos e vulneráveis” em Manaus, disse o proprietário de Lady Luiza no Facebook.

Em meados de abril, muitos residentes tinham o que acreditavam ser uma gripe forte. O comitê de COVID-19 da comunidade usou transmissões de rádio, caminhões de som e panfletos para emitir avisos sobre o vírus em idiomas portugueses e indígenas, incluindo Tukano, Nheengatu e Baniwa.

Um dos primeiros casos confirmados de coronavírus foi um professor da etnia Baniwa, que morreu após ser levado para Manaus para tratamento. Para a maioria das pessoas, a COVID-19 causa sintomas moderados como febre, mas pode resultar em morte.

Até esta semana, São Gabriel da Cachoeira tinha 292 infecções confirmadas e reservas indígenas próximas registraram seus primeiros casos.

Todos os seis ventiladores em funcionamento no hospital estavam em uso e os centros de saúde de tribos isoladas estavam com falta de suprimentos, disse Radler.

“Precisamos de um hospital de campanha o mais rápido possível, nos próximos 20 dias”, disse ela. “Se não, será uma catástrofe, uma verdadeira catástrofe.”

Fonte: Sputnik News

Rondônia registra três primeiros casos do novo coronavírus entre indígenas

Por: Site

Diagnósticos positivos foram confirmados nesta segunda-feira (18). Pacientes foram infectados após irem a Porto Velho sacar o auxílio emergencial de R$ 600 e estão em isolamento na Casa de Apoio à Saúde do Índio.

O Conselho Distrital de Saúde Indígena (Condisi) de Rondônia confirmou os três primeiros casos do novo coronavírus entre indígenas nesta segunda-feira (18). Conforme o conselho, eles foram infectados após irem para Porto Velho sacar o auxílio emergencial da Caixa Econômica Federal de R$ 600.

Os três indígenas têm 37, 40 e 50 anos e são do povo Karitiana. Eles chegaram a voltar à aldeia Caracol, que fica a cerca de 90 quilômetros de Porto Velho sentido Guajará-Mirim, mas uma semana depois sentiram os primeiros sintomas da doença e precisaram retornar à capital.

Os diagnósticos também foram confirmados pelo coordenador do Distrito Sanitário Especial Indígena de Porto Velho, Luiz Tagliani.

Segundo ele, os indígenas passaram por exames, são monitorados e estão isolados em uma área específica da Casa de Apoio à Saúde do Índio (Casai), em Porto Velho.

“A equipe de saúde adentrou na aldeia e detectaram esses casos então suspeitos. Fizeram os exames necessários e confirmaram a positividade dos testes. Eles estão evoluindo bem, já estão com pouca febre. Estamos entrando em contato com a Funai para fazer uma barreira sanitária, evitar a entrada e saúde de indígenas”, complementou.

Conforme Elivar Karitiana, presidente do Conselho Indígena da Casai, equipes de saúde irão intensificar as ações de prevenção na aldeia.

Ao G1, o presidente do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), Dom Roque Paloschi, disse lamentar pelas confirmações da Covid-19 entre indígenas e reforçou que é preciso maior fiscalização por parte das autoridades responsáveis.

“Nós evidentemente lamentamos o ocorrido. Precisa-se de uma política diferenciada para a saúde indígena. Eles não têm os anticorpos que nós temos. O Cimi também acompanha, mas não entramos em área, segundo as orientações das autoridades de saúde”, explicou o arcebispo de Porto Velho.

A Rede Amazônica entrou em contato com a Fundação Nacional do Índio (Funai) e aguarda retorno.

Temor pelo avanço

No mês passado, entidades se disseram preocupadas com a disseminação do novo coronavírus nas aldeias.

Na ocasião, Funai e Ibama afirmaram estarem atuando para combater o avanço do vírus em terras indígenas com medidas como o bloqueio de entradas das aldeias e ações de comando e controle contra ilícitos ambientais nas áreas federais.

Dom Roque Paloschi chegou a dizer que o Cimi orienta que os indígenas cumpram com as recomendações das autoridades de saúde de permanecerem dentro das aldeias para evitar a disseminação da doença. “Mas diante da desassistência, eles são obrigados a chegar nas cidades, e isso é um risco maior”, reforçou o presidente.

O movimento Survival Internacional declarou, no início de abril, que a proteção de terras indígenas em todo o mundo é fundamental para impedir que indígenas morram por causa do novo coronavírus.

Até domingo (17), Rondônia acumula 1.963 casos do novo coronavírus, segundo dados da Secretaria Estadual da Saúde (Sesau) divulgados no início da noite. O estado tem 74 mortes decorrentes da doença.

Fonte: G1

O contraste entre Terras Pretas no Médio Xingu

Por: Site

Projeto “Terra Treta?” conta histórias de vida das comunidades no Médio Xingu

©MiguelPinheiro

Em meio ao recorde de queimadas que aconteceram na região amazônica em 2019, o documentarista e fotógrafo português, Miguel Pinheiro, desenvolveu um projeto chamado “Terra Preta?”, para contar histórias sobre os povos tradicionais que vivem na região do Médio-Xingu, no Pará, coração da Amazônia brasileira.

A escolha do nome contrasta entre duas terras pretas: uma catástrofe e um ritual antigo. “Foi muito marcante pra mim assistir a floresta arder em 2019. O cenário se pintava de preto sob o pincel das chamas e uma sensação de perda me inundou por dentro. Semanas depois visitei algumas aldeias indígenas, foi então que pela primeira vez toquei a terra preta de índio”, explica Miguel.

A Terra Preta de Índio (TPI), são manchas de solo escuro encontradas na Bacia Amazônica, cujo os nutrientes como cálcio, magnésio, zinco, manganês, fósforo e carbono, aumentam exponencialmente a fertilidade do solo.

O primeiro vídeo do projeto conta a história de Juma Xipaya, a primeira mulher cacique do Médio-Xingu. Juma se tornou sinônimo de luta e resistência, atualmente saiu da sua aldeia para enfrentar novos desafios: a Universidade de Medicina.

Miguel Pinheiro é um premiado criativo português. Formado em Neurociência em Portugal, e mestre em Teatro / Comunicação pela St. Mary’s University, Londres – UK. Suas histórias foram publicadas por PUBLICO (Portugal), O GLOBO (Brasil), JN (Portugal), CIFOR (Indonésia). Trabalhos recentes incluem uma colaboração com o artista chinês Wei Wei para seu próximo longa-metragem.

Confira a entrevista concedida ao site Amazônia.org

Como surgiu a iniciativa de desenvolver o projeto “Terra Preta?”

Há vários anos tenho registrado as rotinas e as percepções do mundo a partir da perspectiva dos povos tradicionais. Aqui no Brasil, tenho encontrado as mais sofisticadas e surpreendentes visões entre estes povos, que normalmente vivem em lugares bem remotos. Isso me levou a vários quilombos no país e também junto das populações ribeirinhas e indígenas na Amazônia.

Em 2019 após um projeto de documentário para o artista chinês Ai Wei Wei, aproveitei a presença na Amazônia Brasileira para conhecer mais a fundo a região do Médio-Xingu e as várias nações indígenas no entorno. Ao mergulho nas vidas e nos sonhos destes povos, eu dei o nome de “Terra Preta?”.

Porque a escolha do nome “Terra Preta?”?

Foi muito marcante pra mim assistir a floresta arder em 2019. Ao longe era o cheiro da madeira queimada, pontuado por uns flocos de cinza que viajavam quilômetros e quilômetros na paisagem,se acumulavam no topo dos carros e das casas e entravam pela janela do quarto de hotel. De perto era ainda pior. Tinha de prender a respiração para segurar a câmera e filmar no meio de um inferno que transformava o sol numa bola vermelha espreitando entre cortinas de fumo espesso. À volta, o cenário se pintava de preto sob o pincel das chamas, e uma sensação de perda me inundou por dentro. Semanas depois visitei algumas aldeias indígenas e percebi a relação umbilical destes povos com a floresta. Foi então que pela primeira vez toquei a “terra preta de índio”, uma mistura particular usada há milhares de anos pelos povos da floresta, e cujas propriedades aumentam exponencialmente a fertilidade dos solos. Estas duas terras pretas, cada uma à sua maneira, norteiam este projeto.

©MiguelPinheiro

Qual momento mais marcante que presenciou durante o período que passou na Amazônia desenvolvendo o projeto?

Quando eu visitei o Brasil pela primeira vez, ainda antes de me mudar para cá, eu fiquei encantado por pisar um país imenso em que a língua portuguesa era cantada com tantos sons diferentes. Na época atravessei o lindo Ceará, e dei um pulo no Rio e em S. Paulo, e que celebração esta mistura de sotaques, me senti num universo paralelo.

Minha experiência mais recente na Amazônia alterou esta perspetiva. De repente eu estava sentado numa aldeia em que todos falavam Kayapó, que pertence à família linguística Jê, e eu era o único que não entendia nada da conversa. Só quando se dirigiam a mim usavam o português, e apenas se realmente estivessem interessados na minha opinião. Ali eu entendi pela primeira vez o mosaico original do Brasil, a quimera de povos que partilhava este território e que a língua portuguesa uniu, e que a língua portuguesa também destruiu. Meu olhar mudou. A deslumbrante língua de Camões e de Machado de Assis, que nos anima a todos desde o berço, tem também uma história de sombras. É uma língua de invasão. E se por vezes conseguiu a proeza de ser uma entre outras línguas, muitas outras silenciou culturas. Por isso eu defendo com este “Terra Preta?”, que “em pleno Antropoceno começa a ser óbvio que a maior de todas as extinções é a do próprio ser humano.” Estamos a aniquilar a nossa diversidade, e pomos em causa a nossa existência.

Você acompanhou uma região que foi afetada pela construção do projeto da usina hidrelétrica Belo Monte. Diante dos relatos e vivência, como acha que a usina afetou os indígenas?

A situação é muito complexa, a próxima história que vou liberar será sobre a Volta Grande do Xingu, tudo o que sei é o que me disseram e o que me mostraram, depois da chegada de Belo Monte, o rio Xingu sofre. Tem menos peixe, menos água, menos floresta em volta, menos caça, menos comida disponível na natureza, cresceram as invasões dentro do território indígena, aumentaram as disputas por terras, e a corrupção permeou de tal maneira o cotidiano que hoje Altamira é dos municípios mais violentos em todo o Brasil. Depois da chegada de Belo Monte, paira no ar uma inexperiente sensação de fim.

©MiguelPinheiro

Diante do cenário atual, considera que as comunidades que visitou estão em situação ainda mais vulneráveis neste cenário de pandemia?

É dever do Brasil perante o mundo proteger a diversidade dos seus povos. São estes povos que permitem que o Brasil seja não só um país de primeiro mundo, como também um dos lugares mais ricos no planeta. É de imensurável importância o convívio dos povos indígenas, quilombolas e ribeirinhos, junto com a sociedade urbana do nosso dia-a-dia. A história nos relata como epidemias de sarampo, varíola, ou gripe dizimaram povos e extinguiram nações na Amazônia. Somos do século XXI. Temos de fazer mais. Temos de fazer melhor. Os invasores têm de ser expulsos de todas as terras indígenas, e às populações nativas se devem assegurar cuidados de saúde e de sustento.

Conheça o projeto: http://www.miguelpinheiro.com/trabalhos/terra-preta/
Leia aqui o artigo publicado

Por: Nicole Matos
Fonte: Amazônia.org.br

Plano de bioeconomia para a Amazônia será de longo prazo, diz Mourão

Por: Site

Em entrevista, vice-presidente afirmou que Estado deve ajudar a região

O vice-presidente Hamilton Mourão é resoluto em sua missão à frente do Conselho Nacional da Amazônia Legal: modernizar a fiscalização, legalizar as atividades econômicas, impulsionar o crescimento sustentável e desenvolver a região sem a exploração predatória – marca de avanços civilizatórios desenfreados em outras regiões do planeta que deixou cicatrizes.

Em entrevista ao programa Brasil em Pauta, da TV Brasil, Mourão, que lidera os esforços do governo federal para dialogar, preservar e apoiar a fiscalização ambiental no território amazônico, afirmou que há uma preocupação genuína com o legado de preservação que será deixado pela geração atual para os brasileiros do futuro. “O tema da sustentabilidade, da preservação do meio ambiente, é um tema do século 21. A nossa geração tem que ter a capacidade de manter os recursos naturais do planeta para que nossos filhos e netos continuem a fazer uso desse bem, que é um bem comum a todos.”

As Forças Armadas, afirma Mourão, são uma importante manifestação do Estado brasileiro em uma área vasta e de ecossistema denso, difícil de ser integralmente coberta por qualquer tipo de serviço. “Um dos grandes problemas da Amazônia é a ausência da presença do Estado. O Estado brasileiro não se faz presente da forma que deveria ser. A única presença estatal que temos lá, praticamente, são as Forças Armadas. Além da missão de garantir as fronteiras, temos apoiado as agências que têm a responsabilidade de fiscalização ambiental na região”, afirmou.

Para Mourão, a região amazônica – que compreende 60% de todo o território do país – necessita de atenção especial, tanto no desenvolvimento econômico quanto em incentivos sociais de conscientização e de regularização de atividades que podem ser consideradas predatórias e danosas ao meio ambiente. Para tanto, agências regulatórias e fiscalizatórias da região precisam ser resgatadas e remodeladas, de maneira a serem independentes do suporte militar que atualmente é fornecido.

“A nossa visão, como gestores do Estado brasileiro, é que as agências ambientais têm que passar por um processo de recuperação da capacidade operacional. Nós [o governo federal] herdamos essas agências com efetivo extremamente reduzido. Os instrumentos de trabalho precisam ser modernizados”, ponderou.

Segundo Mourão, toda polêmica surgida em 2019 sobre a alta do desmatamento e das queimadas na região poderá ser suprimida por resultados positivos crescentes, que se propaguem através de um longo e consistente plano de conservação e modernização da região. “Não podemos prometer algo que não temos condições de cumprir. Nossa visão clara é que no próximo ciclo de acompanhamento e monitoramento precisamos ter índices menores de queimada e desmatamento dos anos anteriores. Há um planejamento estratégico que sinaliza a médio e longo prazo o que deve ser feito na Amazônia”, afirmou.

“A Amazônia já tem uma área humanizada, onde houve o encontro da população com a floresta. Temos que explorar essa região de forma consciente, regenerar áreas que estão devastadas, ao mesmo tempo que aumentamos a produtividade”, argumentou Mourão sobre uma forma racional de coexistência entre os povos que vivem na região amazônica e as atividades comerciais.

Bioeconomia

Questionado sobre o modelo de negócios ideal para a região, Mourão afirmou que acredita que o modelo “bioeconômico” – terminologia usada para definir um mercado que tenha como base os recursos biológicos recicláveis, renováveis e com consumo e exploração conscientes – seja a melhor alternativa. “A Amazônia, por suas características, não é um lugar de produção em escala. É local de produção sustentável, usando a riqueza da biodiversidade existente. Temos que mapear cadeias de valor, melhorar a infraestrutura logística sustentável – o aproveitamento das hidrovias, construção de pequenos portos para escoar produção – e, óbvio, atrair a atenção do investimento privado.”

Mourão afirmou ainda que solicitou recursos “a fundo perdido” a grandes bancos que atuam na região para “a proteção e a preservação da Amazônia”. “As grandes empresas são voltadas para a agenda moderna do empresariado, a ESG (Environmental, Social and Governance, na sigla em inglês). Conversei com grandes bancos que atuam na região e a ideia é que eles adotem linhas de financiamento com juros melhores para atividades voltadas à bioeconomia. E, claro, invistam, na medida do possível, na preservação local”, concluiu.

Regularização fundiária

Para o vice-presidente, há um consenso geral sobre regularizações fundiárias no estado do Amazonas. “É uma opinião unânime em todos os diálogos com lideranças, mas parece que há uma barreira intransponível para avançarmos no processo. Cerca de 500 mil famílias não tem o título da terra que vivem há 30, 40 anos”, argumentou.

Mourão citou famílias que foram realocadas no período de construção da hidrelétrica de Itaipu, localizada no Paraná, entre as décadas de 70 e 80. Essas famílias, que viviam tradicionalmente na região que hoje é a bacia da hidrelétrica paranaense, foram assentadas em regiões que fazem parte da floresta amazônica sem nunca ter recebido o título das propriedades para onde foram transferidas.

“Essas famílias não têm acesso a financiamentos e nem assistência técnica rural. Isso causa uma exploração predatória nas pequenas propriedades. O Estado brasileiro colocou essas pessoas lá e as abandonou”, esclarece o vice-presidente. “Precisamos titular a terra para essas pessoas, dar o registro em cartório e, a partir daí, eles entrarem efetivamente no sistema capitalista”, disse.

Mourão citou ainda que imagens de satélite poderão ser aliadas na regularização das propriedades. As imagens seriam comparadas com a documentação disponível, e que o processo agilizaria 90% dos processos existentes.

Agronegócio

Em relação ao agronegócio, Hamilton Mourão tem uma visão estratégica sobre a influência da atividade econômica que ainda é pequena na Região Norte. Ao tratar do assunto, foi enfático ao dizer que “o agronegócio é um hard power no nosso país”. O conceito remete ao termo sociológico que define um setor econômico ou político que tem o poder de influenciar, ou “puxar”, outros setores da sociedade para a linha de frente do debate e das políticas públicas.

“Não se pode falar de segurança alimentar no mundo, hoje, sem que o Brasil esteja sentado à mesa. Alimentamos mais de 1/7 da população mundial hoje. Isso dá mais de um bilhão de pessoas com comida brasileira na mesa. Óbvio que isso traz concorrência para outros países. Temos tecnologia, espaço vital, tudo em grande escala”. Mourão conclui que certos grupos se aproveitam da dimensão do agronegócio brasileiro para conectá-lo imediatamente ao desmatamento e às práticas predatórias, o que não é, em sua opinião, verdade.

Imagem do Brasil no exterior

“Temos que fazer uso de um sistema de comunicação social eficiente”, afirmou o presidente ao discutir a imagem do Brasil e a defesa da floresta amazônica no exterior. Hamilton Mourão acredita que uma campanha de conscientização com medidas visíveis, baseada na orientação atual do governo, poderá reverter a imagem negativa que foi dada à gestão ambiental da Amazônia em 2019, quando lideranças de outros países criticaram abertamente a política ambiental brasileira.

“Em nenhum momento deixamos de reconhecer que existem problemas ligados ao desmatamento, à queimadas, à exploração ilegal. É responsabilidade do Estado brasileiro não deixar que isso aconteça”, reiterou.

Fundo Amazônia

Autodeclarado defensor do teto de gastos, Mourão afirmou que a medida é a “grande âncora fiscal que temos hoje”, e que não há possibilidade de desrespeito à norma. Portanto, há uma discussão sobre o uso das verbas do chamado Fundo Amazônia – uma iniciativa internacional para financiar programas de preservação da floresta – na esfera federal. Mourão acredita que a verba deve ser usada pelos estados, que podem concretizar projetos benéficos tanto para o bioma quanto para a população que depende dele.

Exploração mineral

Sobre a possibilidade de viabilizar a exploração mineral em terras indígenas de forma legal, Mourão se disse reticente sobre o debate, que ainda não conta com apoio do Congresso Nacional. “A ilegalidade beneficia determinados grupos. Devemos saber ter diálogo com o Congresso para que o povo entenda a importância do assunto.”

“A Amazônia é a última fronteira inexplorada do mundo. Fora a Antártica, temos a Amazônia. Mas a exploração tem que acontecer dentro dos olhares do século 21. Temos que saber utilizar os recursos da Amazônia de uma maneira racional. Há um amplo espectro de produção. E a produção mineral também tem que ser feita de forma sustentável”, argumentou.

Em uma possível legalização de atividades de extração mineral em reservas indígenas – prática que já acontece há muitos anos, mas de maneira ilegal, segundo o vice-presidente -, as comunidades seriam beneficiadas, assim como o Estado, que recolheria divisas e poderia investir na preservação consciente e sustentável das atividades econômicas.

“Uma vez que se conceda uma lavra de determinado minério em uma terra indígena, a operação será feita dentro dos parâmetros da legislação ambiental, de forma organizada. A etnia vai receber royalties, o Estado vai recolher imposto. Teremos uma atividade legal, e não as ilegalidades que prosperam hoje.”

Maior fiscalização

Sobre o monitoramento de irregularidades em todo o vasto território que compreende a floresta amazônica, Mourão afirmou que o satélite que está sendo desenvolvido pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações ajudará nos alertas de ocorrências que podem ser evitadas enquanto acontecem, e não com o atraso de dias, semanas ou mesmo meses, como é o sistema atual. “Não adianta eu saber que tem terras sendo queimadas ou devastadas depois disso já ter acontecido. Teremos um satélite com tecnologia nossa. Teremos um sistema de alerta diário, via radar. É importante ter essa conjugação de esforços, e que esses dados estejam diariamente disponíveis para quem tem a responsabilidade de impedir ilegalidades”, finalizou.

A entrevista do vice-presidente Hamilton Mourão vai ao ar hoje, no programa Brasil em Pauta, às 19h30 na TV Brasil. A entrevista também poderá ser assistida pelo canal da TV BrasilGov no YouTube.

Fonte: Agência Brasil – EBC
Edição: Liliane Farias

Amazônia em Chamas 20: Florestas do Acre podem ser mais afetadas por incêndios, diz Nasa

Por: Site
Índices de queimadas são maiores 23,5% do que o ano de 2016, quando a região foi afetada pelo fenômeno El Niño. A imagem acima mostra área de floresta sendo queimada na BR-364 entre os municípios de Feijó e Tarauacá – (Foto: Sérgio Vale/ Julho de 2020)

O aumento expressivo nas taxas de desmatamento no estado do Acre, as elevadas temperaturas e a previsão de um “verão amazônico” mais seco, fazem dessa porção da Amazônia Ocidental mais vulnerável e a sofrer com incêndios florestais neste ano de 2020. O número de queimadas deste ano na região é 23,5% maior do que o registrado há quatro anos, quando a região estava afetada pelo fenômeno El Niño. De 1º de janeiro a 13 de agosto deste ano, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) registrou 1.497 focos de calor no estado contra 1.212 no mesmo de 2016. No igual período de 2019 foram 1.583 focos de calor, que apontam para uma queda de 5,4% nas queimadas.

A situação de 2020 é ainda preocupante diante dos dados levantados por instituições de pesquisas que apontam elevada concentração de desmate e queimadas nas regiões com a maior concentração de floresta nativa.

Em maio, a agência espacial dos Estados Unidos, a Nasa, divulgou estudo apontando que, entre os estados da Amazônia brasileira, o Acre é o que tem a maior probabilidade de ser atingido por incêndios florestais: 85%. O principal motivo para isso, segundo a Nasa, é o aquecimento das águas do Oceano Atlântico, que tem como principal efeito a redução da umidade na parte mais sul da Amazônia e uma concentração maior ao norte.

O fenômeno é conhecido pela sigla em inglês AMO, cuja tradução para o português é Oscilação Multidecadal do Atlântico. Além do Acre, seus efeitos são sentidos no sul do Amazonas, sudoeste do Pará, Mato Grosso e Rondônia. Os departamentos de Pando, na Bolívia, e Madre de Dios, no Peru, também são atingidos. Entre os três países, o departamento boliviano de Santa Cruz de la Sierra tende a ser o mais afetado por fogo em vegetação: 92%.

Queimada em Rio Branco em agosto de 2020 (Foto: Sérgio Vale)

“A previsão da temporada de incêndios é consistente com o que vimos em 2005 e 2010, quando as temperaturas quentes da superfície do oceano Atlântico geraram uma série de furacões severos e provocaram secas recordes em todo o sul da Amazônia, que culminaram em incêndios florestais generalizados na Amazônia”, disse Doug Morton, chefe do Laboratório de Ciências Biosféricas do Goddard Space Flight, da Nasa, em entrevista publicada no site da agência norte-americana.

“Do ponto de vista das condições meteorológicas a probabilidade é tanto de termos chuvas abaixo da média ou temperaturas acima da média. Então você tem as condições para as ocorrências de algum tipo de incêndio florestal. Temos um cenário propício para isso”, diz Liana O. Anderson, pesquisadora do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden).

“Existe essa relação do aumento da temperatura do oceano Atlântico que acaba deslocando a zona de convergência, que é o grande processo responsável pelas chuvas na Amazônia, um pouquinho mais para o norte. O deslocamento dessa grande massa de chuva que cruza toda região tropical move um pouquinho para o norte, provocando mais chuvas, e a parte sul da Amazônia enfrenta uma seca”, explica ela.

“Com essas condições de seca mais proeminente e tendendo a se agravar nos próximos meses, os riscos de incêndios florestais aumentam bastante”, completa.

O estudo da Nasa levou em consideração para elaborar o risco de incêndio florestal na Amazônia não apenas as condições climáticas causados pelo AMO, como também o histórico recente de desmatamento e registro de focos de queimada dos últimos anos. Em 2019, a maior floresta tropical do mundo concentrou níveis recordes de derrubada e queimadas, tendência que se mantém agora em 2020.

De acordo com o Sistema de Detecção de Desmatamento em Tempo Real (Deter) do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), entre janeiro e julho foram emitidos avisos de desmate para uma área de 4.730 km2 na Amazônia Legal.  Entre 1o. de janeiro e 13 de agosto foram 40.059 focos de queimadas na região.

Alta no desmatamento

Queimada em Rio Branco, capital do Acre (Foto: Sérgio Vale/Agosto de 2020)

Um dos menores estados do Norte do país em extensão territorial, o Acre passava quase despercebido quando da divulgação de dados como estes. As áreas desmatadas no estado sempre foram muito inferiores quando comparadas com Pará, Mato Grosso ou a vizinha Rondônia. De 2019 para cá, porém, o estado vem dando contribuições significativas para o aumento do desmatamento na Amazônia.

Conforme levantamento do Sistema de Alerta de Desmate (SAD), do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), em julho o Acre foi responsável por 12% de todo o desmatamento registrado; Mato Grosso – que sempre lidera com o Pará os índices de devastação – respondeu por 9%.  Em 2019, o Acre desmatou 706,48 km2 de floresta, aponta o Prodes/Inpe; uma diferença bastante expressiva quando comparado com 2018 (461,25 km2) e 2017 (245, 66 km2).

A elevação das taxas de derrubada se dá por conta da mudança de ambiente político nas esferas federal e estadual. O atual governo local tem como principal política para o desenvolvimento econômico o fortalecimento do agronegócio. Em março de 2019, o governador Gladson Cameli (PP) fez um discurso na cidade de Sena Madureira visto como o “liberou-geral” para a destruição da floresta, ao desmoralizar a atuação do Instituto de Meio Ambiente do Acre (Imac).

“Quem for da zona rural, e que o seu Imac estiver multando, alguém me avise porque eu não vou permitir que venham prejudicar quem quer trabalhar. Avise-me e não pague nenhuma multa porque quem está mandando agora sou eu. Não paguem”, disse o governador.

O que chama a atenção no pequeno estado é o deslocamento da pressão humana sobre a floresta. Se antes as derrubadas e o fogo estavam concentrados na porção leste – onde ficam as maiores fazendas de gado – agora eles seguem rumo a uma área ainda muito rica em floresta preservada, chegando até a regiões isoladas e difícil acesso.

Falar em desmatamento ou incêndios em municípios isolados como Jordão ou Marechal Thaumaturgo era quase inconcebível até anos atrás; a realidade agora é outra. O Acre ainda mantém intacto quase 87% de sua cobertura florestal nativa. 

Desde o ano passado os municípios dos Vales do Envira/Tarauacá, Purus e Juruá passam a concentrar grande parte das áreas desmatadas e incendiadas. Em 2020, Feijó lidera o ranking de desmatamento: 45,11 km2. Em julho o município ficou entre os 10 que mais perderam vegetação nativa na Amazônia Legal.

O primeiro lugar no ranking de desmatamento se repete no de queimadas: de janeiro até 13 de agosto foram 339 focos de calor detectados no município, que tem a maior quantidade de terras indígenas no estado.

Feijó e Tarauacá se revezam na primeira posição entre os 22 municípios acreanos que mais queimam este ano, juntos, os dois municípios vizinhos concentram 43% do total de focos detectados até a segunda quinzena de agosto. 

Com um “verão amazônico” mais seco e prolongado – como apontam as projeções da Nasa -, a possibilidade de o fogo feito em roçados, áreas de pastagem ou para a limpeza da área derrubada causarem incêndios florestais são altas; os efeitos são imensuráveis numa região cujo combate ao fogo seria difícil pelas dificuldades de logística. Em 2019 o Acre registrou 1.910 hectares de floresta em pé queimada. Em 2005 foram 350 mil.

Aumento de grilagem

Ampliação de área de pasto na BR 364 no Acre (Foto: Sérgio Vale/julho 2020)cc

Segundo a pesquisadora e coordenadora do Laboratório de Geoprocessamento Aplicado ao Meio Ambiente (LabGama), da Universidade Federal do Acre (Ufac), Sonaira Silva, o desmatamento em alta na região mais ao sul da Amazônia ocorre tanto para a prática da invasão de terras públicas quanto para a expansão de áreas agrícolas, sobretudo da pecuária.

“Está tendo muita invasão de terras públicas, grilagem mesmo. Também tem as propriedades privadas que estão expandindo suas áreas de uso, além dos pequenos produtores que ampliam os roçados para sua subsistência, mas o maior volume de desmatamento é em terras públicas. Eu estimo que de 80 a 90% destas áreas desmatadas vão ser destinadas para a pastagem”, diz Sonaira Silva.

No Acre a Floresta Estadual do Antimary é uma das mais impactadas para a prática da grilagem. A unidade passou a ser alvo frequente de operações do Batalhão de Polícia Ambiental para tentar conter o crime. Outra UC impactada pela chegada de invasores é a Reserva Extrativista Chico Mendes. Esta invasão é diferenciada, pois é feita pelos próprios moradores, que passaram a “cortar” suas colocações para a venda de lotes.

Apenas em julho passado, segundo o Inpe, a reserva teve desmatado 10 km2 de sua cobertura florestal, o terceiro maior resultado entre as áreas protegidas da Amazônia. O primeiro lugar pertence à Floresta Nacional do Jamanxim, no Pará: 15 km2. Estas são duas unidades de conservação já bastante pressionadas e impactadas pelas atividades no seu entorno, com destaque para a agropecuária.

Para o consultor-convidado do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) Paulo Barreto, o crescimento das taxas de desmatamento dentro das áreas protegidas é o exemplo de como as terras públicas vêm sendo griladas nos últimos anos. Essa grilagem, aponta ele, ocorre se recorrendo a mecanismos oficiais para dar aparência de legalidade ao que foi feito de forma ilegal. É o caso do Cadastro Ambiental Rural, o CAR.

“Os caras estão usando o CAR. Eles estão grilando e cadastram porque acham que o cadastro é um passo para regularizar, e sabe que não vai ser punido. Até pagam o ITR Eles usam instrumentos públicos para grilar”, afirma Barreto. Segundo ele, uma mudança percebida é o aumento das áreas desmatadas, saindo de poucos hectares para até dois mil hectares, o que mostra o poder de capital de quem o pratica. Na região, em média, a derrubada de um hectare de floresta custa mil reais.

Esta floresta que foi ao chão logo será queimada. As grandes áreas incendiadas são feitas não pelo pequeno, mas pelo médio e grande produtor. No Acre, segundo Sonaira Silva, a maioria das áreas queimadas com mais de 50 hectares foi detectada em terras públicas. “Em boa parte são fazendas que estão se ampliando. Quem consegue queimar tanta área não é o pequeno produtor”, diz a pesquisadora.

Por muitas décadas as queimadas na Amazônia são caracterizadas por ocorrer em áreas agrícolas, para limpeza de roçados ou pastagens. Sem acesso a tecnologias e assistência dos governos, as famílias de pequenos e médios produtores rurais recorrem ao fogo para “renovar o solo” para a próxima safra. Desde 2019, pesquisadores apontam uma mudança neste comportamento, com as queimadas em áreas recém desmatadas crescendo.

O que diz o governo do Acre

Monumento de Chico Mendes em Rio Branco (Foto: Sérgio vale/agosto de 2020)

A reportagem consultou a Secretaria de Estado de Meio Ambiente para saber quais providências vêm adotando para mitigar os efeitos de um “verão amazônico” mais severo. De acordo com a pasta, desde o início de junho os seus técnicos se reúnem com especialistas de todo o país para tratar das previsões climáticas para a região e seus impactos.

“As chuvas encontram-se abaixo da média durante a transição entre a estação chuvosa e seca em todo o estado do Acre, e isso representa a possibilidade de uma seca severa no estado, nos moldes das que ocorreram em 2005 e 2010 e que afetaram sobremaneira o estado do Acre”, nota da Sema assinada pela secretária-executiva Vera Reis Brown,

Questionada sobre quais medidas adota para evitar os incêndios em áreas de floresta, a Sema informou que “o governo não está esperando que o fogo pegue na floresta para agir”.

“Iniciamos a implementação de um plano operacional estratégico nas áreas de maior criticidade no estado, ou seja nas florestas públicas, através de missões integradas de comando e controle com a Secretaria de Estado de Meio Ambiente – Sema, Polícia Militar, através do Batalhão de Policiamento Ambiental (BPA) e Instituto de Meio Ambiente do Acre (Imac).”

Esta ação mais repressiva seria voltada para combater os crimes de invasão de terras públicas (grilagem) nas unidades de conservação estaduais. Do ponto de vista de médio e longo prazos a Sema informa que trabalha com o Cadastro Ambiental Rural (CAR) e o Programa de Regularização Ambiental (PRA) para a regularização dos passivos, “trazendo os produtores para a legalidade, com o desenvolvimento de estratégias de integração institucional”.

“Sabe-se que o Acre tem tido um posicionamento proativo dos órgãos competentes e responsáveis sobre o caráter irregular das atividades de desmatamento. No entanto um alinhamento das atividades de monitoramento e fiscalização, com o suporte dos órgãos de inteligência tem sido de fundamental importância, pois a situação atual se configura de forma diferente, quando há o envolvimento de outros ilícitos como as invasões de terras públicas.”

Fumaça causada pelas queimadas em Rio Branco (Foto: Sérgio Vale/Julho 2020)

A agência Amazônia Real está realizando a cobertura Amazônia em Chamas 2020 para publicar reportagens exclusivas sobre a devastação da floresta. Neste período em que o mundo enfrenta a pior crise sanitária da atualidade, a pandemia do novo coronavírus, os responsáveis pelos desmatamentos e queimadas não dão trégua. A fumaça dos incêndios deixa em vulnerabilidade a biodiversidade e compromete a saúde das populações tradicionais e urbanas da região amazônica.

Rodovia em Rio Branco, capital do Acre (Foto: Sérgio Vale/Agosto de 2020)

Por: Fabio Pontes
Fonte: Amazônia Real

Artesãos da Ilha do Marajó, no Pará, perdem renda e relatam desamparo na pandemia

Por: Site

Crise econômica e sanitária tornou ainda mais difícil a vida dos artesãos, que denunciam abandono e pedem valorização

O artesão Advaldo Bonfin na sua olaria, localizada no distrito de Icoaraci. Para incrementar a renda, passou a vender diversos tipos de plantas – Catarina Barbosa/Brasil de Fato

Você provavelmente já viu ou ouvir falar da cerâmica marajoara. A habilidade para moldar vasos, pratos, panelas ou em itens de decoração, é uma herança dos indígenas que viviam no arquipélago do Marajó.

Os artesãos que vivem desse trabalho, no distrito de Icoaraci, no estado do Pará, têm enfrentado dificuldades para comercializar seus produtos durante a pandemia da covid-19.

Advaldo Santos Bonfin, de 60 anos, trabalha há 40 anos com arte e diz que os meses de março, abril e maio foram os mais críticos, com redução de até 80% das vendas.

Cestos, vasos e itens de decoração com motivos marajoaras produzidos no espaço do seu Advaldo Bonfin. Ao fundo, as plantas que ele comercializa para incrementar a sua renda. / Catarina Barbosa/Brasil de Fato

Ele trabalha no bairro do Paracuri, onde ficam também outras olarias semelhantes a sua, umas mais rústicas, outras menos. No bairro, falta saneamento, o asfalto precisa de reparos, mas Advaldo, diz que o que ele realmente espera das autoridades é o reconhecimento e a valorização dos seus saberes. 

O governo do Pará criou, durante a pandemia, o Fundo Esperança, um crédito com o objetivo de amenizar os impactos econômicos provocados pela covid-19. Seu Advaldo procurou o benefício porque estava com o seu espaço comercial fechado, mas disse que ficou decepcionado com o que lhe foi ofertado. 

“Foi aprovado, mas acontece que só queriam liberar R$ 700 e esse valor não dava nem para manter o pessoal trabalhando.”

Advaldo Bonfin, 60, na sua olaria, em Icoaraci, no Pará. – Créditos: Catarina Barbosa/Brasil de Fato

O artesão tem cinco funcionários que trabalham na parte de cerâmica e quatro membros da sua família, que atendem no espaço como um todo.

A vida para montar o pequeno comércio foi suada. Quando começou, há 40 anos, ele revezava a rotina de trabalho entre o serviço de vigilante à noite e a produção das peças marajoaras durante o dia.

Com o passar dos anos, ele percebeu que, mesmo sendo valorizado por determinas pessoas, o artesanato marajoara recebe poucos incentivos por parte do poder público. Foi quando ele decidiu incrementar o negócio e passou a vender também plantas, terra, adubo e seixo.

Apesar de todas as dificuldades, ele diz que não pensa em fazer outra coisa e retomou as atividades, tomando todas as medidas de segurança. “Espero que as coisas melhorem”, diz.

Dificuldades

Assim como seu Advaldo, a artesã Divani Ramos, de 47 anos, trabalha há 20 com artesanato marajoara. Ela também afirma que o descaso com os artesãos não é de hoje e que além de ter tido problemas financeiros, ela e o marido contraíram a covid-19. 

Aqui, muitos dependem do turismo, eu dependo do turismo. 

“Foi muito difícil, porque as contas de água e luz continuam chegando. As dívidas que tínhamos só aumentaram e veio a queda do movimento. Aqui, muitos dependem do turismo, eu dependo do turismo. Então, o artesanato é visto como algo supérfluo, só para decoração. Eu, como cidadã, não tive direito ao auxílio emergencial, só o meu marido”, diz ela. 

Divani também relata que o Fundo Esperança não foi alternativa, devido ao baixo valor, que não compensava para ela e o esposo. Ela avalia que a situação de ambos só não foi pior, porque eles não têm filhos pequenos e a internet, apesar de falhar muitas vezes, foi uma grande alidada.

“Nós não dependemos 100% do turismo, porque temos clientela fixa, então, diminuiu muito, mas continuamos vendendo, via Whatsapp e assim conseguimos fazer delivery“, conta ela. 

Divani Ramos pintando uma caneca marajoara. Ela afirma que o poder público só aparece no local em época de eleições / Catarina Barbosa/Brasil de Fato

A valorização oportuna 

Segundo a artesã, os representantes do poder público só aparecem no local em época de eleições, seja estadual ou municipal. 

“A minha briga com esses políticos que vêm aqui é por uma visão melhor para nossa arte. Nós somos uma das artes mais bonitas do mundo. Nós somos riqueza no Pará e nossos governantes ainda não perceberam o valor que nós temos”, questiona.

Nós trazemos dinheiro, verba para o estado, direta e indiretamente. Custava o nosso governador, nosso prefeito ter um olhar mais carinhoso, nós dar apoio? 

Divani considera ainda que o governo além de não valorizar os profissionais, esquece que eles podem ser aliados no incremento do turismo. 

“Nós trazemos dinheiro, verba para o estado, direta e indiretamente. Custava o nosso governador, nosso prefeito ter um olhar mais carinhoso, nós dar apoio? Nós não temos direito à aposentadoria como artesão. Nós deveríamos ter um ‘defeso-artesão’, porque no inverno cai muito a nossa produção, afinal, não temos sol suficiente para secar a louça. A minha briga maior e revolta é que eles não têm um olhar para os artesãos de Icoaraci”, diz ela. 

Futuro em risco

Silvia Vanessa Leal, 33, tem um ponto fixo na Feira de Artesanato do Paracuri, na orla de Icoaraci. O espaço é mantido por uma associação de artesãos. Ela também aponta a falta de investimentos do poder público como algo que, não só deprecia o trabalho minucioso de todos que vivem da arte, mas também coloca em risco a continuidade do trabalho ancestral.

Para Silvia, o maior medo é ver a arte com a qual seus pais trabalham desde que ela era criança desaparecer por falta de investimentos: “Espero que não aconteça.”

A Secretaria Municipal de Economia do município disse, em nota, que “tem incentivado os artesãos de Icoaraci, através de espaços de comercialização dos produtos, como na feirinha que ocorre aos domingos na praça da República e também na feira Ver-a-Arte, promovida no Mercado Francisco Bolonha”.

Eles disseram ainda que “outros pontos de comercialização dos produtos dos artesãos de Icoaraci estão sendo estudados pela Secon, aguardando apenas a normalidade pós-pandemia”

Por: Catarina Barbosa
Fonte: Brasil de Fato

Tereza Cristina: agronegócio não deixou PIB cair durante pandemia

Por: Site

Ministra da Agricultura contrastou desempenho do agro com demais setores da economia brasileira, golpeados pela covid-19. Entre fatores para safra recorde de grãos, estariam investimento em pesquisa e boas chuvas.

Ministra brasileira da Agricultura, Tereza Cristina, fala ao microfone
Ministra Tereza Cristina: “Alguns setores do agro brasileiro até aumentaram emprego neste período difícil da pandemia”

O agronegócio brasileiro foi essencial para segurar a atividade econômica durante a pandemia do novo coronavírus, graças a uma safra recorde de grãos e aumento das exportações, afirmou a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, nesta sexta-feira (14/08). Em entrevista ao programa A Voz do Brasil, ela destacou o recorde de 2020 e o Plano Safra como elementos que fizeram o setor crescer nos últimos meses, enquanto o restante da economia sofria.

“O agronegócio foi o motor da economia e conseguiu não deixar nosso PIB [Produto Interno Bruto] cair. Foi gerador de riquezas para o mercado interno, para as exportações e para o emprego. O agro brasileiro não deixou de empregar. Alguns setores até aumentaram o emprego durante este período difícil da pandemia”, ressaltou a ministra.

A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estimou em 253 milhões de toneladas a safra de grãos 2019/2020. Tereza Cristina atribuiu o recorde ao investimento em pesquisa e desenvolvimento, e à boa chuva na maior parte dos estados no início do ano. A articulação com o Ministério da Infraestrutura, no início da pandemia, também teria sido essencial para impedir problemas de logística e evitar desabastecimentos.

“Nós precisávamos organizar o abastecimento do nosso mercado interno e também não descumprir os contratos internacionais. O ministro Tarcísio [de Freitas], da Infraestrutura, foi fundamental, porque a colheita não pode esperar. O produto precisa ser colhido naquele momento e tivemos um problema de logística e de cuidado com as pessoas nessa pandemia. Montamos um grupo, fizemos um planejamento e, até agora, tudo tem dado certo.”

Tereza Cristina ressaltou que as exportações do agronegócio cresceram 10% no primeiro semestre em relação aos seis primeiros meses de 2019, totalizando US$ 61 bilhões. “O Brasil é o celeiro do mundo. Alimentamos nossos 212 milhões de habitantes e exportamos para alimentar mais de 1 bilhão de pessoas no mundo.”

Para a ministra, filiada ao partido Democratas, a abertura de novos mercados foi imprescindível para manter o crescimento das vendas externas e diversificar a pauta, reduzindo a dependência da soja e das carnes. Segundo ela, o Brasil passou a exportar alimentos para 51 novos mercados apenas em 2020, como resultado de negociações com parceiros comerciais. Desde 2019, 89 novos mercados foram abertos para o agronegócio brasileiro.

Entre os produtos que passaram a ser exportados, estão queijo, iogurte e leite em pó para a China, castanha de baru e chá-mate para a Coreia do Sul, peixes para a Argentina, castanha para a Arábia Saudita e gergelim para a Índia.

Outro fator que deve impulsionar as exportações brasileiras é o reconhecimento dos estados do Acre, Paraná, Rio Grande do Sul e Rondônia, e de regiões do Amazonas e do Mato Grosso como áreas livres de febre aftosa sem vacinação. A política conservadora-liberal explicou que em maio de 2021 a Organização Mundial de Saúde Animal (OIE, na sigla em francês) deverá ratificar a decisão do Ministério da Agricultura, liberando a carne bovina desses estados para exportações sem vacinação, valorizando o produto brasileiro no mercado internacional.

Em relação à safra de 2020/2021, que começa a ser plantada neste semestre, Tereza Cristina ressaltou que o Plano Safra do ano corrente destina R$ 236 bilhões em crédito subsidiado aos produtores rurais, e privilegia os pequenos e médios produtores, que tradicionalmente têm mais dificuldade de acesso ao crédito, assim como projetos de sustentabilidade e de tecnologia da informação no campo.

Fonte: Deutsche Welle

Começa emissão do Certificado de Cadastro de Imóvel Rural

Por: Site

Começa hoje (17), às 16h, a emissão do Certificado de Cadastro de Imóvel Rural (CCIR) de 2020. É por meio desse documento que se comprova a regularidade do imóvel rural no Sistema Nacional de Cadastro Rural (SNCR), base de dados do governo federal, gerenciada pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra).

Para que o documento seja válido, é necessário que a Taxa de Serviços Cadastrais esteja quitada, o que pode ser feito na rede de atendimento do Banco do Brasil até o dia 15 de setembro. De acordo com o Incra, o valor é diferenciado conforme o tamanho da área. Caso a quitação não ocorra até a data limite, haverá cobrança de multa e juros.

A solicitação do documento pode ser feita por meio de computadores, smartphones, tablets, salas da Cidadania e unidades municipais de Cadastramento. A impressão do certificado é inviabilizada se as informações fornecidas divergirem daquelas constantes no SNCR.

“O interessado deve retificá-las por meio da Declaração para Cadastro Rural (DCR) e, com isso, o próprio sistema gera novo certificado com a Guia de Recolhimento da União (GRU) e valores atualizados”, informa o Incra em nota.

É com base nas informações dos cerca de 6,54 milhões de imóveis rurais espalhados pelo país, o que abrange, além da titularidade e localização, dados sobre o uso do imóvel, que as autoridades ampliam os conhecimentos sobre a malha fundiária brasileira, de forma a melhor gerenciá-la.

“Sem a apresentação do documento em cartório, não há como legalizar transferências, arrendar, hipotecar, desmembrar, remembrar ou realizar a partilha de qualquer imóvel rural”, explica o diretor de Governança Fundiária do Incra, Humberto Maciel.

A emissão eletrônica do CCIR poderá ser feita pela internet, a partir de banner que será publicado hoje no site do Incra e ainda na Sala da Cidadania Digital. Outra opção é utilizar as plataformas Google Play ou App Store para baixar o aplicativo “SNCR-Mobile” em dispositivos móveis.

De acordo com o Incra, quem não tem acesso à internet contará com o serviço nas salas da Cidadania das superintendências regionais do instituto, unidades avançadas da autarquia ou em uma Unidade Municipal de Cadastramento (UMC), instalada em parceria com prefeituras.

“A emissão do certificado ficará indisponível temporariamente no dia 17 de agosto até as 16h para geração do CCIR 2020. Após esse horário, os titulares de imóveis rurais poderão acessar o sistema para gerar o documento de sua propriedade ou posse”, complementa a nota divulgada pelo Incra.

Fonte: Agência Brasil – EBC
Edição: Graça Adjuto

Amazônia em Chamas 20: Queimadas consomem árvores e animais no sul do Amazonas

Por: Site

Entre agosto de 2019 e julho de 2020, o estado teve uma taxa de desmatamento de 1.272 km², segundo dados do Inpe

Imagem de queimadas em área de floresta no sul do Amazonas feita em agosto de 2020 (Foto: Bruno Kelly/Amazônia Real)

Pelo terceiro ano consecutivo, o estado do Amazonas bate recordes de queimadas e incêndios florestais. Conforme dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), entre 1º de janeiro e 16 de agosto de 2018, foram detectados 2.662 focos de queimadas no Amazonas; em 2019, foram 6.315 focos (alta de 147%); e em 2020, subiu para 7.098 focos (alta de 7%), neste mesmo período.

A intensidade dos incêndios florestais só é possível observar do alto. Imagens registradas pelo sobrevoo realizado pela agência Amazônia Real, entre os dias 9 e 12 de agosto, mostram as queimadas avançando e árvores como seringueiras e castanheiras, e outras espécies com mais de 40 metros de altura, em chamas.

Cenas desoladas, como de carcaças de animais carbonizados – como cobras, tamanduás e cotias – que tentaram fugir do fogo na floresta também foram registradas pela agência Amazônia Real.

Brigadistas do PrevFogo, grupo vinculado ao Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama), tentam desde julho apagar as queimadas na região de Apuí, o município do sul do Amazonas mais afetado pelo fogo em 2020. Esta região do estado enfrenta a maior pressão de frentes de desmatamentos, grilagem de terra, exploração madeireira e avanço de agronegócio e da pecuária.

A reportagem apurou que o PrevFogo conta com apenas 31 brigadistas para apagar grandes extensões de matas em Apuí e municípios próximos. Todos eles foram contratados temporariamente para a operação. O Ministério do Meio Ambiente não respondeu à reportagem se enviou estrutura do Ibama para o sul do Amazonas para apoiar no combate às queimadas.

As queimadas estão proibidas pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido), conforme Decreto 10.420 publicado no dia 16 de julho de 2020 no Diário Oficial da União. Mas os responsáveis pelas queimadas não dão trégua e não são punidos. Na semana passada, em discurso na 2ª Cúpula Presidencial do Pacto de Letícia, Bolsonaro declarou que “essa história de que a Amazônia arde em fogo é mentira”. (leia a reportagem que abriu a segunda série Amazonas em Chamas 2020).

Desde o dia 8 deste mês, uma equipe de militares do Exército da Operação Brasil Verde 2, coordenado pelo Ministério da Defesa, está no município, mas as queimadas persistem. Procurado, o Ministério da Defesa não respondeu às perguntas sobre quais são as ações que o Exército está realizando no sul do Amazonas.

O discurso corrente adotado por autoridades públicas de que o Amazonas preserva a floresta e combate ao desmatamento, queimadas e infrações ambientais está muito distante da realidade. O mês com mais focos de queimadas em 2020 no estado foi julho, que bateu o recorde histórico de 22 anos, com registros superiores aos de 2005, ano que o estado passou por uma seca de grande magnitude. Foram 2.119 focos no mês passado no Amazonas, contra 1.371 em julho de 2019 – ou 54,5%.

Desde 1998, quando o Inpe iniciou o monitoramento de queimadas no país, o maior número de focos detectados em julho no Amazonas era o de 1.894, registrado há 15 anos.

“O monitoramento mostra que as detecções ultrapassaram o valor de 2005, ano em que foi registrada uma estação de seca significativa no Amazonas. A partir de 15 de julho, os focos foram notáveis. Isso é um dado muito preocupante. Nos últimos anos, não tivemos nada tão intenso quando agora no Amazonas. O final de julho, foi o pior período”, disse o coordenador de monitoramento de queimadas do Inpe, Alberto Setzer, à reportagem.

Um alerta ao sul do estado

Área de desmatamento e queimada e vista no município de Apuí, Amazonas. (Foto: Bruno Kelly/Amazônia Real -11-08-2020)

Um estudo do Instituto de Pesquisas Ambiental da Amazônia (Ipam) publicado em junho deste ano já indicava que as queimadas atingiriam a intensidade mais grave no final daquele mês e em julho. O estudo pedia urgência “em ações firmes e estruturadas pelos governantes e os órgãos públicos para combater o desmatamento e, principalmente, as queimadas”. Diz trecho: “o foco deve ser dado onde há acúmulo de áreas desmatadas e não queimadas entre janeiro de 2019 e abril de 2020”.

O Ipam dizia no estudo que se for considerado que tradicionalmente os meses com maiores índices de desmatamento são maio, junho e julho e mantidas as mesmas taxas de desmatamento na Amazônia registradas entre maio a junho de 2019 (3.930 km2, segundo o Deter), é esperado que essa área desmatada e não queimada dobre até final de julho.

No mesmo estudo, o Ipam alertou que, no Amazonas, os municípios de Apuí, Nova Aripuanã e Boca do Acre concentram muitas áreas passíveis de queima.

Entre agosto de 2019 e julho de 2020, o Amazonas teve uma taxa de desmatamento de 1.272 km², segundo dados do Deter, programa de monitoramento mensal do Inpe, que passa por revisões no final do ano, para ser consolidado pelo Prodes.

“O Amazonas está sendo comido. Está sendo apropriado pela máfia da grilagem. Esta estação [de 2020] de fogo está perdida [no estado]. Muita coisa já foi desmatada. O fogo é uma consequência do desmatamento. É a grilagem que está fazendo isso”, disse Ane Alencar, cientista especialista em incêndios florestais e queimadas do Ipam, em entrevista à Amazônia Real.

Apuí fica localizado à margem da BR-230 (Transamazônica). O município foi criado a partir de um projeto de assentamento – o Juma – que se expandiu para zona urbana. A maior parte de sua população é de migrantes do sul do país. Mesmo com a pressão do desmatamento, o município possui áreas de floresta protegidas que integram o Mosaico do Apuí.

Segundo Ane Alencar, para combater crimes ambientais, é necessário ações que não se limitem a medidas emergenciais e paliativas, como fechar madeireira e multar infratores. Ela diz que é preciso um serviço de inteligência, com o Ibama e a Polícia Federal atuando conjuntamente, como faziam antes, para encontrar e punir os criminosos e impedir os ilícitos.

“Não é o Exército que vai fazer isso. O Exército apoia. Não é fechar madeireira que vai combater. O que vai combater é a inibição da criminalidade. Se a quadrilha não é presa, a grilagem e a impunidade continuam”, salientou Ane Alencar.

A grilagem não é um fenômeno novo na Amazônia e nem no sul do Amazonas. Associada à violência no campo, ameaça a antigos ocupantes e à concentração fundiária, ela faz parte de vários ciclos de expansão econômica na região.

Os grileiros operam de diferentes maneiras para legalizar áreas: registros falsos de títulos em cartórios de extensos domínios, matrículas fraudadas e ampliação de terras a tamanhos exorbitantes e ilegais, etc. Mas segundo especialistas ouvidos pela reportagem, as grilagens aumentaram nos últimos anos e se agravaram em 2019 e 2020 no Amazonas.

Incentivados pelo discurso que incentiva crime ambiental do presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido), os grileiros e os “compradores” encontraram segurança para validar, com novas legislações, as ocupações o patrimônio público. É o caso do Projeto de Lei de regularização fundiária, chamado por opositores de Lei da Grilagem, que tramita no Congresso Nacional e defendido pela bancada ruralista.

Ambientalista e doutor em Ciências Biológicas pelo Inpa, Carlos Rittl afirma que os criminosos ambientais e os que invadem as terras públicas com a expectativa de lucrar com a sua venda irregular encontraram um parceiro ideal em Bolsonaro.

“O presidente Bolsonaro olha para os crimes ambientais e o tempo todo está prometendo legalizá-los. Ele enviou uma medida provisória e projeto de lei que visava a legalização das terras públicas de maneira ilegal em áreas ocupadas até 2018 que eram latifúndios. Não estamos falando de legalização fundiária para reconhecer o direito de agricultor e de comunitários. A intenção do presidente Bolsonaro é permitir que aqueles que invadiram e destruíram terras públicas saem lucrando; que eles se beneficiem desse crime. Isso incentiva a ocupação de mais terras, pois cria a expectativa que, em algum momento, aquilo vai gerar lucro para quem invadir, ou desmatou e quem colocou capim e boi em cima do pasto”, avalia Rittl.

Segundo Rittl, o discurso de campanha de Bolsonaro voltado para o combate da criminalidade só vale, na teoria, para criminalidades que acontecem nas cidades e zonas urbanas. Ele diz que, quando o assunto é floresta e meio ambiente, o criminoso se sente amparado pelo presidente Bolsonaro, nos discursos e nos diversos encontros que ele e seus ministros tiveram.

“Madeireiros ilegais, grileiros, garimpeiros da mineração que envolve muito dinheiro invadiram terras públicas, terras indígenas. O presidente Bolsonaro não faz outra coisa além de prometer que vai resolver isso. Então todo mundo que tem a intenção de cometer um crime se sente incentivado”, alerta.

“O que está acontecendo, de fato, é um investimento. Essa grilagem e essas queimadas são investimentos. Eles sabem que vão ter retorno e esse retorno é assegurado pela agenda anti-ambiental do governo Bolsonaro, do ministro Ricardo Salles, de todo o gabinete”, completa Rittl.

Grilagem aumenta incêndios

Área de desmatamento e queimada e vista às margens da BR-230 em Apuí (AM) (Foto: Bruno Kelly/Amazônia Real/09-08-2020)

À Amazônia Real, o prefeito de Apuí, Antônio Rogue Longo (DEM), também atribuiu ao aumento da grilagem a ocorrência de grandes incêndios no município em 2020. Mas ele já havia dado essa explicação em 2019, durante os incêndios florestais e queimadas daquele ano

“Este ano de 2020 está tendo mais queimadas que nos anos anteriores. Existe uma quadrilha de grilagem de terras da União que faz documentos falsos e vende para empresários de não sei de onde são, acho que de outros estados. E esses que compraram mandaram derrubar grandes matas e estão fazendo grandes queimadas. Eu acredito que a PF está investigando, mas não tenho certeza”, disse o prefeito à Amazônia Real. O prefeito também reclamou da ausência dos órgãos dos governos estadual e federal na região no período que antecede as queimadas. “Eles deveriam estar mais presente já no início do ano. Essa é a grande verdade”, disse Longo.

Segundo Roque Longo, a equipe de brigadistas do PrevFogo que está no município não tem capacidade e nem estrutura para apagar os incêndios que queimam a floresta neste momento.

“Eles podem combater queimadas leves, de pasto. Agora, essa queimada de mata, ninguém chega perto. São muitas derrubadas grandes. De 300 hectares, 500 hectares, de 1.000 hectares. Nem corpo de bombeiros apaga. Para combater isso, apenas as forças federais e estaduais. Mas eles precisam estar aqui o ano todo para evitar as derrubadas. Não deixar para agora”, contou.

Pressão pela BR-319 agrava situação

Queimada em área de mata e vista à beira da BR-319 próximo a Porto Velho (RO) (Foto: Bruno Kelly/Amazônia Real/12-08-2020)

O geógrafo Carlos Durigan, diretor da WSC Brasil, observa que as queimadas no sul do Amazonas se agravaram nos últimos anos, especialmente a partir de 2015. Segundo ele, trata-se de uma situação que vem “há algum tempo vem sendo escamoteada pelos governos”e a pressão do desmatamento já se agrava com a perspectiva de pavimentação da BR-319.

“É um aumento expressivo e bastante preocupante no eixo da 319, onde já tem a pavimentação nos dois extremos. Isso tem a ver com o processo de ocupação intenso que está acontecendo ali e que deve aumentar agora com a proposta de pavimentação da área do meio [da rodovia]. A estrada vai funcionar para abertura mais intensa de áreas, muitas delas ocupadas irregularmente. Isso não apenas em áreas pública sem destinação. Mas em áreas protegidas, territórios indígenas e comunidades não indígenas”, disse.

Conforme Durigan, o avanço expressivo em áreas de terra firme e várzea, demonstra que os ocupantes não estão preocupados com os impactos nos recursos hídricos. Segundo Durigan, durante o período seco, uma vez que essas áreas perdem a vegetação natural, as populações que ocupam acabam potencializando o plantio de pastagem.

“Na parte do sul do estado, perto dos municípios de Humaitá, Apuí, Novo Aripuanã e Borba, a situação é de descontrole completo na ocupação do território. Uma falta de planejamento e de fiscalização que só abre terreno para o malfeito. Há muitos relatos relacionados a ocupação de terras públicas. Vão desde terras públicas ainda não destinadas a terras de unidades de conservação e terras de territórios indígenas”, diz Durigan.

Durigan diz que a perspectiva é que toda a área central da malha rodoviária da BR-319 seja ocupada, iniciando um processo de degradação intenso que vai afetar até uma bacia hidrográfica ainda pouco afetada – o rio Purus -, de onde sai grande parte do pescado que abastece a região metropolitana de Manaus.

“No futuro, a bacia vai ser impactada e pode ter toda essa riqueza aí afetada por essa situação, além das invasões e ocupações irregulares das terras indígenas e unidades de conservação”, diz Durigan.

O que dizem as autoridades

Queimada em área de desmatamento e vista às margens BR-230, em Apuí (AM) (Foto: Bruno Kelly/Amazônia Real/10-08-2020)

Procurado para responder que ações está realizando para combater, o Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam) disse que há uma equipe em Apuí e que, até na quinta-feira (13), foram aplicadas R$ 15.442.600 milhões em multas.

“O Ipaam ressalta que a ação não visa o aumento de multas, mas a diminuição do desmatamento ilegal, redução de queimadas, a fumaça, a fuligem e demais implicações causadas pelo desmate e queima ilegal”, diz nota do Ipaam. O Ipaam não informou os nomes dos infratores e das localizações afirmando que “não pode divulgar enquanto o processo estiver em andamento, uma vez que os infratores têm um prazo para recorrer junto ao órgão”.

Procurada, a Secretaria Estadual de Meio Ambiente do Amazonas (Sema) informou que o governo realiza atualmente no sul do Amazonas a Operação Curuquetê 2 de combate ao desmatamento e queimadas ilegais, desde que foi decretada a emergência ambiental, em 21 de maio. Segundo a assessoria, a operação envolve equipes do Batalhão Ambiental da Polícia Militar, Polícia Civil, do 54º Batalhão de Infantaria de Selva (BIS) de Humaitá, Defesa Civil, do Centro Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais (Prevfogo) do Ibama e de brigadistas municipais.

“Em alinhamento às ações de campo, a Sema coordena, com apoio da Aliança para o Desenvolvimento Sustentável do Sul do Amazonas, reuniões quinzenais com as secretarias municipais de Meio Ambiente e instituições federais, para atualização do panorama por município e definição de melhores estratégias de enfrentamento”, diz nota.

Segundo a assessoria, a Sema está na fase final de aprovação, junto à Secretaria de Estado da Fazenda (Sefaz), para uso dos recursos de repatriação da Operação Lava Jato. Serão inicialmente R$ 56 milhões para implementação do Plano de Prevenção e Controle ao Desmatamento e Queimadas (PPCDQ-AM) – lançado em junho deste ano -, que prevê ações interinstitucionais voltadas para a regularização fundiária e ambiental, fortalecimento da fiscalização, combate às queimadas e incentivo à bioeconomia.

Indagado pela reportagem, o órgão não se manifestou sobre o aumento de queimadas no Amazonas e os motivos.

O Ministério Público Federal no Amazonas enviou nota informando que “acompanha as políticas públicas de enfrentamento a queimadas e desmatamentos no Amazonas” e que “tem cobrado do Estado medidas mais efetivas para implementação do Plano de Prevenção e Controle ao Desmatamento e Queimadas no Amazonas (PPCDQ), especialmente o fortalecimento das equipes locais de brigadistas, considerando a incapacidade operacional de as forças de comando e controle do Estado do Amazonas se fazerem presentes em todos os municípios com alta incidência de queimadas”.

“Nesse momento, o MPF está cobrando a formulação de outro plano específico para ações de comando e controle, já que o PPCDQ é bastante transversal e contempla políticas públicas diversas de enfrentamento ao desmatamento, com resultados esperados de curto, médio e longo prazo. O órgão entende que, diante do contexto de crise, as ações de comando e controle devam ser focalizadas e priorizadas, sem prejuízo do andamento de projetos estruturantes paralelos”, diz nota.

O Ministério da Defesa, o Ministério do Meio Ambiente e a Vice-Presidência da República não responderam às perguntas da Amazônia Real.

Veja o vídeo com imagens do Amazonas e Rondônia:

Por: Elaíze Farias
Fonte: Amazônia Real

Peixes mais consumidos no Amapá estão contaminados pelo mercúrio do garimpo

Por: Site
  • As quatro espécies de peixe mais consumidas por indígenas e ribeirinhos do Amapá são as que contêm maiores concentrações de mercúrio.
  • No pirapucu, pesquisadores detectaram níveis de mercúrio quatro vezes maiores do que o permitido pela Organização Mundial de Saúde.
  • A substância atinge o sistema nervoso central e gera dificuldade de aprendizagem entre as crianças. Nos adultos, os efeitos de longo prazo são tremedeira, dificuldade para caminhar e até demência.

Tucunaré, pirapucu, trairão e mandubé estão entre os peixes mais consumidos pelas comunidades ribeirinhas e indígenas do Amapá. Graças ao garimpo, também estão entre os mais perigosos para a saúde. No pirapucu (Boulengerella cuvieri), foram detectadas quantidades de mercúrio quatro vezes maiores do que o limite estabelecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS). As informações constam em um estudo publicado em julho na Revista Internacional de Pesquisa Ambiental e Saúde Pública.

Os pesquisadores analisaram 428 amostras de peixes capturados entre 2017 e 2018 em cinco rios do Amapá. Os pontos de coleta ficam próximos de potenciais áreas de garimpo, onde o mercúrio é comumente usado para separar o ouro das rochas e da areia. O resultado é que todas as amostras de peixe apresentaram níveis detectáveis de mercúrio. Em 28,7% delas, a quantidade ultrapassava o limite da OMS.

O estudo — uma parceria entre a Fundação Oswaldo Cruz, o WWF-Brasil, o Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Amapá (IEPA) e o Instituto de Pesquisa e Formação Indígena (Iepé) — revela os riscos a que estão submetidas as populações indígenas e ribeirinhas do estado, especialmente as crianças.

Para recolher as amostras de peixe, a equipe viajou por rios como o Oiapoque e o Araguari, que fazem a divisa entre reservas ambientais e áreas de garimpo. Foto: Acervo do Iepé.

“Estudos mostram que se a criança é exposta ao mercúrio ainda na barriga da mãe, ela pode ter prejuízos no coeficiente de inteligência que vão se arrastar por toda a vida. Ela vai ter dificuldade na escola, vai ter menos chances de conseguir um bom emprego e renda. Isso acaba perpetuando o ciclo de desigualdade e de pobreza”, afirma Paulo Basta, médico e pesquisador da Fiocruz. Nos casos mais graves, o bebê pode nascer com malformações.

Nos adultos, Basta explica que a contaminação pode levar a problemas motores, como dificuldade para caminhar e tremores nas mãos, alterações na audição e visão e até demência.

Segundo Décio Yokota, coordenador executivo adjunto do Iepé, indígenas de pelo menos quatro territórios se alimentam dos peixes que vivem na área do estudo: Wajãpi, Uaçá, Juminã e Galibi. Para estas populações, o peixe é a principal fonte de proteína e também o principal vetor de contaminação por mercúrio, devido à sua característica de bioacumulação. “O peixinho come a alga, daí um peixe maior come milhões de peixinhos, que é comido por outro peixe ainda maior. Por isso os peixes mais contaminados são geralmente os topos de cadeia, que neste processo acumulam uma quantidade muito grande de mercúrio”, explica Yokota.

Isso explica por que os peixes carnívoros apresentaram os maiores níveis de contaminação — 77,6% deles tinham mais mercúrio que o permitido pela OMS. “Se você comer esses peixes contaminados todos os dias, a cada nova alimentação você está reforçando a sua dose de contaminação”, destaca Basta.

Entre os peixes onívoros (que se alimentam de carne e plantas) essa proporção cai para 20%, despencando para 2,4% entre os herbívoros, que se alimentam apenas de plantas. Por isso, os pesquisadores aconselham que as pessoas comam no máximo 200 gramas de peixes carnívoros por semana. No caso do mandubé, pirapucu, tucunaré e trairão, o consumo deve ser restrito a uma vez por mês.

Tucunaré coletado durante a pesquisa: peixes carnívoros, no topo da cadeia, são os que acumulam maior concentração de mercúrio. Foto: Acervo do Iepé.

Uma orientação difícil de ser seguida por quem raramente tem acesso a outras fontes de proteína, reconhece Yokota. “O ideal seria eliminar o garimpo. Não podendo fazer isso, a gente precisa pensar em uma modificação da alimentação. Mas não podemos recomendar a pessoas que não têm outra fonte de proteína que não comam peixes. Por isso sugerimos que tentem priorizar os consumo de peixes herbívoros, que tem um grau de contaminação muito menor”.

Segundo estudo de 2014, o garimpo é a principal causa de desmatamento no Escudo das Guianas, uma área de 250 milhões de hectares inclui parte do Amapá e do Pará, além da Guiana Francesa, Suriname, Guiana e parte da Venezuela.  Um problema histórico que vem se agravando nos últimos anos, segundo Marcelo Oliveira, especialista em conservação da WWF Brasil. “O que a gente ouve dos gestores das Unidades de Conservação do Amapá é que a fiscalização não tem sido efetiva, e a sinalização política federal é terrível. Se você analisar a Amazônia como um todo, [o garimpo] só vem aumentando”, afirma.

Para Oliveira, é urgente que se produzam estudos sobre o impacto da contaminação do mercúrio nos povos da Amazônia. “Sabemos que as pessoas estão contaminadas em várias regiões, como nos Yanomami, nos Munduruku… mas quais são os efeitos? Não tem investimento para se trabalhar nos efeitos da contaminação nas populações”, lamenta.

A fim de suprir esta falta de informação, ainda neste ano as mesmas instituições de pesquisa devem realizar estudos para avaliar o impacto do mercúrio sobre a saúde dos indígenas Munduruku, no Pará, e sobre as famílias ribeirinhas do Amapá.

Os pesquisadores recolheram 428 peixes de 18 locais diferentes. Os peixes foram capturados por pescadores locais contratados para o estudo. Foto: Acervo do Iepé.

Por: Fernanda Wenzel
Fonte: Mongabay

Começa hoje prazo para entrega da declaração de propriedade rural

Por: Site

Titulares de terras têm até 30 de setembro para enviar dados

A partir das 8h de hoje (17), os proprietários rurais de todo o país começam a enviar a Declaração do Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural (DITR) de 2020. O prazo de entrega vai até as 23h59min59s de 30 de setembro.

A Receita Federal espera receber 5,9 milhões de declarações este ano, cerca de 104,5 mil a mais que as 5.795.480 enviadas em 2019. A declaração só pode ser preenchida por meio do programa gerador da declaração, que pode ser baixado na página do órgão na internet a partir desta segunda-feira.

Devem apresentar a declaração pessoas físicas e jurídicas proprietárias, titulares do domínio útil ou que detenham qualquer título do imóvel rural. Apenas os contribuintes imunes ou isentos estão dispensados de entregar o documento. O produtor que perdeu ou transferiu a posse ou o direito de propriedade da terra desde 1º de janeiro também está obrigado a apresentar a declaração.

A DITR deve ser preenchida no computador, por meio do programa gerador. O documento pode ser transmitido pela internet ou entregue em pendrive (mídia removível acessível por porta USB) em qualquer unidade da Receita Federal. Quem perder o prazo pagará multa de 1% ao mês sobre o imposto devido, com valor mínimo de R$ 50. O contribuinte que identificar erros nas informações pode enviar uma declaração retificadora, antes de o Fisco iniciar o lançamento de ofício, sem interromper o pagamento do imposto apurado na declaração original.

O Imposto sobre Propriedade Territorial Rural pode ser pago em até quatro parcelas mensais, mas nenhuma quota pode ser inferior a R$ 50. O imposto inferior a R$ 100 deve ser pago à vista até 30 de setembro, último dia de entrega da declaração. O pagamento pode ser feito por meio de Documento de Arrecadação de Receitas Federais (Darf) em qualquer banco ou por transferência eletrônica de instituições financeiras autorizadas pela Receita.

Fonte: Agência Brasil – EBC
Edição: Graça Adjuto

Governo cria comissão que fará plano integrado da Base de Alcântara

Por: Site

Decreto foi publicado no Diário Oficial de hoje

O presidente Jair Bolsonaro editou decreto que cria a Comissão de Desenvolvimento Integrado para o Centro Espacial de Alcântara, no Maranhão. O documento foi publicado na edição desta sexta-feira (13) do Diário Oficial da União (DOU).

O grupo será responsável por elaborar e monitorar a implementação do programa de desenvolvimento integrado do local, com o objetivo de desenvolver a infraestrutura da região além de criar os modelos de negócios que incentivem as atividades espaciais.

No final do ano passado, após tramitação no Congresso Nacional, foi oficializado o Acordo de Salvaguardas Tecnológicas entre os governos brasileiro e dos Estados Unidos (EUA). O acordo tem por meta proteger a tecnologia desenvolvida pelos países contra o uso ou cópia não autorizados. Sem a assinatura do acordo com os EUA, nenhum satélite com tecnologia norte-americana embarcada poderia ser lançado da base de Alcântara, pois não haveria a garantia da proteção da tecnologia patenteada por aquele país.

Mercado espacial

Uma das metas é expandir o setor espacial no Brasil e abrir caminho para o país no mercado internacional. De acordo com o Ministério de Ciência e Tecnologia, esse projeto é importante para a soberania do Brasil e para o desenvolvimento econômico e social. A estimativa da pasta é que o desenvolvimento do Centro Espacial de Alcântara alcançará, em 2040, mais de US$ 40 bilhões por ano com a ocupação de pelo menos 1% do mercado global do setor.

A comissão será presidida pelo ministro da Ciência e Tecnologia, Marcos Pontes, com participação da Agência Espacial Brasileira (AEB) e dos ministérios da Defesa, Infraestrutura, Ciência e Tecnologia, Desenvolvimento Regional, Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República e Advocacia-Geral da União. A Secretaria Especial de Assuntos Estratégicos da Presidência e o Comando da Aeronáutica completam o colegiado.

Fonte: Agência Brasil – EBC
Edição: Lílian Beraldo

Solidariedade partilhada: nas aldeias ou em contexto urbano, indígenas enfrentam muito mais do que o avanço da covid-19 em Rondônia

Por: Site

Cimi Regional Rondônia vem realizando ações de enfretamento à covid-19 juntos aos povos, com cestas básicas, kits de higiene e denúncia das invasões aos territórios

Equipe de monitoramento e fiscalização do território Uru Eu Wau Wau. Foto: Cimi Regional Rondônia
Equipe de monitoramento e fiscalização do território Uru Eu Wau Wau. Foto: Cimi Regional Rondônia

Se de um lado o avanço do novo coronavírus tem deixado as comunidades indígenas em pé de alerta, por outro, as invasões dos territórios tradicionais têm preocupado as lideranças e organizações indígenas e indigenistas em Rondônia. Com um largo histórico de invasões nos territórios por posseiros, grileiros, pescadores, garimpeiros e madeireiros, a pandemia torna essa ameaça à vida ainda mais grave, pois estes invasores se tornaram também agentes disseminadores da covid-19 entre os povos.

Não raro, os indígenas presenciam os invasores circulando em torno e dentro dos territórios, como tem sido com os Karipuna e Uru-Eu-Wau-Wau. “As próprias lideranças fazem o monitoramento e fiscalização, pois o governo se nega a proteger os territórios e, assim, os indígenas ficam à mercê dos invasores”, relata Cyntia Regina Marques da Silva, coordenadora do Conselho Indigenista Missionário – Cimi Regional Rondônia.

“O governo se nega a proteger os territórios e, assim, os indígenas ficam à mercê dos invasores”

Registro da barreira sanitária na Aldeia Lage Novo, organizada pelos indígenas para barrar a entrada do vírus. Foto: Cimi Regional Rondônia

A falta de fiscalização por parte do Estado agrava a situação de invasões e práticas predatórias nos territórios indígenas em Rondônia. Em abril, o professor e liderança indígena Ari Uru-Eu-Wau-Wau foi assassinado. Ele fazia parte de uma equipe constituída pelo próprio povo para fazer a vigilância de suas terras. No início deste mês, o Cimi Regional Rondônia publicou uma manifestação sobre a situação preocupante dos indígenas no estado, em especial os que se encontram em isolamento voluntário.

Os povos indígenas em contexto urbano, além de terem sido expulsos de seus territórios tradicionais, enfrentam o descaso e a falta de assistência à saúde. “Nós não estamos tendo atendimento básico no que se trata da covid-19. Muitos dos nossos parentes já foram a óbito e nós nem sequer aparecemos na lista de registro dos casos de indígenas de covid-19”, denuncia Rosa Maria Guarasugwe, que mora na capital, Porto Velho.

A negligência do governo federal tem levado à morte muitos indígenas por falta de recursos e materiais apropriados para o combate do novo coronavírus, tanto em contexto urbano como nas aldeias.

“Nós não estamos tendo atendimento básico no que se trata da covid-19. Nem sequer aparecemos na lista de registro dos casos de indígenas de covid-19”

As máscaras que compõe o kit de higiene foram confeccionaras pelas mulheres nas aldeias com tecidos doados. Foto: Cimi Regional Rondônia

A liderança Guarasugwe quer saber por que o Estado brasileiro se nega a dar atendimento a esses povos indígenas que estão fora do seu território tradicional. “Se nós estamos fora do nosso território tradicional, não é culpa dos indígenas. A maioria desses indígenas tem território sim, mas se encontra na mão de invasores”, lamenta a liderança.

De Guajará Mirim, o segundo maior município de Rondônia, Eva Canoé conta que, para os povos indígenas, os óbitos inseridos no cálculo da estatística da covid-19 não são simplesmente números. “São vidas humanas. Vidas que estão sendo ceifadas pelo descaso, pela falta de estrutura, por falta de políticas públicas que realmente atendam à demanda da população indígena”. A liderança do povo Canoé, crítica como tem sido em todas suas intervenções, faz um lembrete: “esse mísero atendimento à saúde indígena não é nenhum favor. É um direito”.

“São vidas humanas. Vidas que estão sendo ceifadas pelo descaso, pela falta de estrutura, por falta de políticas públicas”

Registro da entrega das cestas básicas e kits de higiene ao Povo Uru-Eu-Wau-Wau. Foto: Cimi Regional Rondônia

Direito este que tem sido historicamente negado aos povos indígenas em todo país. Para Rosa Maria, há uma diferenciação para o Estado brasileiro de quem é mais índio e quem é menos índio. “Estamos cansados, foram muitas mortes, muitas vidas que os indígenas perderam e nós não temos nenhuma política de básica para esse atendimento, quando se trata desses indígenas que vivem em contexto urbano. A esperança vai se acabando, junto com nossas histórias que estão sendo enterradas”.

Essa tem sido uma dupla morte, os povos sofrem com a morte de seus parentes pelo vírus e sofrem mais ainda, porque com eles está se indo o legado e a cultura de seus antepassados, lamenta Vera Lucia Gabriel, do Cimi Rondônia. “Resta a luta contra os invasores e o avanço da covid-19, na esperança de que dias melhores virão e que o governo possa garantir aos povos indígenas seus direitos descritos na Constituição de 1988, estejam eles em seus territórios ou em contexto urbano”, esclarece Vera.

“Estamos cansados, foram muitas mortes. A esperança vai se acabando, junto com nossas histórias que estão sendo enterradas”

As ações organizadas pelos Cimi Rondônia buscam amenizar os impactos da pandemia junto aos povos. No registro a entrega de cestas básicas em Guajara-Mirim. Foto: Cimi Regional Rondônia

Ações de enfretamento à covid-19

Com o apoio de organizações, entidades e colaboradores, o Cimi Regional Rondônia tem organizado uma série de ações de enfretamento à covid-19 juntos às comunidades indígenas que vivem nas aldeias e em contexto urbano. Foram entregues cestas básicas completas com frutas, legumes e verduras, kits de higiene e máscaras de proteção pessoal.

A partilha tem sido possível pela solidariedade de organizações como a Arquidiocese de Porto Velho, Dioceses, Caritas, Instituto Madeira Vivo, CLAR, Greenpeace, Enterculturas, Misereor, Rede Eclesial Pan-Amazônica (Repam) e Associação das Guerreiras Indígenas de Rondônia (AGIR).

“Resta a luta contra os invasores, o avanço da covid-19 e para que Governo garanta aos povos indígenas seus direitos constitucionais”

Registro da entrega das cestas básicas e kits de higiene na aldeia Ribeirão, do Povo Oro Wari. Foto: Cimi Regional Rondônia

As ações organizadas pelo Regional buscam também fortalecer as práticas realizadas pelos indígenas, como as barreiras sanitárias, instaladas na entrada dos territórios para conter o avanço do vírus nas aldeias.

Na Terra Indígena (TI) Igarapé Lage, ainda em março, todas as visitas de não-indígenas foram suspensas nas aldeias devido ao avanço e interiorização do novo coronavírus. “Para nossa prevenção, nós construímos um portão na entrada da aldeia”, conta Arão Oro Waram Xijein, liderança da aldeia Lage Novo. Já na TI Pacaas Novos, a faixa alerta os desavisados: “Proibido a entrada de pessoas que não sejam moradores”. “Queremos impedir a entrada de não-indígenas e pescadores, para preservar nossas vidas”, afirma Milton Oro Nao, liderança da aldeia Capoeirinha.

“Queremos impedir a entrada de não-indígenas e pescadores, para preservar nossas vidas”

Registro da entrega das cestas básicas e kits de higiene ao Povo Cassupa. Foto: Cimi Regional Rondônia

Outra frente de atuação tem sido a comunicação, intensificada com o isolamento e aplicativos de trocas de mensagens. As lideranças gravaram vídeos alertando sobre a covid-19 e orientando como se proteger da doença. Eles têm sido uma ferramenta fundamental na disseminação das informações nas aldeias e no contexto urbano, conta Cyntia. Ela ainda completa: “com o isolamento, a prevenção e o uso tradicional dos remédios foram intensificados pelos próprios indígenas, resgatando suas práticas tradicionais de prevenção e cura”.

Campanhas de doações

Em todo país, o Cimi tem organizado ações de enfrentamento à covid-19 com o apoio de organizações parceiras, simpatizantes da causa e agências de cooperação nacionais e internacionais. A entidade busca fortalecer as medidas adotadas pelas próprias comunidades, respeitando sua autonomia e organicidade de cada uma delas.

“Temos três desafios: pandemia, conjuntura política do atual governo e as invasões em terras indígenas”

Os pedidos de apoio e solidariedade têm vindo de todas as regiões do país. José Luis Cassupá, que vive em Vilhena (RO), aponta três grandes desafios dos povos indígenas, no enfrentamento dos quais contam com o apoio e solidariedade de organizações como o Cimi. “O primeiro é a pandemia que afeta os povos indígenas em todo o Brasil. O segundo é essa conjuntura política do atual governo e o descaso com os povos indígenas e nosso direito constitucional. E o terceiro são as invasões em terras indígenas, seguidas do garimpo ilegal, roubo de madeira, desmatamento e loteamento ilegal dessas terras”.

Por: ADI SPEZIA
Fonte: Cimi

Problema de oxigênio no Amazonas está equacionado, diz Pazuello

Por: Site

Ministro e governador falaram sobre plano de enfrentamento à covid-19

O ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, declarou em entrevista coletiva hoje (18) que o problema de abastecimento no estado do Amazonas está “equalizado”. Ele e o governador do estado, Wilson Lima, falaram sobre o plano de ações para enfrentar o colapso no sistema de saúde local, especialmente na capital Manaus.

O plano foi elaborado em resposta a uma determinação do ministro do Supremo Tribunal Federal Ricardo Lewandovski na sexta-feira (15). A partir de um pedido do PC do B e do PT, o magistrado estabeleceu que o governo federal teria até 48h para apresentar o plano e fornecer oxigênio e insumos ao estado.

Pazuello informou que o plano foi submetido ao STF ontem (17) e que será disponibilizado na página do Ministério da Saúde. Apesar de afirmar que o abastecimento de oxigênio estaria normalizado, o titular do Ministério admitiu a situação grave do estado. “Toda a logística está impactada, não é só oxigênio. Equipes de saúde estão no seu limite. Hospitais estão no seu limite. Médicos estão no seu limite”, destacou.

O governador do Amazonas reforçou que o abastecimento de oxigênio foi “equilibrado”, mas acrescentou que o cenário pode piorar. Isso porque o mês de fevereiro é tradicionalmente quando há mais casos de síndromes gripais graves, tendo um clima e ambiente propícios para a disseminação de vírus gripais.

“Temos preocupação para o mês de fevereiro. Ele historicamente é onde há maior quantidade de casos de SRAG [Síndrome Respiratória Aguda Grave]. Estamos nos preparando para a situação. Estamos trabalhando para ampliação de leitos. Uma enfermaria foi montada no estacionamento do hospital Delphina Aziz. Ainda temos fila significativa de pessoas que esperam atendimento”, contou Lima.

Crise

Tanto Lima quanto Pazuello buscaram explicar como a situação saiu do controle e as ações adotadas. Segundo o governador, no auge do primeiro pico da pandemia, entre abril e maio, o consumo de oxigênio chegou ao máximo de 30 mil metros cúbicos (m3). Já neste novo pico, entre dezembro e janeiro, o consumo médio saiu de 15 mil m³ para 75 mil m³.

Lima colocou que houve ampliação dos leitos na cidade, com 700 unidades criadas nos últimos dois meses. Agora, para além de Manaus está havendo uma preocupação com o interior, onde o sistema de saúde é menos estruturado.

O ministro da Saúde disse que a equipe da pasta tomou conhecimento do desabastecimento no dia 8 de janeiro. Ele negou a informação publicada na imprensa de que um ofício da Advocacia-Geral da União (AGU) ao STF revelaria que o órgão já tinha ciência da situação antes.

“Quando chegamos [a Manaus] no dia 4 [de janeiro] o problema era estrutura de leito. Não havia a menor indicação de falta de oxigênio. A quantidade de oxigênio que a White Martins fabrica por dias é de 28 mil m³ e o consumo era de 17 mil m³. A White Martins tinha flexibilidade de trazer quase o dobro. A elevação foi muito rápida. Tomamos conhecimento de que a White Martins chegou no limite quando ela nos informou”, comentou.

Pazuello elencou as medidas adotadas pelo governo. Até o momento foram removidos 90 pacientes para hospitais federais. Foram levadas “toneladas de equipamentos e insumos” ao estado e transportados “centenas de cilindros” em aviões cargueiros civis e militares. Um navio cargueiro da Marinha está em deslocamento para Manaus com 40 mil m³ de oxigênio.

Ele destacou os leitos habilitados (quando o ministério passa a custear parte das despesas), mas não detalhou o número. Um hospital de campanha militar foi deslocado para Manaus. Sobre o apoio com pessoal, o titular do Ministério da Saúde relatou ter selecionado e capacitado oito mil profissionais de saúde, tendo 300 já sido contratados.

O governo brasileiro está em diálogo com o governo dos Estados Unidos para conseguir o apoio de um avião que auxilie no transporte dos cilindros. Mas, conforme o ministro, ainda não há data para que a aeronave comece a operar.

Outras cidades

Pazuello alertou que a crise em curso no Amazonas pode se replicar em outras cidades e estados. Ele destacou o período chuvoso no Norte e em parte do Nordeste neste início do ano como propício para a disseminação do vírus, enquanto no restante do país os períodos mais perigosos podem ser no inverno. Além disso, chamou a atenção para o fato de que a variante do novo coronavírus encontrada na capital amazonense já está em circulação em outros locais do país.

“Isso sim pode se replicar para outras cidades e pode se replicar quando chegarmos mais perto do inverno na região centro-sul. Vamos combater isso com vacina. É por isso que estamos tão ávidos por receber as vacinas, distribuí-las e imunizar a população. Esta é a grande ação efetiva para segurar a pandemia. E manter as estruturas que foram criadas, os leitos que foram criados para a covid-19 ativos nas regiões que poderão sofrer o impacto”, sublinhou.

Fonte: Agência Brasil – EBC
Edição: Aline Leal

Setenta e sete pacientes com covid-19 foram transferidos do Amazonas

Por: Site

A Força Aérea transportou 74 pacientes e 3 voaram de UTI aérea

A lotação de hospitais públicos do Amazonas devido ao aumento do número de internações de pessoas infectadas pelo novo coronavírus (SARS-CoV-2) já motivou a transferência de 77 pacientes para outras unidades da federação.

Segundo o Ministério da Saúde, a Força Aérea Brasileira (FAB) transportou a 74 pacientes com covid-19 entre sexta-feira (15) e a manhã de hoje (18). Deste total, 23 foram levados para São Luís (MA); 15 para Brasília (DF); 15 para João Pessoa (PB); 12 para Natal (RN) e 9 para Teresina (PI).

A Secretaria de Saúde do Amazonas remanejou outros três pacientes na última sexta-feira (15). De acordo com a pasta, os pacientes foram levados a Rio Branco a bordo de uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) aérea da própria secretaria.

De acordo com o Ministério da Saúde, as transferências fazem parte de um plano de cooperação interestadual, executado pelo governo federal, em parceria com o governo do Amazonas, para “aliviar a demanda do sistema de saúde de Manaus diante do recrudescimento da pandemia no Amazonas”.

A seleção dos pacientes a serem transferidos leva em conta o chamado Protocolo de Classificação de Risco Manchester, observando os sinais e sintomas que a pessoa apresenta e com base nos quais é estabelecida a prioridade de atendimento conforme a gravidade de cada caso. Para ser transferido, o paciente deve apresentar sinais vitais (frequência cardíaca, respiratória e pressão arterial) estáveis, além de assinar um termo de consentimento para a transferência.

Durante o trajeto, o paciente é acompanhado por sete profissionais de saúde. Além disso, as aeronaves usadas devem contar com equipamentos e insumos hospitalares.

Até ontem (17) a noite, a Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas contabilizava 230.644 casos confirmados da doença. Desde que a presença do novo coronavírus no país foi confirmada, no fim de fevereiro de 2020, 6.191 pessoas perderam a vida em todo o estado em consequência da covid-19. Entre os casos confirmados, 1.702 pacientes continuavam internados, em observação, até ontem. Destes, 1.123 ocupam leitos clínicos (486 na rede privada e 637 na rede pública), 561 vagas de UTI (255 na rede privada e 306 na rede pública) e 18 estão nas chamadas salas vermelhas (estruturas destinadas à assistência temporária a pacientes críticos ou graves que, uma vez estabilizados, são encaminhados a outros pontos da rede de atenção à saúde).

Fonte: Agência Brasil – EBC
Edição: Aline Leal

MP vai investigar mortes por falta de oxigênio no Amazonas

Por: Site

Procedimento foi instaurado pelo Gaeco

O Ministério Público do Amazonas (MP-AM) vai apurar as causas e as consequências da falta de oxigênio medicinal em hospitais públicos e privados do estado. O procedimento foi instaurado pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco).

Segundo o MP, promotores vão coletar “possíveis evidências de atuação criminosa organizada” e apontar soluções para a situação – que, em nota, o órgão classificou como “caótica”. Além do Gaeco, a ação contará com a colaboração de membros de outras promotorias que lidam com aspectos como direito à saúde, à vida e à dignidade humana.

Em um despacho conjunto, promotores do Gaeco citam reportagens publicadas pela imprensa que, entre outros aspectos, informam que pacientes internados em hospitais de Manaus devido à covid-19 morreram pela falta de oxigênio.

Alegando que as medidas adotadas para fazer frente ao problema deveriam ter sido tomadas antes, os promotores afirmam ser necessário apurar quem, “entre pessoas físicas, jurídicas, servidores e entidades”, deixou de observar as “medidas de precaução necessárias”, permitindo que, “por motivos de desídia [negligência] ou interesses econômicos”, o “caos” se instalasse no sistema de saúde amazonense.

Desde a semana passada, o Amazonas, sobretudo a capital, Manaus, está às voltas com o desabastecimento de oxigênio medicinal. Já na terça-feira (12), o governador Wilson Lima afirmou que, só nos estabelecimentos públicos de saúde, a demanda pelo produto tinha aumentado mais de 11 vezes além da média diária de consumo em virtude do crescimento do número de casos da covid-19.

“Consumimos, na rede pública estadual de saúde, uma média de 5 mil metros cúbicos diários. Só nessa terça-feira foram consumidos 58 mil metros cúbicos”, disse Lima na terça-feira.

Principal fornecedora do insumo para o estado, a empresa White Martins afirma enfrentar um “cenário de crise sem precedentes”. A companhia, que até recentemente utilizava apenas metade da capacidade de produção da fábrica de Manaus para atender à demanda regional, elevou de 25 mil m3/dia para 28 mil m3/dia o limite máximo de produção da unidade fabril – o que, segundo a empresa e autoridades, ainda é pouco para atender a demanda que, na quinta-feira (14), já chegava a 70 mil m3/dia.

Para mitigar a situação, a White Martins está adotando uma série de medidas, entre elas a importação de parte do oxigênio que produz em suas fábricas da Venezuela e a compra do produto de outros fornecedores locais. O produto também está sendo transportado de outras cidades onde a White Martins tem fábricas para Belém, de onde é levado para Manaus em balsas, de onde a quantidade necessária é redistribuída para o interior do estado.

Força-tarefa

Até o momento, a situação só não foi pior devido a uma operação de guerra montada com o apoio de órgãos públicos, sobretudo das Forças Armadas. Nos últimos dias, aviões da Força Aérea Brasileira (FAB) transportaram até o estado 36 tanques de oxigênio líquido, 1.510 cilindros de oxigênio gasoso, 40 respiradores e 12 usinas de oxigênio, entre outros equipamentos que, até este fim de semana, já totalizavam mais de 168 toneladas de carga. Em média, o estado tem recebido quatro voos diários de aeronaves militares cargueiras (KC-390 e C-130) transportando oxigênio líquido e gasoso, produto altamente inflamável.

Além disso, com o adiamento da entrega, pelo governo da Índia, de 2 milhões de doses de vacina que o Ministério da Saúde comprou do laboratório indiano Serum Institute, o avião comercial que o governo federal fretou para buscar os imunizantes foi usado para transportar sete usinas de oxigênio do Rio de Janeiro para Manaus. Segundo o governo estadual, os equipamentos doados pelo Ministério da Saúde chegaram à capital amazonense na tarde de ontem (17) e vão contribuir para a geração de oxigênio para uma parte dos hospitais locais a partir desta semana.

Juntas, as usinas têm capacidade para gerar o oxigênio necessário para abastecer a 100 leitos de Unidades de Terapia Intensiva (UTIs). Inicialmente, duas usinas vão abastecer a enfermaria de campanha do Hospital Delphina Aziz. Três atenderão os hospitais Platão Araújo, Francisca Mendes e o Instituto de Saúde da Criança do Amazonas. Outras duas usinas restantes serão destinadas a outros hospitais que ainda serão definidos.

Outras cinco usinas de oxigênio foram doadas ao estado pelo Hospital Sírio-Libanês. O governo de Pernambuco e a prefeitura de Recife doaram 200 concentradores de oxigênio que serão destinados a 49 cidades amazonenses com maiores dificuldades de acesso à capital e poucos cilindros de oxigênio disponíveis. Os equipamentos pernambucanos vieram de hospitais de campanha desativados no estado e ajudarão os pacientes que necessitarem de máscaras de ventilação não invasiva, sem a necessidade de respiradores.

Parte dos cilindros de oxigênio doados já foram distribuídos no último fim de semana, com o apoio da Polícia Civil, que usou helicópteros para transportar os equipamentos até hospitais de cidades do interior do estado.

Venezuela

De acordo com o governo estadual, o governo do estado de Bolívar, na Venezuela, também doou oxigênio hospitalar ao estado. A iniciativa, segundo a própria White Martins, não tem qualquer relação com a importação do produto disponível nas fábricas venezuelanas da empresa.

Ainda de acordo com o governo do Amazonas, carretas vindas da Venezuela devem chegar ainda hoje a Manaus, transportando 107 mil metros cúbicos de oxigênio doados pelo governo de Bolívar. “Isso vai contribuir significativamente para que haja uma estabilidade na nossa rede hospitalar, tanto na capital quanto no interior”, afirmou o governador Wilson Lima, em nota.

Também em nota, a White Martins esclareceu que está atuando para viabilizar a importação do oxigênio que identificou estar disponível em suas operações no país vizinho. Esta sim será, segundo a multinacional, “uma operação entre as empresas do grupo, sem envolvimento do governo”.

Fonte: Agência Brasil – EBC
Edição: Valéria Aguiar

Por que o consumo de carne bovina no Brasil deve voltar em 2021 ao patamar de décadas atrás

Por: Site
Homem compra carne em açougue em Santo André, São Paulo
A perspectiva para 2021 é de que os preços da carne de boi continuem em alta – REUTERS/AMANDA PEROBELLI

Em meio a uma alta de 18% no preço das carnes em 2020, o consumo de proteína bovina pelos brasileiros caiu no ano passado ao menor nível em mais de duas décadas.

A perspectiva para 2021 é de que os preços da carne de boi continuem em alta, como resultado da oferta restrita de gado no país e forte demanda da China. Isso num cenário de menor disponibilidade de renda dos brasileiros, com desemprego recorde, avanço da pandemia e fim do auxílio emergencial.

Diante desse quadro, a expectativa de analistas é de uma nova queda no consumo interno de carne bovina esse ano, o que deve levar o acesso à proteína preferida pelos brasileiros a níveis anteriores à década de 1990.

“Quem mais sofre nesse cenário são os consumidores”, diz Rodrigo Queiroz, analista de mercado da Scot Consultoria, especializada em cotações do agronegócio.

Consumo é o menor desde pelo menos 1996

Segundo dados da Conab (Companhia Nacional de Abastecimento), o consumo brasileiro de carne bovina foi de 29,3 quilos por habitante em 2020, uma queda de 5% em relação aos 30,7 quilos por habitante de 2019, ano em que o consumo já havia recuado 9%.

O patamar de 2020 é o menor da série histórica da Conab, que tem início em 1996.

E representa uma redução de 13,5 quilos por habitante em relação ao ponto máximo da série, de 42,8 quilos por habitante em 2006, durante o primeiro governo Lula (PT).

A Conab mede o chamado consumo aparente ou disponibilidade interna per capita, que é o volume produzido, descontadas as exportações e somadas as importações. O número para 2020 é uma estimativa, já que ainda não há dados fechados para a produção pecuária no ano passado.

Mulher compra carne em açougue em Santo André
No ano passado, o preço das carnes subiu 17,97%, segundo o IPCA

Os dados da Conab consideram apenas a carne bovina fiscalizada. Mas, considerando a produção informal, a tendência é a mesma.

Segundo estimativa da consultoria Agrifatto, levando em conta a produção formal e informal, o consumo de carne bovina teria caído 11% em 2020, para 34 quilos por habitante, contra 38,2 quilos por habitante em 2019.

Preço da carne de segunda foi o que mais subiu

No ano passado, o preço das carnes subiu 17,97%, segundo o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), bem acima da alta de 4,52% da inflação em geral.

Dos cortes bovinos analisados pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), apenas o nobre filé-mignon teve queda de preço em 2020, de 6,28%. Já a picanha (17,01%), o contrafilé (12,71%) e a alcatra (5,39%) ficaram mais caros no ano passado.

As carnes de segunda, mais consumidas pela população de baixa renda, cujos rendimentos foram impulsionados pelo auxílio emergencial em 2020, foram as que mais subiram, com alta de 29,74% da costela, aumento de 27,67% do músculo e avanços de 26,79% e 20,75%, respectivamente, do cupim e do acém.

A alta das carnes nos supermercados acompanhou o aumento do preço do boi no campo.

A arroba do boi gordo fechou 2020 cotada a R$ 267,15, uma alta de 29% em relação ao final de 2019, segundo o Cepea da Esalq/USP (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada, da Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” da Universidade de São Paulo).

Somente nos primeiros 15 dias de 2021, o preço do boi gordo já subiu 7,77%.

Falta gado e sobra demanda chinesa

“Há uma combinação de fatores que explica a alta no preço do boi”, diz Lygia Pimentel, diretora-executiva da Agrifatto. “O mais determinante é o ciclo pecuário: entre 2016 e 2018, nós abatemos muitas fêmeas no Brasil, com isso, o preço do bezerro subiu muito e diminuiu a oferta de gado pronto para entregar.”

Desde o final de 2019, com o preço dos chamados animais de reposição (bezerro, boi magro e garrote) em alta, os produtores passaram a reter as fêmeas nas fazendas para produzir novos animais. Com menos fêmeas “indo para o gancho”, na linguagem dos pecuaristas, a oferta de gado para abate ficou reduzida no ano passado e a tendência é que a retenção de fêmeas continue ao longo desse ano, já que o preço do bezerro segue nas alturas.

“O segundo fator importante certamente foi a China, porque, nos outros mercados compradores de carne brasileira — Egito, Rússia, Chile, Estados Unidos —, houve retração”, diz Pimentel, destacando ainda o papel da alta do dólar nesse impulso às exportações para a China, o que reduz a oferta de carne no mercado interno, levando à alta de preços.

A analista destaca que a participação do país asiático nos embarques brasileiros de carne bovina chegou a 40,9% em 2020, comparado a 25,3% em 2019 e 6,5% em 2015.

E que, com esse impulso chinês, a participação das exportações na produção total de carne bovina brasileira chegou a 28% no ano passado, contra 24% em 2019 e 19,3% em 2015.

Forte demanda da China ainda é reflexo da gripe suína

O coronavírus em 2020 tornou o quarto surto de gripe suína da China em 2018 uma lembrança distante. Mas é essa epidemia que ainda repercute na forte demanda chinesa por proteínas.

“Ainda não houve resolução para a peste suína africana. Ninguém sabe o número exato, mas se estima que ela dizimou entre 40% e 60% do plantel de suínos na China, isso representa mais ou menos um terço da produção de carne de porco do mundo”, diz Rodrigo Queiroz, da Scot Consultoria.

Com essa redução na oferta de suínos, os chineses têm consumido mais frango e carne bovina, daí o forte aumento da demanda naquele país.

Além desse fator conjuntural, também contribuíram para o crescimento das importações pela China o fato de ela ter sido a única grande economia do mundo a registrar crescimento em 2020, mesmo em meio à pandemia do coronavírus, e um fator mais de longo prazo, que é o gradual aumento de renda da população chinesa, o que resulta em maior consumo de proteínas mais caras, como é o caso da carne bovina.

Quem se beneficia da alta de preços?

Segundo os analistas, a alta de preços do boi gordo tem impacto distintos na cadeia pecuária.

Os pecuaristas que trabalham com engorda e recria chegaram a perder margem no ano passado, já que o farelo de soja subiu 100%, o milho subiu 70% e o bezerro, mais de 80% dependendo da categoria.

“Por mais que o boi tenha subido de preço, os custos de produção variaram acima”, observa Pimentel, da Agrifatto. Segundo ela, pecuaristas que trabalham com o ciclo completo — produzindo o bezerro, engordando ele e vendendo o boi dois anos depois – tiveram margens melhores, porque seu estoque se valorizou.

Já entre os frigoríficos, a diferença está entre os pequenos dedicados ao mercado interno e os maiores, com certificação para exportar.

“O frigorífico que trabalha exclusivamente com o mercado doméstico foi muito prejudicado em 2020, porque o preço do boi gordo subiu muito e o preço da carne no atacado não acompanhou na mesma medida, então ele perdeu margem.”

Segundo Paulo Bellincanta, presidente do Sindifrigo-MT (Sindicato das Indústrias de Frigoríficos de Mato Grosso), foram muitos os frigoríficos que precisaram fazer ajustes para sobreviver ao ano passado.

“Toda indústria tem uma linha de equilíbrio de produção, com uma série de custos fixos. Quando o abate fica muito abaixo da capacidade da empresa, aumenta o custo no produto final, isso se reflete nesse preço maior que estamos vendo na ponta, com a carne mais cara para o consumidor”, diz Bellincanta, que estima que a ociosidade da indústria frigorífica esteve entre 15% e 25% ao longo de 2020, sendo que o normal é uma folga em torno dos 10%.

E o que esperar para 2021?

No ano que se inicia, as perspectivas não são melhores, já que a renda e a demanda do brasileiro devem diminuir, mas os preços da carne tendem a continuar em alta, devido à escassez de oferta e à forte demanda externa.

“Com o desemprego acima dos 14% e a extinção do auxílio emergencial, o consumidor brasileiro de baixa renda vai para proteínas alternativas, como ovo, frango e suíno, que também estão com valores altos, mas a carne bovina é a que mais sente quando o poder aquisitivo da população diminui”, diz Queiroz, da Scot Consultoria.

Mulher come hambúrguer
Os preços das carnes devem permanecer pressionados pelo menos até a metade de 2022 – GETTY IMAGES

“Esperamos uma nova queda do consumo per capita de carne bovina esse ano, voltando a patamares antigos, de 20, 30 anos atrás”, completa.

O pesquisador Thiago Bernardino de Carvalho, do Cepea, estudou em sua tese de mestrado a relação entre variação de renda e consumo de carnes.

“O consumo de qualquer tipo de alimento de valor agregado maior é determinado por renda, preço e preferência”, diz Carvalho. “A carne bovina de primeira é a que tem maior elasticidade entre as carnes, em torno de 0,6. Ou seja, se a renda aumentar 10%, o gasto com carne bovina de primeira aumenta 6%. Para carne de segunda, a elasticidade é de 0,2.”

“Nesse primeiro semestre, com o fim do auxílio, o consumo cai no mercado brasileiro, sem sombra de dúvida”, diz o pesquisador, ponderando que o quadro pode ser melhor na segunda metade do ano, caso a economia venha a se recuperar, levando a um aumento da renda.

O problema não acaba em 2021

Pimentel, da Agrifatto, avalia que os preços das carnes devem permanecer pressionados pelo menos até a metade de 2022, por conta do ciclo pecuário. “A baixa oferta de boi gordo não é algo que se consegue resolver de imediato. A produção de bovinos é plurianual, começa a produzir hoje, para entregar esse animal daqui dois, três, quatro anos. Então demora.”

Já Bellincanta, do Sindifrigo-MT, avalia que, mesmo quando houver aumento da oferta de gado, os preços da carne bovina não voltarão aos níveis do passado, devido a mudanças na indústria pecuária que tornaram o processo de produção mais custoso.

“O Brasil, a cada dia que passa, tem menos animais sendo terminados a pasto. O grande rebanho brasileiro hoje é terminado em confinamento”, diz o empresário. “Há cerca de dez ou 15 anos atrás, havia menos de 20% de animais terminados a cocho, hoje é mais da metade. Esses animais comem grãos, e por isso são finalizados em 18 a 24 meses, comparado a três a quatro anos quando o animal era solto no pasto.”

“Então teremos uma proteína mais cara sem data, não há volta nesse processo. A arroba do boi ganhou valor e terá oscilações, mas estará sempre em novo patamar.”

Por: Thais Carrança
Fonte: BBC News

Governo Bolsonaro vai deixar quase 400 mil indígenas fora da primeira etapa de imunização

Por: Site

O plano do governo federal prevê que sejam imunizados apenas indígenas que vivem em aldeias dentro de territórios demarcados.

Caos na pandemia: governo Bolsonaro vai deixar quase 400 mil indígenas fora da primeira etapa de imunização
No Amazonas, o governo estadual quebrou a regra e vacinou a primeira indígena de contexto urbano: Vanda Witoto, que mora em Manaus (Foto: Arthur Castro/Secom)

plano nacional de imunização da Covid-19, previsto para começar nesta terça-feira (18) no país, exclui pelo menos 380 mil indígenas porque eles não vivem dentro de aldeias dos territórios demarcados, segundo levantamento do Coletivo Indígenas do Amazonas, que no último domingo (17) lançou uma mobilização nacional para pressionar as autoridades de saúde a ampliarem a cobertura vacinal prioritária. O número é com base no Censo de 2010 do IBGE, no qual aponta que a população indígena é de 900 mil indígenas, sendo que 379,535 mil vivem fora de terras indígenas, portanto, sem cobertura do subsistema de saúde indígena (SUS) do Ministério da Saúde. Este número pode estar subestimado, e deve ser muito maior, chegando a 400 mil, a quantidade de indígenas excluídos da vacina, segundo Lúcia Alberta Andrade, do povo Baré, indígena do Alto Rio Negro, uma das lideranças que assinam o documento (leia ele na íntegra).

Organizações indígenas do Amazonas estimam que só em Manaus, que enfrenta nesta pandemia a pior tragédia humanitária de sua história, há cerca de 20 mil indígenas vivendo em comunidades urbanas. Ao deixar esse grupo de fora das prioridades, o Ministério da Saúde lava as mãos de sua responsabilidade sobre os povos originários. Segundo Lúcia Alberta, na lista dos excluídos estão indígenas de contexto urbano, comunidades rurais fora de terras demarcadas, acampamentos e territórios que lutam por demarcação, além de imigrantes, como é o caso do povo Warao, da Venezuela.

“Todas as vezes que o ministro da saúde [general Eduardo Pazuello] fala em ‘indígenas aldeados’ com prioritários, ele esquece que somos indígenas em qualquer lugar. Eu nasci em uma aldeia do Alto Rio Negro. Por morarmos em cidades e termos uma imunidade mais delicada do que os não indígenas, temos mais facilidade de sermos infectados, até mais do que nossos parentes que estão nas comunidade distantes, mais isoladas. Tem que ser revista essa política de separar indígenas aldeados de não aldeados”, disse Lúcia Alberta à Amazônia Real.

Lúcia Alberta também ressaltou que não são apenas os indígenas de contexto urbano que serão excluídos, mas aqueles que vivem em territórios em processo de demarcação. Ela destaca também a necessidade de incluir os indígenas Warao, refugiados na Amazônia desde 2015.

“Tem esse agravante. Quando fala não aldeados, exclui completamente os indígenas há muito tempo lutam para terem suas terras demarcadas. E que perderam suas terras por todo esse processo de colonização. Essas pessoas correm grave risco de não ter vacinação”, alerta.

A Articulação dos Povos Indígenas Brasileiros (APIB), maior organização indígena do país, deve definir, ainda nesta terça-feira (19), os planos de uma campanha de pressão nacional e internacional para cobrar informações detalhadas do presidente Jair Bolsonaro (sem partido). A organização vai se reunir com pesquisadores da Fiocruz. Segundo Sonia Guajajara, em entrevista à Amazônia Real, a APIB não descarta entrar com medidas judiciais para cobrar por ações efetivas no combate à Covid-19 entre a população indígena.

“Queremos garantir a imunidade para toda a população indígena independente de distância e localização geográfica, desde as áreas mais remotas ao contexto urbano. Nesse momento talvez seja mais difícil conseguir vacinação para quem está perto, pois o governo federal adotou uma política de exclusão dos povos que estão vivendo nas cidades. Isso será uma grande questão a ser enfrentada”, protestou. 

Sonia Guajajara deu como exemplo a situação do Amazonas, onde os indígenas que vivem na capital “estão doentes e morrendo”. “O Amazonas está um caos. Os indígenas em Manaus precisam de apoio. Como ser seletivo [a vacina] nesta situação? Não podemos permitir esse racismo institucional”, afirmou.

Dos 900 mil indígenas, segundo o Censo do IBGE de 2010, mais de 500 mil vivem em territórios tradicionais demarcados. Mas segundo as organizações a população indígena do país passa de 1 milhão.

A condução do combate à pandemia do governo federal envolve não só desinformação e negacionismo, mas também ocultamento de dados reais sobre a situação entre os povos indígenas. O governo Bolsonaro tem subestimado o número de óbitos e a contaminação por Covid-19.

A APIB produz um levantamento próprio da evolução da doença e aponta que o número de óbitos de indígenas é quase o dobro do divulgado pelo governo, 917 ante 513. Desde o mês de abril de 2020, a organização indígena registrou 45.267 casos positivos do novo coronavírus no país A Secretaria Especial de Saúde Inígena (Sesai), do Ministério da Saúde, contabiliza 5.867 mortes, uma diferença de 87,0%.

Nesta segunda-feira (18), com as primeiras doses da Coronavac chegando aos estados, as organizações indígenas do Amazonas iniciaram uma mobilização para pressionar a inclusão de todos os povos originários do Brasil. O documento do Coletivo Indígena do Amazonas traz um abaixo-assinado, liderado por representações dos 65 povos do Estado com a maior população de indígenas autodeclarados (168,7 mil), foi encaminhado ao procurador da República Fernando Merlotto Soave, do Ministério Público Federal (MPF). Eles também reivindicam a criação de planos estadual e municipal de imunização e de um hospital de campanha.

Vanda Witoto é vacinada em Manaus

Velório do Cacique Messias no Parque das Tribos (Foto: Raphael Alves)

No Brasil, a vacinação de imunização do novo coronavírus começou no domingo (16) em São Paulo. A primeira mulher indígena a ser vacinada foi a técnica de enfermagem e assistente social Vanuzia Kaimbé, de 50 anos.

O governo de São Paulo enviou 50 mil doses da vacina Coronavac do Instituto Butantan para o Amazonas. Mais 256 mil doses foram enviadas pelo Ministério da Saúde, segundo o governador Wilson Lima (PSC).

Em Manaus, o início da vacinação começou nesta noite de segunda-feira (18) tendo a primeira pessoa imunizada, com a primeira dose da Coronavac, a auxiliar enfermagem a indígena Vanda Ortega Witoto, de 33 anos.

Moradora do Parque das Tribos, comunidade urbana de Manaus onde vivem mais de 35 etnias, Vanda atendeu centenas de doentes indígenas na primeira onda da pandemia, e agora está de novo na linha de frente da crise em Manaus. Na comunidade vivem 132 famílias, aproximadamente 660 pessoas. Nas duas últimas semanas, 32 indígenas testaram positivo para a Covid-19, segundo Vanda Witoto.

Antes de ser convidada pelo governo do Amazonas para ser a primeira a ser vacinada no Estado, Vanda falou com a Amazônia Real e criticou a falta de vacinação para os povos indígenas que vivem nas cidades brasileiras. “Estamos fora do planejamento de vacinação e de todas as ações realizadas pelo Ministério da Saúde. A Sesai não nos atende por levar em consideração esse termo ‘aldeados’. No quantitativo de 410 mil indígenas que está referenciado para ser vacinado, ficaríamos de fora”, afirmou Vanda.

Morando em Manaus, ou seja, em contexto urbano, ela disse que a escolha pode abrir precedentes para que outros indígenas da capital também sejam incluídos na prioridade. Depois de ser vacinada no Centro de Convenções Vasco Vasquez, na zona centro-sul de Manaus, Vanda Witoto cobrou a vacinação para todos os povos indígenas brasileiros e fez um desabafo ao governador Wilson Lima:

“Para as populações indígenas do Amazonas, esse momento representa muito para o meu povo Witoto e para os 63 povos indígenas do Estado do Amazonas. Esse estado, que tem a maior população indígena do Brasil, precisa ser cuidado”, discursou.

“Eu venho lá do Parque das Tribos, e nessa segunda onda de Covid nós temos, nesse momento, 32 indígenas positivos para Covid. Na verdade, não era para estar aqui, porque nesse momento nós recebemos uma ligação de que quatro parentes estão indo para a UPA (Unidade de Pronto Atendimento), com dificuldade respiratória. Nós estamos montando um hospital de campanha por nossos próprios esforços dentro da comunidade e a gente precisa do seu apoio. A gente já conversou sobre isso [disse ela ao governador]. E quero que esse estado olhe para essas populações aqui”, ressaltou.

Indígenas participam d 5ª Marcha dos Povos Indígenas do Amazonas (2919) (Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real)

A liderança lembrou o histórico de negligência por que passa os indígenas no país e salientou a necessidade de romper a discriminação nas estruturas do poder.

“Os nossos povos, historicamente, são muito negados. Negado por esse sistema de poder, mas nós queremos nesse momento histórico, que essa vacina chegue para os nossos povos na cidade também. Isso é uma luta do nosso movimento indígena. E precisa ser garantido que esses povos sejam contemplados por essa vacina. Ela é importante para nós”, afirmou.

Com uma fala forte e impactante, Vanda pediu que as autoridades “cuidem das populações que estão na cidade” e apontou “precariedade junto a essas comunidades”.

“Nesse momento de pandemia, as nossas comunidades não têm água potável. É preciso olhar para essas questões dos nossos povos na capital. E sou muito grata àquelas pessoas que têm nos ajudado de alguma maneira. Nós temos recebido apoio de remédio. Nós precisamos de alimento na nossa comunidade para essas famílias que estão desempregadas dentro das nossas comunidades. E eu quero, nesse momento aqui, eu só quero agradecer a Deus, a Mooma, ao nosso Deus Criador, aos nossos ancestrais, porque é necessário garantir a vacina não só para 410.000 indígenas. Hoje, nós somos mais de um milhão de indígenas no território brasileiro, que precisa ser cuidado nesse enfrentamento de pandemia”, declarou, emocionada.

“Muito obrigado a todos por esse momento que Tupana olhe por todos nós. Que Deus cuide de todos nós. Viva os povos indígenas!”, finalizou Wanda Witoto

À Amazônia Real, Lúcia Alberta Andrade destacou a relevância das palavras de Vanda Witoto no momento em que o plano de saúde do governo federal ignora as populações de comunidades não demarcadas.

“A vacina em nossa parenta foi uma vitória. Ela levou nossa mensagem para que seja garantida a vacinação para todos os povos indígenas do Amazonas e do Brasil. Em Manaus, temos muitos povos. São quase 20 mil indígenas que vivem em contexto e mais os povos Warao [da Venezuela] que temos acolhê-los. Queremos que eles sejam vacinados. Vivem numa situação bastante vulnerabilidade. A Vanda, por ser indígena em contexto urbano, mostrou a importância dessa vacinação ser para todos os indígenas”, ressaltou.

Até o momento, contudo, o Ministério da Saúde e a Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) não divulgaram como vai ser essa operação da imunização nos territórios indígenas. Não há informações de datas, locais, logística para áreas mais remotas, povos, etc. Historicamente, o subsistema de saúde indígena já possui experiência em ações de imunização de indígenas contra doenças endêmicas como sarampo e gripe.

Covid está em alta entre indígenas

Foto do protesto de Vanda Witoto com o secretário Robson Santos em frente ao hospital
(Foto: Dsei Manaus)

Com três ‘parentes’ com dificuldade respiratória, a enfermeira Vanda Witoto afirma que conseguiu a doação de dois cilindros de oxigênio que deveriam ser instalados na segunda-feira. “Iniciamos uma campanha para a compra de medicamento e o pedido de oxigênio para poder cuidar dos nossos parentes sem levar nos hospitais por conta do caos que está lá fora. Para os que têm mais dificuldade respiratória, fazemos exercícios com garrafa pet para ajudar”, explicou.

O abaixo-assinado “Pela vida de todos os povos indígenas do Amazonas: vacinação para todos!” pressiona o governo do Amazonas a vacinar contra a Covid-19 todos os indígenas do estado, inclusive o povo Warao, oriundo da região do rio Orinoco, na Venezuela e que integra a população migrante daquele país no Estado.

“Se é para morrer calado, morrer sem nenhuma assistência dentro de casa, é melhor morrer com dignidade, na rua, lutando, porque não vamos ficar esperando o governo, que já maltrata tanto a nossa população, continue nos matando”, afirmou a líder indígena Marcivana Sateré-Mawé, coordenadora – executiva da Coordenação dos Povos Indígenas de Manaus e Entorno (Copime).

 “Vão fingir que índio não existe”

A liderança Marcivana Sateré-Mawé (do lado de fora) (Foto: Cáritas)

“Sabemos que o prefeito (David Almeida) foi eleito sem ter nenhuma proposta para atender a população indígena da cidade de Manaus. É uma vergonha a Prefeitura não ter um plano, uma vez que grande parte dos indígenas estão em Manaus. Até quando vão viver fingindo que não existe índio em Manaus?”, indagou a liderança Marcivana Sateré-Mawé,. Segundo ela, na capital amazonense, hoje, são falados 16 línguas diferentes entre os povos originários.

Para o médico sanitarista Douglas Rodrigues, do Departamento de Medicina Preventiva da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo, a imunização dos indígenas em situação urbana deveria ser priorizada. “Eles estão nas cidades para estudar, trabalhar, buscar atendimento. Passa um tempo e voltam. Se a ideia é proteger as comunidades, por que não vacinar essas pessoas?”, questiona o profissional que trabalha com populações indígenas e em isolamento voluntário na Amazônia há mais de 50 anos.

O indigenista aposentado, Armando Soares, que atuou durante 35 anos pela Fundação Nacional do Índio (Funai) na Amazônia, concorda: “Hoje a saúde indígena tem problemas gravíssimos como se negar a atender indígenas que estão na cidade. Isso é inadmissível, como se morar na cidade tirasse a origem das pessoas”, afirma.

“Esse governo que está aí tirou todos os indigenistas, as pessoas capacitadas das Coordenações regionais da Funai e colocou militares, pessoas que sempre foram inimigas dos índios. É difícil conceber que a vacinação possa dar resultado sendo uma iniciativa deste governo”, completa.

Por: Steffanie Schmidt
Fonte: Amazônia Real

Quilombolas também ficarão de fora da vacinação prioritária

Por: Site

Negligenciados pelo Estado durante a pandemia e com alta taxa de letalidade, comunidades lutam para garantir prioridade na campanha de imunização.

Caos na Pandemia: Quilombolas também ficarão de fora da vacinação prioritária
Na imagem acima, Rubens Borges Paiva, morador do quilombo Vila Formosa no Pará (Foto: Cícero Pedrosa Neto/Amazônia Real)

Quilombolas lutam para estarem entre os primeiros grupos na fila da vacinação contra o novo coronavírus, mas se depender do governo federal é pouco provável que isso aconteça. Após meses de desassistência durante a pandemia, em que não conseguiram garantir sequer a segurança alimentar e os insumos básicos para a prevenção, eles batalham na Justiça para serem ouvidos, respeitados e vacinados.

Desde 9 de setembro, tramita no Supremo Tribunal Federal (STF) uma ação de Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF 742/2020), alegando que a omissão do governo federal contribuiu para o avanço da Covid-19 nos territórios quilombolas. A ação foi protocolada pela Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq) e por quatro partidos (PSB, PSOL, PT e PCdoB).

No dia 14 de dezembro, a Conaq aditou a ADPF 742/2020 solicitando, por meio de medida cautelar, a inclusão da população quilombola entre os grupos considerados prioritários pelo Ministério da Saúde para a vacinação. Até 19 de janeiro, a ação repousava na mesa do relator, o ministro Marco Aurélio, à espera de uma decisão.

Segundo a Conaq, a taxa de mortalidade do grupo por Covid-19 é superior à média nacional de cerca de 3%. No Norte, chega a 11,5%. Entre os estados com maior número de mortes pela doença nessa população, dois deles estão na Amazônia: o Pará, em primeiro lugar no ranking com 47 óbitos, e o Amapá, em terceiro com 25.

“Nossa preocupação agora é que a mesma desatenção dada nesses mais de dez meses de pandemia se repita na vacinação do nosso povo”, alerta Givânia Maria da Silva, uma das fundadoras da Conaq. Para ela, a ausência do Estado pode ser lida como uma prova do “racismo estrutural consolidado na sociedade brasileira”.

Não faltam indicações de que, mais uma vez, o governo federal esteja abandonado os quilombolas. Em 1º de dezembro, nas estratégias preliminares de vacinação apresentadas pelo ministro da Saúde, o general Eduardo Pazuello, os quilombolas não foram incluídos entre os grupos prioritários dos primeiros lotes das vacinas. Diversas organizações rapidamente se manifestaram cobrando a inclusão dos quilombolas, incluindo a Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco). 

Em 12 de dezembro, por determinação do STF, o ministro da Saúde encaminhou a primeira versão do que chamou de “Plano Nacional de Operacionalização da Vacinação contra a Covid-19”, no qual as populações quilombolas permaneciam excluídas. No dia 16, uma nova versão do documento foi divulgada e junto aos quilombolas mais quatro grupos passaram a integrar a lista prioritária de vacinação: ribeirinhos, trabalhadores de transportes coletivos, pessoas em situação de rua e a população privada de liberdade.

Já no Amapá, o plano estadual de vacinação nem mesmo considera os quilombolas como grupo prioritário. Revoltadas, as 258 comunidades, distribuídas em dez dos dezesseis municípios do estado, questionaram oficialmente o governo no dia 15 de janeiro. Estima-se que o Amapá concentre cerca de 64 mil quilombolas.

Quilombolas são os últimos entre as “prioridades”

Comunidade Quilombola Mata Cavalo em Nossa Senhora do Livramento (MT)
(Foto: Bruno Kelly/Amazônia Real)

Apesar da inclusão oficial, os quilombolas aparecem como um dos últimos grupos a serem beneficiados com a vacinação ao lado dos profissionais de educação, trabalhadores de outros serviços essenciais e pessoas em situação de rua. Pesquisadores não têm dúvida de que a população que vive em quilombos experimenta níveis de vulnerabilidade que só ficam atrás dos de indígenas aldeados. 

Sem uma segurança jurídica, e com um governo negacionista e declaradamente inimigo das minorias, os povos quilombolas seguem na incerteza. O próprio governador paulista João Doria, estado que deu a largada na imunização com a vacina Coronavac, do Instituto Butantan, garantiu na terça-feira (19) que, ao contrário do Ministério da Saúde que “excluiu os quilombolas da fase inicial do plano nacional de imunização”, vai incluir essa população em São Paulo.

Uma das justificativas já utilizadas para a exclusão dos quilombolas é a de que a ausência de dados oficiais sobre a população e o número de comunidades existentes no país dificultam o planejamento e a logística de vacinação do grupo nesse primeiro momento. O plano destaca que a estimativa populacional dos quilombolas “está em desenvolvimento pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)”. O censo de 2020, adiado por conta do novo coronavírus, seria o primeiro a incluir as populações quilombolas nas bases oficiais de dados.

Em julho de 2020, o presidente Jair Bolsonaro sancionou a Lei 14.021 que prevê medidas de proteção e de assistência para indígenas, quilombolas, ribeirinhos, pescadores e outras populações tradicionais, além da criação de um Plano Emergencial para Enfrentamento à Covid-19. Mas Bolsonaro deixou de fora 22 pedidos do projeto de lei (PL) original, alegando falta de recursos. Em agosto, o Congresso derrubou 16 dos 22 vetos, ficando garantida a declaração do critério raça/cor nos registros e notificações do SUS (Sistema Único de Saúde), visando identificar indígenas não aldeados que tenham contraído a doença. No entanto, mesmo em vigor, a queixa das populações tradicionais é a de que a lei não tem sido cumprida.

O plano nacional prevê a vacinação dos grupos prioritários em três fases iniciais: na primeira, serão imunizadas pessoas acima de 75 anos, pessoas acima de 60 anos institucionalizadas, profissionais da saúde, indígenas aldeados e ribeirinhos; na segunda, está prevista a vacinação de pessoas entre 60 e 74 anos; na terceira fase, pretende-se imunizar as pessoas com comorbidades comprovadas.

Mario Santos, 43 anos, presidente da Associação da Comunidade Quilombola Gibrié de São Lourenço, em Barcarena, no Pará, afirma que está preocupado com a logística da vacinação nas comunidades quilombolas da Amazônia. “Mesmo nós aqui em Barcarena, que vivemos dentro de uma cidade industrial, ouvimos da prefeitura que o acesso à nossa comunidade é difícil, imagine outras que estão distantes horas de rabeta dos municípios onde elas estão”, explica.

“Precisamos garantir a prioridade na vacinação de nosso povo, porque senão daqui há pouco não sobrará nenhum dos nossos velhos para contar para os mais novos sobre as nossas origens, nossos costumes e tradições. Nossa cultura está sendo dizimada por esse vírus”, diz Santos.

A expectativa pela chegada das vacinas

Chegada da vacina contra o COVID-19 em Santarém (Foto: Marco Santos/Agência Pará)

Raimundo Magno, membro da Coordenação Estadual das Associações das Comunidades Remanescentes de Quilombo do Pará (Malungu), relata que há uma grande expectativa para a chegada da vacina entre as comunidades. “A gente tem estado angustiado com relação à vacinação porque não fazemos ideia de quais estratégias e prioridades serão utilizadas pelo Ministério da Saúde para alcançar as demandas da população quilombola”. 

O Pará é o estado da federação com o maior número de comunidades quilombolas, são 528 no total, reconhecidas pela Fundação Cultural Palmares (FCP), onde vivem cerca de 6.000 famílias, distribuídas em 64 municípios do estado. Existem também no Pará outras comunidades autodeclaradas que ainda não conseguiram certificação junto ao órgão.

Para Hilton Silva, professor do programa de pós-graduação em Saúde, Ambiente e Sociedade na Amazônia e do programa de pós-graduação em Antropologia da Universidade Federal do Pará (UFPA), há uma negligência sistemática por parte do Estado brasileiro, no que diz respeito ao tratamento das comunidades quilombolas. 

O professor, que também é membro do Grupo Temático Racismo e Saúde da Abrasco, afirma ainda que o que tem acontecido com os quilombolas durante a pandemia “é reflexo de todo um processo de desconhecimento das suas realidades pelo Estado, que ignora propositalmente suas existências, na tentativa de descaracterizá-los do ponto de vista cultural, com a intenção de tomar suas terras e fazer com que eles se transformem em proletariado camponês”.

Amazônia Real procurou o Ministério da Saúde em busca de informações sobre o plano de imunização e sobre as estratégias que estão sendo elaboradas pelo órgão para atender as comunidades quilombolas, mas não obteve resposta até esta publicação. 

O plano estadual de vacinação do Pará, publicado em 18 de janeiro, considera as populações quilombolas na segunda fase da vacinação, entrando na fila com profissionais da segurança pública na ativa; idosos acima de 60 anos. O plano indica que as prefeituras onde existam populações quilombolas deverão traçar as próprias estratégias e logísticas de imunização dessas comunidades. 

No entanto, segundo relatos ouvidos pela reportagem, há municípios paraenses que nem mesmo reconhecem a existência de comunidades quilombolas em seus limites, indicando mais um problema a ser enfrentado pelos quilombolas durante este processo. Estima-se que haja no Brasil quase 6 mil comunidades autodeclaradas quilombolas.

“Nós nunca tivemos saúde”

Maria de Fátima Gusmão Batista, presidente da Associação de Moradores da Comunidade Quilombola do Gurupá (Foto: Cícero Pedrosa Neto/Amazônia Real)

Segundo o professor Hilton Silva, as populações quilombolas já possuem um histórico de ocorrências de doenças maior que o da população urbana de maneira geral, mesmo da população urbana pobre. São doenças como hipertensão, diabetes, tuberculose e  anemia falciforme. “Você já tem um corpo lutando contra uma série de enfermidades, aí chega mais uma ameaça externa como este vírus e sobrecarrega um sistema que já está no limite. É justamente por isso que essas populações precisam de maior atenção durante a pandemia e precisam ser vacinadas prioritariamente”, orienta Silva.

As más condições sanitárias e a falta de assistência médica são fatores que contribuem para a situação de vulnerabilidade das famílias. Muitas comunidades lutam também contra a invasão e a contaminação dos seus territórios por indústrias de mineração e do agronegócio, algo que ao longo dos anos tem comprometido a segurança alimentar dessas populações. E, segundo a Conaq, a maioria das famílias não conseguiu acessar o auxílio emergencial.

“Aumentou a carência nutricional, a insegurança alimentar, porque eles viviam da agricultura familiar, de tirar os seus produtos e vender nas feiras, então com o autobloqueio e com as barreiras sanitárias improvisadas que foram construídas para tentar evitar que o vírus chegasse às comunidades houve uma perda de renda”, afirma Givânia Silva, da Conaq.

“A questão que temos que observar não é o que a Covid-19 trouxe para as comunidades, mas como elas estavam quando a doença chegou”, ressalta Givânia. Ela se refere a problemas históricos vivenciados pelas populações quilombolas, como a falta de infraestrutura, dificuldades de acesso aos serviços básicos de saúde, saneamento básico, invasões de seus territórios, além de contaminações industriais em comunidades situadas próximas a grandes empreendimentos, problemas que foram acentuados durante a pandemia. 

“Temos feito denúncias aos Ministério Público Federal no Supremo Tribunal Federal, mas o que temos observado é que há uma paralisia no Estado brasileiro como um todo, o sistema de Justiça não tem funcionado”, denuncia Givânia Silva. Núbia de Souza, 39 anos, coordenadora da Conaq no Amapá, caracteriza a falta de cuidados com a população quilombola como “uma forma de violência praticada pelo Estado”. 

“Tenho me perguntado como essa vacinação será feita, qual a ordem? Quais as prioridades? E quais medidas serão tomadas para que a pandemia não acabe se alastrando ainda mais por conta do contato com pessoas de fora?”, acrescenta Hilton Silva.

Não se sabe quantos quilombolas morreram

Elisabete Pereira-, no quilombo Casa Grande no Amapá (Foto Rudja Santos/Amazônia Real)

“O Brasil é um país que quando não mata a população negra, deixa morrer. No caso da pandemia e dos quilombolas, o Estado ainda tem escondido os corpos, ocultado a prova do crime”, denuncia Givânia Silva, indicando o fato de que não existe nenhuma estatística ou banco de dados por parte do governo federal e dos governos estaduais, que quantifique o número de quilombolas infectados e mortos pela Covid-19. “Isso é uma ação de Estado, mas infelizmente o Estado não faz e nós estamos fazendo de maneira precária, porque sabemos que são subnotificados, mas é o que nós temos.”

A frase da líder Givânia é uma tradução quase literal da categoria “necropolítica”, criada pelo filosofo negro e camaronês Achille Mbembe. Para o teórico o Estado age, em determinadas situações, de modo a promover deliberadamente a morte de alguns grupos em detrimento de outros.

Giivãnia falando no Congresso nacional (Foto Arquivo pessoal)

Uma base de dados autônoma foi montada pela Conaq, em parceria com o Instituto Socioambiental (ISA), para o monitoramento do avanço da doença nos territórios quilombolas. Até o dia 18 de janeiro havia 4.753 casos confirmados e 179 óbitos, mas a própria entidade avisa que esses dados são subnotificados.

Os dados são compilados a partir das informações repassadas pelos núcleos estaduais da Conaq, que por sua vez recebem as estimativas via WhatsApp diretamente das comunidades. “Tu achas que a gente consegue dar conta da demanda que temos por aqui?”, pergunta Raimundo Magno, integrante da Malungu, que tem atuado no auxílio às comunidades quilombolas do Pará. A instituição não dispõe de estrutura logística para alcançar as 528 comunidades autodeclaradas e reconhecidas pela FCP, presentes no estado. “Não houve nenhuma iniciativa por parte do Estado, nenhuma campanha, medida de prevenção, ou registro dos casos ocorridos em comunidades quilombolas”, diz Magno.

No Pará, a Malungu em parceria com a Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA), passou a elaborar boletins informativos com os quantitativos informados pelas comunidades do Pará. Além do número de casos confirmados e de óbitos, o boletim informa também a quantidade de pessoas sem assistência médica e de suspeitos em tratamento. Segundo o último boletim, lançado no dia 14 de janeiro, havia 2.149 casos confirmados, 46 óbitos, 1.225 casos suspeitos sem assistência médica e 1.228 suspeitos em tratamento no estado.

“Na nossa comunidade só foram diagnosticadas 3 pessoas com a doença, as outras 85 nós que diagnosticamos pelos sintomas, e nos resguardamos”, afirma Mário Santos. A Amazônia Real buscou as mesmas informações de registros estatísticos nos bancos de dados do governo do Pará. A Secretaria de Saúde informou que “esses dados não são inseridos no Sistema do Ministério da Saúde, pois não há campo para classificar o paciente como quilombola”, ainda que exista uma estatística feita pela própria Sespa que permitiria incluir os dados. Questionada sobre o estado concentrar o maior número de casos de óbitos entre os quilombolas, a Sespa atribui à maior testagem e pelo maior contingente populacional.

Dona Maria Divina no quilombo do Amapá (Foto: Anderson Menezes/Amazônia Real)

Por: Cicero Pedrosa Neto
Fonte: Amazônia Real

Colapso no Amazonas: cresce o número de sepultamentos por covid-19

Por: Site

Vacinação do grupo prioritário deve começou nesta segunda (18), enquanto municípios do interior ainda são abastecidos

Crise de falta de oxigênio e colapso do sistema de saúde no Amazonas registra aumento nos sepultamentos com mais de 6 mil mortes por covid-19 no estado. – MICHAEL DANTAS / AFP

Após o colapso do sistema de saúde, na última quinta-feira (14), o estado do Amazonas começou esta semana registrando mais um crescimento no número de óbitos em decorrência da covid-19. Nesta segunda-feira (18) foram registradas 6.191 mortes, quase 280 mil casos confirmados e a fila de espera por um leito já passa dos trezentos pacientes, de acordo com dados da Secretaria de Saúde do Estado.

Em compensação, por causa da repercussão da calamidade de pacientes morrendo sem oxigênio nos principais hospitais, começaram a chegar novos cilindros, por meio de doações e ações do poder público. O governo do estado também iniciou a transferência dos pacientes graves com covid-19 para outras regiões. Ao todo, já foram transferidos 94 pacientes, endereçados para unidades no Piauí, Maranhão, Goiás e Paraíba.

Segundo comunicado da Secretaria Estadual de Saúde, 30 municípios retiraram, nos últimos dois dias aproximadamente 950 cilindros de oxigênio na própria Secretaria, na Central de Medicamento e na empresa White Martins. Outros 150 cilindros, ainda segunda SES, foram enviados via terrestre ou aérea para as cidades de Tefé, Coari, Parintins, Fonte Boa e Tapauá. 

Colapso

O sistema de saúde do estado entrou colapso na última quinta-feira (14), quando as unidades bateram recorde de internações e a demanda por oxigênio aumentou cinco vezes. Os médicos ficaram desesperados e começaram a gravar vídeos denunciando a situação. Alguns pacientes morreram por asfixia, quando não conseguem respirar.

A crise também atingiu quem não estava com covid-19. Era o caso de bebês recém-nascidos, que precisavam fazer uso do oxigênio. Especialistas, como epidemiologista Jesem Orellana da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) no Amazonas, afirmam que esta crise era evitável e que os governos estadual e federal sabiam que o oxigênio não seria suficiente para uma nova onda de internações  no estado.

“O governo do estado do Amazonas, na figura do governador, obviamente, reconhece que vinha fazendo o monitoramento de vários indicadores, incluindo do consumo de oxigênio medicinal. Portanto, eles vinham acompanhando essa situação há mais de duas, três semanas; eles sabiam que provavelmente nós chegaríamos a uma situação limítrofe como essa, e isso é uma situação que precisa ser investigada pela justiça”, pontuou. 

Com a escassez do oxigênio, as famílias dos pacientes se lançaram numa corrida em busca dos cilindros no mercado e se depararam com um aumento de preços incalculável, como recorda a psicóloga Karla Tayná, cujo tio estava internado no Hospital 28 de Agosto, um dos maiores de Manaus.
 
“A gente nunca imaginou que viveria o que viveu na semana passada. Muita gente procurando cilindro para comprar, as empresas aumentando o preço absurdamente; um cilindro que vale 600 reais indo para 6 mil reais. Imagina que muitas famílias não conseguiram comprar. É muito caro”, relata ela. 

Enem

A crise na saúde provocou o adiamento do Enem, o principal exame nacional que garante o acesso ao Ensino Superior, e os estudantes amazonenses farão a prova nos dias 23 e 24 de fevereiro.

A manutenção do exame não agradou a alguns candidatos, como Ana Paula Feitosa, que tentará o curso de medicina no vestibular. “Eu acho muito injusto, porque assim como foi difícil para mim me preparar, imagino que para muitos outros também. Então, você ainda ter que fazer  uma prova com familiar internado, ou depois de perder um familiar, é muito triste”, declarou. 

Vacina

O governo do Amazonas iniciou a vacinação do grupo prioritário nesta segunda-feira (18). O estado recebeu 256 mil doses do governo federal e 50 mil do governo de São Paulo.

Em comunicados à imprensa, o governo estadual anunciou requisição de novos cilindros, transferências de pacientes, força tarefa da equipe da assistência social e fiscalização sobre o abastecimento de oxigênio nas unidades do interior. 

A justiça federal do Amazonas determinou que o governo federal apresente um plano de abastecimento de oxigênio e transferência de pacientes com risco de morte. Até o momento, segundo informações do ministério da saúde, foram enviados 350 cilindros e 373 bombas de infusão, mas quantidade ainda é insuficiente.

Por: Afonso Bezerra
Fonte: Brasil de Fato

Pesquisadores descobrem nova espécie de cobra d’água e alertam para risco de extinção

Por: Site
Vistas dorsal, lateral e ventral da cabeça do holótipo de Helicops phantasma, nova espécie de cobra d’água. Imagem retirada do artigo “Long known, brand new, and possibly threatened: a new species of watersnake of the genus Helicops Wagler, 1828 (Serpentes; Xenodontinae) from the Tocantins- Araguaia River Basin, Brazil”/Reprodução

A ciência acaba de descobrir a existência de uma nova espécie de cobra d’água, mas pode ser tarde demais. O alerta vermelho de risco de extinção veio cedo para a recém-descrita Helicops phantasma porque a maior parte do seu habitat conhecido, na bacia do Tocantins-Araguaia, está hoje alagada pela represa construída por duas usinas hidrelétricas – Luís Eduardo Magalhães e de Estreito. As coletas da espécie foram feitas antes da construção das usinas, quando já havia a suspeita dos pesquisadores de que poderia se tratar de uma espécie diferente. Até então, a phantasma era associada a Helicops leopardinus, uma cobra d’água mais comum, que ocorre no Brasil inteiro.

A descrição da nova espécie, Helicops phantasma, foi publicada em um artigo na revista científica Zootaxa no início de janeiro. A pesquisa é assinada por cientistas do Programa de Pós-Graduação em Biologia Animal da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Universidade Federal de Mato Grosso e da Universidade Federal de São Paulo.

O batismo científico dado à nova cobra d’água – phantasma – não é à toa. A inundação provocada pela represa das usinas hidrelétricas atingiu a maior parte dos habitats onde os indivíduos desta espécie foram encontrados, antes do alagamento. “Ou seja, é bastante provável que a espécie esteja altamente ameaçada de extinção; portanto, talvez tenhamos uma espécie que dificilmente veremos”, alerta Pedro Nunes, professor da UFPE.

Os primeiros indivíduos da espécie, e a maioria deles, foram coletados durante os trabalhos de resgate de fauna que antecederam a construção da Usina Hidrelétrica Luís Eduardo Magalhães, no rio Tocantins, no início dos anos 2000. “Na época, apesar de muitos pesquisadores concordarem que os indivíduos eram diferentes do que já conhecíamos para as cobras d’água brasileiras, ainda não existiam evidências suficientes para a atribuição de um novo nome”, explica Nunes.

Sua coloração similar a da Helicops leopardinus, uma cobra d’água comum e amplamente distribuída no Brasil, levava alguns a apontarem que poderiam se tratar da mesma espécie. Dois fatos identificados pelos pesquisadores desmontaram essa teoria: a ausência das manchas típicas de leopardinus na nova espécie, onde são substituídas por bandas transversais; e a presença de um órgão sexual masculino (hemipênis) único no gênero.

Para chegar na sua distinção definitiva de outras cobras do gênero Helicops, os cientistas fizeram a análise biomolecular de um grande número de espécies, a partir dessas amostras preservadas capturadas anos atrás, e identificaram características que comprovaram que a phantasma é de fato uma espécie diferente.

Por: Duda Menegassi
Fonte: O Eco

Avanço da monocultura no Maranhão ameaça produção do acampamento Marielle Franco

Por: Site

Mais de 150 famílias produzem alimentos na área, pulverizada com agrotóxicos para plantio de eucalipto e soja

Chamadas de deserto verde, extensas produções de eucalipto se espalham pelo Maranhão – Divulgação

Em meio a uma imensidão de soja e eucalipto, o acampamento Marielle Franco, próximo ao município de Itinga, no Maranhão, é considerado um ponto de resistência e sustentabilidade. Apesar de ainda não terem garantia da posse da terra, que está em processo de desapropriação, os agricultores acampados ali já avançam na produção de arroz, feijão, fava, abóbora, farinha, milho e diversas frutas e hortaliças.

Acampadas desde 9 de junho de 2018, as cerca de 150 famílias produzem uma diversidade de alimentos em um pequeno espaço de 110 hectares da área ocupada, em meio à pulverização de agrotóxicos para o cultivo de soja e eucalipto que se espalha pelo sul maranhense.

A região compreendida como mesorregião sul maranhense é pioneira na produção de soja em larga escala. Ainda no final dos anos 1990, alcançou a margem de 448,4 mil toneladas produzidas em quase 176,4 mil hectares, que antes era espaço de agricultores familiares que, da terra, tiravam a subsistência, mas se viram obrigados a migrar para centros urbanos como Itinga, Açailândia e Imperatriz.

Famílias do acampamento comercializam o excedente de produção nos centros urbanos e garantem renda / MST-MA

Filho de lavradores, o produtor Emílio Alves explica que as famílias ainda usam técnicas manuais de plantio e colheita, mas a produção já é suficiente para manter a subsistência de todas elas e gerar renda.

“Apesar de ser uma produção chamada de roça no toco, que é na foice e no machado mesmo, hoje nós temos uma produção muito boa. Digo com toda a segurança: hoje o feijão, o arroz, a fava, que é o que a gente consegue guardar, eu ainda tenho na minha casa para o consumo, frutos da mão de obra braçal, frutos da nossa terra”, destaca Emílio.

O produtor Emílio Alves se orgulha de alimentar a família com o que planta, entre arroz, feijão e farinha / Emílio Alves

Desapropriação em andamento

O acampamento Marielle Franco possui uma área de plantio reduzida em razão do processo de desapropriação em andamento. Contudo, em cerca de 110 hectares, os agricultores garantem destaque especial à produção de arroz, que deve alcançar a marca de 140 toneladas para a safra de 2020/2021.

Integrante da coordenação estadual do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Divina Lopes explica que, além de garantir alimento saudável para a população da região, o espaço é a garantia de preservação do bioma, de territórios e comunidades que precisam da terra para o sustento.

“O acampamento Marielle fica sitiado pelo avanço do monocultivo do eucalipto e da soja, então se constitui ali um espaço de produção de resistência, porque, além de ser um espaço de produção de alimento saudável, de alimento diversificado, é um espaço também que constitui uma muralha de impedimento do avanço dos monocultivos, que têm destruídos biomas, territórios e comunidades”, argumenta.

Sem agrotóxicos, as áreas de cultivo apresentam uma grande diversidade de produtos entre frutas, legumes, verduras e hortaliças / Emílio Alves

Com um plantio livre de agrotóxicos, os produtores também declaram preocupação com o avanço do monocultivo, que, além de retirar agricultores de suas terras, também prejudica o plantio de alimentos em razão da pulverização de agrotóxicos na região.

“As pragas vão correr para onde não tem agrotóxico, isso é bem claro. Eles põem agrotóxico de um lado, então elas se refugiam na mata, e quando você faz essa abertura, elas vão atacar a tua produção. Essa é a nossa preocupação e, inclusive ano passado, a gente teve perda de muita fava. Não sabemos como resolver isso, porque cada vez mais os campos estão crescendo”, lamenta Divina.

Desmatamento no Maranhão

O Maranhão foi o estado que mais desmatou o cerrado para a agricultura, pecuária e plantio de eucalipto entre agosto de 2019 e julho de 2020, o que representa um crescimento de 13% nesse período, informam dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE).

Ainda segundo o Inpe, a região sul maranhense, onde está localizado o acampamento Marielle Franco, foi a que mais perdeu mata nativa, com uma estimativa de 7.300 km², o equivalente a cinco vezes a área da cidade de São Paulo.

Por: Mariana Castro
Fonte: Brasil de Fato

Com posse de Biden, Brasil sofrerá pressão conjunta de EUA e Europa por Amazônia

Por: Site

Diplomatas avaliam que nova Casa Branca se dedicará a vincular política ambiental à comercial. Embaixadores em Brasília dizem que, para não perder dinheiro, Planalto terá que ajustar discurso

Ernesto Araújo no Itamaraty no dia 8 de janeiro.
Ernesto Araújo no Itamaraty no dia 8 de janeiro. ADRIANO MACHADO / REUTERS

Pelos próximos dois anos, a boa relação do Brasil com os Estados Unidos dependerá muito mais do Governo Jair Bolsonaro do que o de Joe Biden, que será empossado na presidência americana nesta quarta-feira. Se o presidente brasileiro insistir na sua política ambiental que pouco protege o meio ambiente e na condução ideológica de seu ministério das Relações Exteriores, corre o risco de fazer o país perder dinheiro e ser cada vez mais um pária na arena internacional. A avaliação foi feita por quatro embaixadores europeus e asiáticos que trabalham em Brasília e foram ouvidos para esta reportagem. Todos falaram sob a condição de não terem seus nomes publicados. E todos entendem que uma sinalização de que a política brasileira estaria além da relação Donald Trump-Bolsonaro seria demitindo os ministros Ricardo Salles (Meio Ambiente) e Ernesto Araújo (Itamaraty).

Conforme esses diplomatas, os chanceleres de países europeus, principalmente, darão suporte a qualquer veto ou restrição que Biden fizer ao Brasil por conta política ambiental. E mais. Já pediram que o presidente americano o faça. “A França já sinalizou que quer deixar de ser dependente da soja brasileira. A tendência é que, sem a proteção ambiental, os países encontrem mais argumentos para impor barreiras ao Brasil e, consecutivamente, protegerem os seus próprios produtores”, disse um diplomata europeu. “Quem não cuidar do que resta das florestas no mundo, acabará duramente punido onde mais dói, no bolso”, afirma outro representante de embaixada estrangeira.

A chegada de Biden encontra o Brasil em uma situação já frágil em termos internacionais. Se, sob sombra de Trump, Bolsonaro tinha uma caixa de ressonância poderosa e relativo pouco custo para a estratégia de isolamento internacional, agora o jogo começa a mudar. As últimas semanas foram de reveses para o Planalto na chamada “diplomacia da vacina”. O país, tenta, sem sucesso, acelerar a chegada de compras de doses prontas da vacina Oxford/AstraZeneca da Índia assim como de insumos para a fabricação de imunizantes vindos da China.

Uma das possibilidades que tem sido aventada no âmbito internacional seria a de Biden apoiar que a Organização Mundial do Comércio (OMC) estabeleça uma política de restrição a quem infringir determinadas normas ambientais. É algo parecido com o que ocorreu na década de 1990, quando havia severos vetos aos negócios com países em que eram registrados trabalho infantil ou escravo. É um debate que ocorrerá ainda ao longo de 2021.

“Os EUA querem criar uma nova doutrina mundial que prima pelos predicados da economia verde, da proteção da biodiversidade, mas também como componente vital na regulação das relações comerciais”, ressalta o cientista político e pesquisador de Harvard, Hussein Kalout, que foi secretário especial de Assuntos Estratégicos da Presidência sob o Governo Michel Temer. A escolha de John Kerry, ex-secretário de Estado de Barack Obama, para ocupar o cargo de “czar ambiental” de Biden é uma dessas sinalizações de endurecimento da política verde do novo presidente.

Outra indicação de que a política de Biden também enfraquecerá Bolsonaro foi a opção dele por Anthony Blinken para o cargo de secretário de Estado. Ele é um defensor do multilateralismo, ao passo que o presidente brasileiro, assim como Trump era, é um crítico das organizações internacionais e defensor de acordos bilaterais.

De início, contudo, Biden terá preocupações urgentes antes de tratar da política externa com o Brasil. Entre elas, estariam o combate à pandemia de coronavírus, estratégias para recuperar a economia americana e como recompor a política interna que ficou extremamente polarizada principalmente no fim do mandato de Trump. Na visão de Kalout, a gestão do democrata será pragmática na seara internacional, e com o Brasil não será diferente. Pontes não seriam queimadas, mas o Brasil seria colocado em espera, por um tempo.

“O alinhamento entre os Governos brasileiro e americano foi para além do que é um alinhamento automático. Tivemos uma subordinação de interesses. Perdemos a autonomia decisória em matéria de política internacional. O Brasil tornou-se incapaz de tomar decisões desprendidas daquilo que o Trump entendia o que era necessário para o Brasil”, ponderou o ex-secretário de Temer.

Desde que assumiu a presidência, Bolsonaro fez questão de se aproximar de Trump. Mesmo após a confirmação da eleição de Biden, ele insistiu na infundada tese de que as eleições americanas foram fraudadas. E foi um dos últimos a parabenizar o vencedor do pleito.

Sobre a possibilidade de se demitir Salles e/ou Araújo, Kalout diz que essa medida não surtiria efeito de imediato, a menos que a condução da política dessas pastas mudasse. “Não adianta só trocar nomes. Tem de trocar o direcionamento, tem de trocar a maneira de se conduzir. E isso não depende, exclusivamente, do ministro que ocupar o cargo, mas do presidente”, diz o cientista político.

Um tema que deverá sofrer poucas mudanças é o da tecnologia da internet 5G. Trump vetou a presença da empresa chinesa Huawei dos Estados Unidos e tem pressionado para que países aliados o façam. O presidente Bolsonaro vinha sinalizando que seguiria o caminho traçado pelo republicano, mas ainda não havia uma definição final. O leilão da frequência deve ocorrer até meados deste ano. Agora, mesmo com a assunção de Biden a tendência é que alguma limitação à empresa chinesa persista, ainda que de maneira mais moderada.

“Essa guerra é suprapartidária. Se fosse o Trump ou o Biden seria a mesma coisa. Se não vierem vetos, virão barreiras que vão dificultar uma vitória da Huawei”, disse um dos diplomatas. O que está em jogo, não é apenas a questão financeira, mas a guerra geopolítica que EUA e China travam por essa tecnologia. Avaliação parecida é feita pelo cientista político Kalout. “Não tem como o Brasil banir, ele ainda depende da Huawei. Mas os EUA vão exercer pressão para delimitar essa entrada da Huawei no 5G do Brasil, mas também em toda a Europa”, afirmou.

Por: Afonso Benites
Fonte: EL País

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